
percebia agora o silêncio, toda aquela imobilidade que me rodeou, que me rodeia ainda
estou diante de ti: só falas com o teu olhar perdido enquanto desenhas os prédios que outrora rasgavam o céu: azul, cinzento, negro
o teu dedo desenha um arco, desde a tua perna até ao meu ombro, sinto-o tocar-me a pele: quente e frio
[sempre esteve aqui]
imóveis: a praça move-se lentamente à nossa volta, a torre do relógio nas tuas costas, a torre do relógio nas minhas costas: as pedras descrevem círculos imaginários sobre os nossos pés
pela primeira vez ouvimos o relógio bater as horas: uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete
um silvo agudo rasga o falso silêncio
oito, nove
ninguém tem tempo, ninguém sabe correr, ninguém sabe que devia de correr, ninguém corre
dez
o maior estrondo de sempre: sinto a terra debaixo dos meus pés tremer e a abrir-se em bocas esfomeadas
a arquitectura de cimento do homem começa a cair: voos vertiginosos até ao solo: cinzento, fumo, cinzas, pó
onze
fecho os olhos, num gesto involuntário
deixo-me ir
doze
(cont....)
(esta história, café é o primeiro conto (curto) que escrevo, está dividido em sete partes, que tenho vindo a publicar aqui no blogue, provavelemente não escolhi o melhor alinhamento para ele e quem visita o blogue pensa tratar-se de poemas soltos, contudo depois de publicado na integra recomendo a sua leitura seguida, obrigada por lerem)
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