«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Tendinites X

o céu pressiona os ombros,
o ar cinzento sufoca-nos e o peito
é pedra, peso e perda,
o peito é pó

damos pontapés na estrada,
esse plano inclinado
que nos leva ao ponto zero
inicial

calçada fora, neste granito cinzento
prisioneiros de sombras estendidas, líquidas,
esta chuva colada à pele
entranha-se na carne, queima-nos os ossos.

a humidade conquistou os pés.
tomou-nos as pernas, as coxas, o tronco.
só a cabeça quente nos evapora a inquietude.

cuspimos na sarjeta, continuamos:
o desconhecido, o medo
uma mão fria sobre o ombro
paramos, olhamos
a nossa figura disforme fita-nos
dentes arreganhados,
a viela ao lado mostra o caminho.

da face morna rolam-nos as lágrimas, desdobradas,
não lhes sabemos a temperatura, mas conhecemos-lhes o nome

João Miguel Ferreira e Laura Alberto
[com a pressa não publiquei os dois autores deste texto, desculpa João]

Victoria de Los Angeles - Thy Hand, Belinda

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Tendinites IX

avança a estrada sobre mim
sinto a sua língua quente penetrar
sem pudor, sem desculpas, sem pensar
o calor entra pelos poros, invade a alma e aí fica:
um parasita que se alimenta até a carne ser apenas uma memória

apetece-me porém agradecer
o pó que me preenche
e o cheiro das pessoas que me cercam
estou vivo

desenho o corpo, sobre o pó pousado
o meu corpo tem a forma das nuvens
e adivinha o suor dos deuses
[estou viva, sim e adivinho o teu sorriso]

João Miguel Ferreira e Laura Alberto

terça-feira, 7 de junho de 2011

Tendinites VIII

as árvores suspiram nos ramos agitados
a sua prisão eterna.
fosse árvore e também agitaria os ramos.

mas este vento cola-se aos ossos
afaga a carne e gela o sangue
ouso morder-lhe a língua num aviso de insanidade declarada

quando vestir de inverno o esqueleto
como hei-de gritar o podre e a finitude?

ao dobrar a esquina, sinto-lhes o bafo acre
adivinho a linha da gengiva a sangrar o seu veneno
são inúteis estes vermes onde assento os pés
e lá fora agitam-se as bandeiras desbotadas

sou um galho seco
pleno de humanidade boiando sobre o lodo

Laura Alberto / João Miguel Ferreira

terça-feira, 24 de maio de 2011

Tendinites VII

os cavalos arrastam-me pela cidade
as cordas atravessam-me a pele
e o meu corpo a terra

o sangue escorre pela armadura
para encontrar o seu lugar no pó
que piso, que me calca, que se aloja no peito

os que olham férvidos sorriem
e escoam lava e lama pela boca

malditos, adivinho-lhes os dentes putrefactos
e o cheiro nauseabundo das entranhas

permito as cicatrizes das estradas
não os dentes nem as garras dos malditos

amanhã saio para dar uma volta de bicicleta
entre as escamas da sua pele

Laura Alberto / João Miguel Ferreira

terça-feira, 17 de maio de 2011

Tendinites VI

estou à tua espera, neste pedaço de tempo
entre os cinzentos do teu olhar
fecho os olhos
as mãos imóveis acariciam a tua pele

o desejo força-me a vencer o sono
e as nuvens tomam forma
e os dedos ganham vida
e estás onde te não vejo

abraço o teu corpo cansado
displicente sobre a cama
entre os fios de luz baça
que violam a escuridão do quarto

porque te vejo a olhares-me assim
quando é a tua ausência que nos preenche
falamos algumas vezes, lançamos o riso pelo mundo
e regressamos cada um ao seu lugar vazio

o remoinho perpétuo deita-me sobre as casas
e em pedaços escorro pelas traves
a porta, se estiver, deixa-a aberta

Laura Alberto / João Miguel Ferreira



Paula Rêgo

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Tendinites V


Jorge Molder, The interpretation of dreams

Onde ficam os nossos pensamentos?
Que lugar é esse onde não entramos?
Por que caminhos nos perdemos
Sem nunca saber o que fomos?
Os locais da mente são apenas fugidios como nós?
Mente-nos a mente sobre o espaço que queremos agarrar?

[Entre as fragas de granito, ficam os risos
dos loucos cuja loucura é a cegueira.]

Onde é que ficamos?
Tu e eu, eu e tu.
Onde é nos deixamos,
imóveis?

A cabeça é o terreno da ilusão
E o corpo a maçã podre das conservas e compotas.
Entre utensílios de alumínio, meticulosamente desinfectados
Há-de estar a faca de trinchar.
Laura Alberto / João Miguel Ferreira

Tendinites IV

peguei no comando e coloquei a vida em pausa
olhei-me parado e nessa quietude deu-se a aparição
vinha envolta em rolos de fumo, frio, gelo e novamente vento
trazia os dias que passam silenciosos pelas estações

a dor de cabeça era exterior a mim
e tudo era plástico e artificial
de que adianta ter jarras e jarras de cristal
o pó cai sempre sobre as flores

a mudança afinal acontece quando nos fixamos
no que de fora nos incomoda

amanhã, esqueci a náusea que me aperta
de fora, de dentro, de fora de dentro de fora

e o fantasma permanecerá errando

Laura Alberto / João Miguel Ferreira


Fotografia de Robert Frank

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tendinites III

trago um facho a arder na mão intensamente
sinto-me estrela caída em terra escura
sobem rolos de pó ao céu cinzento
enquanto aqui se espera
que movimento súbito este de luz
que nos devolve ao céu em desvario

deixa-me tocar-te uma vez,
só mais uma vez
fazer do fumo um toque em tua pele

[agora o que será de nós
outrora lambemos o fruto
entre as sombras da alvorada]

ter-te é ser estrela e escuridão
ao mesmo tempo
e agarrar as horas sem ter tempo

[escorre por fim a água
que lava foi em nós, cansados]

Laura Alberto / João Miguel Ferreira

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Tendinites II

o terreno precisa de um adubo breve
e o campo da secura uma saída
se o sol viesse matreiro e de repente
pregasse ao mundo uma partida

fossem teus lábios uma gota de água
e morreria com sede
fosse o teu corpo a bruma
perdida na noite
e o orvalho penetrasse a terra até ao âmago

disséssemos então palavras no vento
rondando as montanhas sagradas

Laura Alberto / João Miguel Ferreira

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Tendinites

Tendinites I

vamo-nos suicidar e vimos já
um saltinho e estamos do lado de cá
a porta ficará entreaberta ao arrependimento
deixemos o batente cair por terra, na terra
e o som como um ser vivo escorregar pelas paredes

dispamos o pó que trazemos
e queimemos a pele com a violência de um cigarro
beba-se o vinho da comemoração
quebrem-se os ossos, apodreçam as gengivas
morramos tu e eu, de mãos dadas apesar da dor

estamos profundamente loucos, que fazemos a seguir?

Laura Alberto / João Miguel Ferreira