«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

sexta-feira, 17 de abril de 2020


será que alguém,
do outro lado,
alguém do outro lado me dá mão,
enquanto deste lado
finjo desaparecer
mas hei-de regressar
feito filha pródiga
mas neste momento, não estou aqui
e não estou aí, não sou eu, nem tu


mas o que eu gostava era de saber cantar,
de cantar para alguém e esperar que alguém me ouvisse
então eu gritaria
até ficar rouca
até cair para o lado
até vocês se irem embora
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA


e aos poucos vamos tentando não morrer
sabendo que de dia para dia
morremos um bocadinho mais
é tudo ou nada
em suspenso no ar:
não precipita
não sublima
assim, como um manequim exposto numa montra
não chora
não ri
não fala
não ouve
mas está lá, onde deve estar
venham as chuvas
siga a primavera
que eu corro, corro, corro
em suspenso

quarta-feira, 18 de março de 2020



se calhar devias tê-lo feito
mas agora que não o fizeste
diz-me tu o que vais fazer?
eu por mim optei por não pensar, muito
distrair a mente com o que me rodeia
se bem que o que me rodeia
é um punhado de medo
e seu eu não o fiz
agora talvez o não consiga fazer
pelo menos sei o que é ter medo
com todas as letras

m de morte
e de esquecimento
d de dor
o de ontem

já não importa o caminho
andar numa estrada que não se sabe onde termina
porque os passos são poucos e vagos
não fossem todos os filmes que eu vi
e não perderia tempo a ver imagens em meu redor
não sei o que tenho
mas sei o que desejo
já nada importa, já nada importa
e o raio dos pássaros não param de cantar
e o raio da Primavera vem aí
e agora talvez já de nada valha a pena

m de monstro
e de esquisito
d de disfarce
o de ontem

sábado, 18 de janeiro de 2020

The Silence







venho
dos outros lados de lá, dos lados do inferno
trago
a pele queimada pelo fogo da espera
tenho
os olhos cobertos de cicatrizes, como se tal fosse possível

não sou uma figura, nem tão pouco um reflexo

venho
do outro lado de mim, do lado que não se vê
sinto
a dor, ouço o silêncio, esqueço as palavras
tenho
um nó no peito, um coração que não bate
ando
e continuo continuando, sem saber como o fazer

sábado, 23 de novembro de 2019

https://www.youtube.com/watch?v=URCWjqmAbrg&list=PLDisKgcnAC4SnFEUod_x868Oq_qgGCVEE&index=20

não, não fui eu que enlouqueci
não estou louca quando me rio com todos os dentes que tenho
não estou doida quando falo com toda a voz que as minhas cordas vocais me permitem
não estou perdida quando abraço o vento e deito a cabeça para trás para beber a chuva
e não fui eu que enlouqueci, foste tu

sabes, aqui o tempo não para:
acertam-se os relógios, pelo menos duas vezes ao ano
mudam-se as folhas do calendário da mesma forma que se pagam as contas
marca-se o cartão, escreve-se o sumário,
entregam-se folhinhas e folhinhas, autorizações e pedidos
e tudo é para ontem e ninguém quer saber

sabes, aqui todos fazem de conta:
que são os melhores, os perfeitos
nas suas romarias exibindo os sorrisos programados,
aqueles que no final, com cinco cêntimos do bolso
vão apresentar a folha limpa

e sabes, não fui eu que enlouqueci
foram os outros:
que têm olhos e não sabem ver
que têm ouvidos e não sabem ouvir
que têm boca e só sabem falar

e sabes,
ensinaram-me a ler, as palavras e o seu significado
eu sei dançar e também sei cantar
sei desenhar o mundo com o meu dedo indicador
sei os passos a dar sem olhar o mapa

não fui eu que enlouqueci:
e este lugar torna-se insuportável, agora que sei que não fui eu, não fui eu

quinta-feira, 10 de outubro de 2019


o cabo entrou pela sala a correr, a gritar e a esbracejar:
venha rápido o do colchão 7 está a morrer, está a morrer
mantive-me sentada, com a caneta na mão que, entretanto, tinha parado de rabiscar uma folha que por acaso estava por ali, perante a minha expressão de dúvida, repetiu:
é o do colchão 7, aquele das tripas presas por ligaduras, é esse, o das tripas
limpei o suor que se acumulava na testa, levei a mão ao queixo num acto involuntário de pensar, do outro lado ainda ouvia
está cheio de sangue, não pára de gritar, venha, venha rápido
levantei-me e segui pelo corredor escuro e pensava, pensava muito
não era disto que eu estava à espera e o raio da lâmina, ainda que afiada, nada corta e além do mais não nasci para fazer de Deus