«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

balada XVI

todos os dias contam-se:
números, pessoas, casas, os minutos que restam
todos os dias arrumam-se:
livros, folhas, velhos bilhetes
todos os dias esquecem-se:
datas, números, dias, anos
todos os dias lembram-se:
locais, números, pessoas, instantes
todos os dias escolhem-se:
nomes, estátuas, lápides

todos os dias, todos os dias
os dias todos, esquecidos:
não te preocupes, eu estou bem

 

purgatorium XXVII


Os pensamentos surgem-me em catadupa, atropelam as linhas tortas do tempo imóvel e acumulam-se na mente. Comprimem os ossos do crânio do lado de dentro.
Uma dor aguda que cresce sem parar sobre a linha das sobrancelhas. Franzo-as. Fecho os olhos.
Sinto que vai chover em breve. Antevejo pesadas gotas de água fria ensopando-me os ossos. E a dor, permanece lá.
Abro os olhos para um céu vermelho, colunas de ar abafado entre o céu e a terra.
A cegueira dos dias quentes chegou. A lucidez da solidão continua.


Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

notas para possível poema de amor táctil


I
agarro uma a uma as frutas esquecidas sobre a mesa
mordo a sua pele dura, encontro a carne mole
o seu suco escorre-me pela boca

II
irrequieta, a língua acaricia o céu da boca
lábios abertos
à procura dos dedos de açúcar

III
olhos cerrados, mãos despertas
pele contra pele
pernas que se abrem sorrateiras
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

Domingo, 20 de Maio de 2012

Polaroid 51


Rented room

passava os dedos pelo teu corpo
unia os sinais que te cobriam a pele,
que fazes? ria-me sempre das tuas perguntas:
descubro uma nova estrada, furto um avião

encaixava o calcanhar na tua clavícula
a outra perna pendia da cama, à sorte
sentia os teus dedos cravarem-se nas costelas:
mostra-me o mar de onde irás partir

os sinais no teu corpo aumentavam
as tuas cicatrizes eram gigantes ofuscando o olhar
infinita tempestade que em mim encontrava sossego
e a perna a balançar na sua sorte
Fotografia de Man Ray, 1928

purgatorium XXVI

Uma cortina desce pesarosamente, tingindo o meu olhar com a sua cor: cor de sangue, cor de sonhos abatidos um a um, cor de lágrimas secas dentro dos olhos, cor dos abortos do tempo, cor do dia que se acerca da porta.
É inútil ignorar e fugir seria uma atitude mentecapta. O amanhã foi minuciosamente traçado ao longo de todos os dias que o antecederam. Cada passo foi sempre dado para alcançar o dia de amanhã. Que sei eu ainda? E fugir? Fugir para onde?
Há uma bala guardada, algures, com o meu nome gravado.
 

esventrado XIII

não, não fales
de viagens sem destino nas costas das tuas mãos
de mergulhos doces na areia debaixo dos nossos pés

não, não fales
em abrir o tempo e beber o azul do céu
em esticar os braços, aprender a voar

não, não fales
todas as mansões serão muito em breve
ruínas desfeitas entregues ao silêncio

 

Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

esventrado XII

arrastam-se pesados
entre as sombrias paredes,
sons metálicos
gritados no passado distante


cunham sombras
indeléveis
nas esquinas cegas
do olhar


fracos ossos,
punhos cerrados
cravados no betão da memória:
o teu punhal espera por mim