
Salvador Dali e Gala
[cheguei cedo, cheguei cedo de mais]
sento-me numa das frias cadeiras de metal que aqueço com o corpo
à minha volta, um cortejo de pessoas: que esperam, que partem, que chegam, que não chegam, que tarde chegam, que desesperam
nenhum daqueles olhares é me conhecido, nenhum daqueles olhares me devolve um porto de abrigo
deixo-me embalar pelos corpos que dobram a esquina tentando equilibrar malas nas mãos e na dobra do cotovelo
adormeço ao som de peles queimadas, de peles brancas, de peles cansadas, de peles ansiosas, de crianças que correm e choram e riem, como é esperado de quem é criança
quando finalmente é o teu corpo que se destaca na multidão, reconheço a tua face, a tua boca, o teu olhar perdido e distante
[quanto tempo se passou?]
não espero resposta, ela surge nas rugas que agora aparecem quando sorris, quando franzes as sobrancelhas, desconfiado
[ainda a tens?]
levo a tua mão ao meu ombro, não preciso de responder porque acabaste de a sentir
[anda, vamos]
finalmente posso pousar a cabeça no teu colo
[tu sabes que eu gosto de vir aqui de vez em quando]
[sei, porque aqui nós conhecemo-nos ]
(cont....)
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