«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

terça-feira, 11 de junho de 2019

eu não sou Eu



eu não sou eu, não sou
um eu
sou um emaranhado de
carne, ossos, gordura, tendões e sangue
um corpo que se arrasta,
cumprindo o que as regras lhe ditam
um número num cartão de
cidadão, outro fiscal e ainda outro de saúde
e tantos ainda dispersos
entre cartões, escolas, sei lá eu
tenho um número de
telefone que uso, tenho um número da porta da minha casa
tenho milhões de
números, que se repetem, da mesma forma que se perdem

e eu não sou eu, quando
ando no meio de outros eus
sorrio, cumprimento,
falo, cumpro as horas e os dias que me estão destinados
eu sou apenas outro eu,
no meio de outros eus

eu sou Eu
no meio do silêncio que
alimento, onde quem me abraça é o vento
quem me mata a sede é a
chuva
Eu, na madrugada, perdida
na solidão de uma corrida
Eu, na noite, aconchegada
pelas nuvens que me assolam o pensamento

quinta-feira, 2 de maio de 2019

desFiar nos anos

Nasci em Abril, o mês bipolar, isto porque desde que me lembro de ser eu sempre confundi as estações do ano neste mês, ora era o Sol que me presenteava, ora era a chuva que me presenteava, quando soprava as velas no bolo caseiro.
Ao longo destes anos que conto, quarenta e três sem qualquer pudor, o primeiro aniversário que me recordo foi o dos meus seis anos. A minha mãe fez questão que eu estreasse roupa, isto numa tentativa de disfarçar os três pontos que tinha na testa, resultado das minhas corridas malucas no estreito corredor de casa. Durante todo esse dia, o meu cabelo continuou a ser penteado vezes e vezes sem conta, para que os totós com laços de cor pérola, tivessem o ar de que tinham sido feitos por uma profissional.
Nesse ano recebi um relógio, pois já ia para a escola dos grandes depois das férias e um peluche do Topo Gigio, que me acompanhou durante anos e hoje está no quarto do meu filho, desde o dia em que fez seis anos.
Dos anos que se seguiram tenho poucas lembranças, os dezasseis anos com a festa na garagem interdita aos adultos, onde se deram os primeiros beijos com língua, os vinte e um anos com uma festa onde se juntaram os membros da família mais chegados.
Mas eu queria lembrar-me dos dezoito anos e não consigo, da mesma forma que não me lembro dos trinta anos. Lembro-me dos quarenta anos, onde fui trabalhar normalmente, não sou mais do que os outros e o resto do dia passei-o em casa.
Ao longo destes anos, perdi os meus tios, os meus avós, alguns amigos… Os meus pais continuam presentes no meu aniversário, como todos os que se ausentaram, cumprindo a vida.
Muitas vezes olho os meus pais, vejo-os como quando tinha dez anos, quero que corram, que brinquem, que cheguem a casa tarde depois do trabalho, sem paciência, que me levem a passear aos domingos, que se zanguem comigo, que me protejam sempre que tenho medo, porque agora eu já não posso ter medo.
Vejo o meu pai a andar de bicicleta aos domingos de manhã, enquanto a minha mãe se ocupa do assado, vejo a minha mãe a sorrir sem medo de doenças, vejo as férias grandes passadas em casa, os passeios de família e os almoços no restaurante de sempre.
No espelho o reflexo já não é da miúda adolescente de outrora, consigo aceitar as mudanças e aceito o que os anos me foram dando.
Olho os meus pais e recuso vê-los, quero-os com sangue novo, cheios de força e coragem para levantar a filha nos braços.

quinta-feira, 14 de março de 2019


e então ele disse-lhe, sussurrando ao ouvido,
és livre
ela desconfiou, mantendo-se imóvel
e então ele repetiu-lhe, agora mais alto,
és livre
ela deu um passo, mas parou
e então ele empurrou-a e berrou-lhe,
és livre, porra
ela correu para não voltar mais

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019



isto de voltar ao lugar onde se foi feliz
ainda tem muito que se lhe diga
olhámos os pés e queremos ser árvores, para que as raízes permaneçam
esticámos os braços e desejamos que asas lhes cresçam, para que o mundo seja conhecido
sentimos o vento e julgamos saber cantar
ouvimos o mar e partimos para um canto encontrar

e isto de voltar ao lugar onde se foi feliz
ainda tem muito, mas muito que se lhe diga
e no final regressámos pelo mesmo caminho

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

agora que sabes o odor do sangue e conheces o tacto da carne quente
que apertas com os dedos, enquanto a percorres com a boca
sedento de desejo
chegou a hora de provares, cravar os dentes com força no corpo que está à tua disposição
não há retorno, não há promessas, não há nada
depois

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

nocturnos

deixa que seja a noite a minha amiga
deixa que seja o frio o meu aconchego na solidão
deixa que o negro seja a cor que eu visto
deixa-me viver nas trevas
deixa-me observar a escuridão

no sangue que corre
na carne quente
no tendão que estilhaça
no bafo frio do monstro
eu sei que vivo

terça-feira, 27 de novembro de 2018

do outro lado que não eu

amava-o
ainda que nunca lhe tivesse dito
ainda que desconhecesse o toque dos seus lábios
ainda que ignorasse o aperto capaz dos seus braços
amava-o

amava-a
sabia de cor a suavidade da sua pele
reconhecia o odor que o seu corpo emanava
sentia o calor que o seu peito libertava
amava-a

amavam-se
corpos violentos contra o outro
costas contra a parede
carne que se moldava
suores, sangue e lágrimas que se misturavam em perfeita alquimia

em silêncio, porque as palavras que se dizem
podem ser perdidas e devem ser esquecidas

amaram-se