«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

sábado, 23 de novembro de 2019

https://www.youtube.com/watch?v=URCWjqmAbrg&list=PLDisKgcnAC4SnFEUod_x868Oq_qgGCVEE&index=20

não, não fui eu que enlouqueci
não estou louca quando me rio com todos os dentes que tenho
não estou doida quando falo com toda a voz que as minhas cordas vocais me permitem
não estou perdida quando abraço o vento e deito a cabeça para trás para beber a chuva
e não fui eu que enlouqueci, foste tu

sabes, aqui o tempo não para:
acertam-se os relógios, pelo menos duas vezes ao ano
mudam-se as folhas do calendário da mesma forma que se pagam as contas
marca-se o cartão, escreve-se o sumário,
entregam-se folhinhas e folhinhas, autorizações e pedidos
e tudo é para ontem e ninguém quer saber

sabes, aqui todos fazem de conta:
que são os melhores, os perfeitos
nas suas romarias exibindo os sorrisos programados,
aqueles que no final, com cinco cêntimos do bolso
vão apresentar a folha limpa

e sabes, não fui eu que enlouqueci
foram os outros:
que têm olhos e não sabem ver
que têm ouvidos e não sabem ouvir
que têm boca e só sabem falar

e sabes,
ensinaram-me a ler, as palavras e o seu significado
eu sei dançar e também sei cantar
sei desenhar o mundo com o meu dedo indicador
sei os passos a dar sem olhar o mapa

não fui eu que enlouqueci:
e este lugar torna-se insuportável, agora que sei que não fui eu, não fui eu

quinta-feira, 10 de outubro de 2019


o cabo entrou pela sala a correr, a gritar e a esbracejar:
venha rápido o do colchão 7 está a morrer, está a morrer
mantive-me sentada, com a caneta na mão que, entretanto, tinha parado de rabiscar uma folha que por acaso estava por ali, perante a minha expressão de dúvida, repetiu:
é o do colchão 7, aquele das tripas presas por ligaduras, é esse, o das tripas
limpei o suor que se acumulava na testa, levei a mão ao queixo num acto involuntário de pensar, do outro lado ainda ouvia
está cheio de sangue, não pára de gritar, venha, venha rápido
levantei-me e segui pelo corredor escuro e pensava, pensava muito
não era disto que eu estava à espera e o raio da lâmina, ainda que afiada, nada corta e além do mais não nasci para fazer de Deus


entras aqui a fazer de conta que estás muito doente
que carregas um mal que não pode ver, mas que se irá remover
como uma nódoa na toalha de Natal
como uma pulga no lombo de um cão sarnento
não choras, não falas, não te lamentas
esboças um sorriso, ensaias um aperto de mão 

indico-te o colchão onde irás dormir, pelo menos tentar
como que à queima-roupa pergunto-te se tens alguém
olhas para o vazio do tecto enquanto percorres os dedos da mão esquerda
colocas os cinco dedos bem abertos, bem em frente aos meus olhos
e num repente fechas a mão, que guardas no bolso

viro costas e enquanto abandono a sala digo-te:
o teu tempo, a mim pertence agora e está contado até ao mais ínfimo segundo
olho por cima do ombro e descubro-te a dormir

terça-feira, 8 de outubro de 2019


dentro do sono, entre o espaço ocupado pelos monstros e pelo medo
restam pequenos pedaços de sonhos, que se desfazem como algodão ao vento
enquanto tento agarrar as palavras que se murmuram no peito
a mão é fraca e deixa que a gravidade se cumpra
entre um silêncio que se escapa da boca e um grito que se suicida
olho para dentro de mim
as piores cicatrizes são as que nunca foram visíveis, aquelas que marcam o interior da carne, bem debaixo da pele

amanhã tudo não passará de um sonho, não passará de um pesadelo
e um sorriso à queima-roupa, sem mortos, sem danos colaterais que não eu

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

o Gil branco e o Gil preto nasceram da mesma mãe e do mesmo pai, irmãos por isso, com uma diferença certa de onze meses, que quase parecia impossível.

pela idade, pela família e porque assim se esperava, foram obrigados a partilhar os brinquedos, as roupas, os joelhos esfolados e os pais.

o Gil branco e o Gil preto cresceram, tornaram-se no Senhor Gil (branco) e no Senhor Gil (preto), porque isto dos apelidos não se diz aos apelidados. viram os jogos de futebol tornaram-se em colheitas e vindimas e os joelhos esfolados tornarem-se em mãos calejadas. enterraram pai e mãe, pela ordem que se lê. fizeram as partilhas, ao pormenor, ao milímetro.

do lado nascente ficavam as terras do branco, do lado poente as terras do preto. quando alguém perguntava, de quem são estas terras?, essas terras são todas do Gil, branco ou preto.

o ouro era todo o que as mãos conseguissem apanhar, as terras todas as que a vista conseguisse alcançar, a água toda a que fosse possível desviar. toda a aldeia era pertença do Gil, toda a aldeia trabalhava para um dos Gil.

o Gil branco e o Gil preto morreram sem se falar, com uma diferença de onze meses. sem descendentes, as terras ficaram entregues aos cães, aos gatos, às ervas daninhas. anos e anos sem conhecerem arado, sem verem foices. as crianças corriam pelas suas terras enquanto desempenhavam papeis de índios e cowboys. os pais queriam-nos longe desses campos bravios que eram pertença do Gil branco e do Gil preto.

contam os antigos que nas noites frias o vento não corria nas terras porque os irmãos estavam lá a tentar chegar a uma trégua.


terça-feira, 9 de julho de 2019

apertou o casaco de lã contra o peito e ajeitou a gola para que ficasse rente ao pescoço

o inverno persistia em ficar numa espécie de frio que entra pela pele e se vai apoderando da carne e dos ossos 

por baixo da grossa camada de roupa um corpo cheio de cicatrizes que cobriam o desenho dos músculos 

desejei-o como da primeira vez, um amor rápido, bruto. uma espécie de fogo que queima as entranhas e que quando se apaga ansiamos que volte e com ele tudo volte a destruir
ele sabia-o da mesma forma que eu e sentia-o mais violento que eu
quando terminámos não sabia onde terminava a minha pele e onde começava a dele. num olhar rápido pelo meu corpo nu, descobri a marca das suas cicatrizes como que impressa na minha carne, nas suas costas o contorno do meu corpo
 
entre proibidos e permitidos, entre silêncios e gritos surdos: o inverno acabava de chegar

terça-feira, 11 de junho de 2019

eu não sou Eu



eu não sou eu, não sou
um eu
sou um emaranhado de
carne, ossos, gordura, tendões e sangue
um corpo que se arrasta,
cumprindo o que as regras lhe ditam
um número num cartão de
cidadão, outro fiscal e ainda outro de saúde
e tantos ainda dispersos
entre cartões, escolas, sei lá eu
tenho um número de
telefone que uso, tenho um número da porta da minha casa
tenho milhões de
números, que se repetem, da mesma forma que se perdem

e eu não sou eu, quando
ando no meio de outros eus
sorrio, cumprimento,
falo, cumpro as horas e os dias que me estão destinados
eu sou apenas outro eu,
no meio de outros eus

eu sou Eu
no meio do silêncio que
alimento, onde quem me abraça é o vento
quem me mata a sede é a
chuva
Eu, na madrugada, perdida
na solidão de uma corrida
Eu, na noite, aconchegada
pelas nuvens que me assolam o pensamento