
[Gala e Salvador Dali]
voltei a página, a folha que se seguia estava em branco
bem como todas as outras, cosidas com uma linha preta
conseguia ouvir o silêncio que ficava entre o espaço das vozes que se sentavam a meu lado
conseguia ver a sombra das pernas cruzadas estender-se no chão, o mesmo que eu martelava com a ponta da sapatilha
uma mão de dedos esguios pousou-me no ombro
no mesmo instante senti o calor que atravessava a camisola que vestia e senti o frio que me gelou os ossos
a outra mão, também de dedos esguios e tortos segurava um isqueiro que pousou na mesa onde se acumulavam papeis, duas chávenas, um copo com água da torneira e pó
não controlava os meus gestos e a caneta que segurava bateu contra o chão e escorreu pelo pavimento sujo
quando ergui a cabeça e olhei, olhei apenas para ausência: estava sozinha, naquela mesa, naquele café:
eu e um isqueiro
(... continua)
sensações noire a escorrerem pelas paredes do ser. há uma luz poética de brilho escaldante neste quadro negro, quase decadentista, onde o belo emerge do sujo, do gelo, da náusea, do desconforto. ao fundo da tela, um café. só aí, ao fim da tarde, tudo é possível.
ResponderEliminarabraço, laurita!