«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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terça-feira, 11 de setembro de 2012

bala número dezanove

a madeira das escadas que range sem que ninguém a pise. as portas que se abrem, portas que batem ruidosas, ainda que não vislumbre ninguém. o vento gelado correndo com promessas assassinas. as cortinas que se reviram, em vão.
os passos mudos no piso inferior, passos perdidos no piso superior. ninguém virá, é tarde ou cedo demais.
a coruja liberta o canto piedoso, lobos uivam em desespero.
debaixo das cobertas tudo está bem.
para quem se guarda o juízo final?

e um pequeno coração teimando em bater.

 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

bala número dezoito


um dia
quando todas as casas ruírem
quando todas as pedras forem nuvens de pó
quando o silêncio desconhecer os ouvidos onde se abrigar
restarão as cruzes castigadoras de pedra

e de que adianta a sua sombra no incêndio do tempo?
e quem plantará flores de plástico nas estradas de alcatrão?
o meu nome não cabe numa folha de papel

e de minha fotografia apenas um ténue resquício

quarta-feira, 27 de junho de 2012

bala número dezassete

não, não precisas de dizer que me amas enquanto tiras a roupa que espalhas pelo quarto
não, não precisas de dizer que me amas enquanto me jogas nos teus lençóis imundos
não, não precisas de dizer que me amas enquanto roubas o sabor da minha pele
não, não precisas de dizer que me amas enquanto te afogas na minha carne
não, não precisas de dizer que me amas enquanto esterilizas o meu desejo 


 e meu corpo é o teu templo sagrado

 

domingo, 27 de maio de 2012

bala número dezasseis

escolho a melhor roupa, guardo algum dinheiro num velho envelope escondido atrás de um armário.
escrevo uma carta, escrevo varias cartas, ensaio uma despedida, formalizo um adeus.
entre riscos e rabiscos, entre fotografias velhas, fotografias rasgadas, fotografias que nunca foram tiradas, caminho de pés descalços.
esqueci o tempo, mas há muito que ele de mim se esqueceu.
desconheço a ordem das estações mas sei que lá fora é chuva que cai.
bebo um gole de água para disfarçar a secura que se instalou na minha boca, sussurro o teu nome

e esqueço-te com a cor das chamas

segunda-feira, 14 de maio de 2012

bala número quinze

deixei de me importar, de querer saber, de querer compreender.
descuidei-me nas palavras, ocultei gestos desenhados no ar viciado.
cada passada dada afasta-me de mim e sobretudo de ti. os vermes tragados trarão o veneno que procuro, as cócegas das asas no estômago, o ácido corroendo as entranhas.
deixei de me procurar ao espelho, de te ver diante de mim.
cada uma das lâminas tem o seu destino traçado, no chão o mapa programado do sangue em golfadas.
deixei-me de ser. nada.

e cada corte que em mim faço, a ti te destrói

 
Nine Inch Nails: Gave Up (1992)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

bala número catorze

quem foi morto hoje?
algures, numa página de jornal alva, violada por suja tinta negra, rostos apagados de pessoas esquecidas, ladeadas por caixilhos pretos.
todos os nomes que me lembro, todos aqueles que consigo lembrar.
quem foi morto hoje?
Alzira, Joaquina, Humberto, Diogo, Josué, D. Albina, Sr. Ferreira, D. Luisinha, Sr. Joaquim: foram mortos ontem. e quem foi morto hoje?
outros nomes, que não estes, serão pintados numa outra página de um qualquer jornal, de uma qualquer outra terra, outra língua, outro povo, outra raça.
quem foi morto hoje?

e mesmo assim amanhã será amanhã

domingo, 7 de agosto de 2011

bala número treze

não perguntes pelo dia de amanhã, quando sabes que o mesmo Sol irá nascer exactamente
como hoje, atrás das nuvens e como
espadas de aço as rasgará, sem pedir, sem hesitar, em silêncio

e assim, deixamos as marcas dos pés na areia, impiedosos pés que destroem
torres imaginárias onde guardamos os sonhos nocturnos, são
agora as aves que voam alto no azul e nele mergulham eternamente, resta-nos
o seu último canto

não digas da estrada que começa, no preciso sítio onde pousamos
as velhas malas que carregamos, onde deixamos
que o vento embale o pensamento em orlas de pecado

e amanhã, um mesmo dia nascerá

quinta-feira, 7 de julho de 2011

bala número onze

enrola-se na língua, aperta a carne com o seu fio fino
e aperta, aperta
já não é uma língua só, são duas divididas pelo fio invisível
que aperta e aperta
já não são os braços que rodeiam o corpo
e a pele cai em escamas pesadas diante dos pés
a voz some-se entre lábios que se movem violentos
se provares o sangue receio que encontras
a lápide que enfeitará a tua tumba

e a mentira sublima de encontro aos deuses

quinta-feira, 30 de junho de 2011

bala número dez

a tua roupa dobrada no cabide: observo-a do outro lado do quarto
daquele mesmo ponto onde a parede se funde com as tábuas do soalho

a tua roupa, religiosamente dobrada, guardada como relíquia de boticário
acumulou ao longo dos dias, dos dias longos, dos dias curtos, das noites frias, das noites solitárias:
todos os risos, todos os choros
todos os silêncios, todos os gritos
todos os abraços, todo o frio

e agora está lá, queda e silenciosa
a roupa que cobriu o teu corpo, agasalhou a tua pele, abafou o teu sorriso distante

e agora:
perdeu a sua cor, desbotada pelos anos
e agora, a tua roupa já não tem a forma do teu corpo

e o silêncio habita no armário fechado


Uma Taxidermia de Papel, 1989 - Jorge Molder

sábado, 11 de junho de 2011

bala número nove

ninguém disse, entre os carreiros caminhamos sozinhos, quando ao nosso lado se estende a sombra
ninguém disse, com a chuva cai a voz rouca daqueles que se escondem nas nossas costas
ninguém disse, num sorriso mascara-se a infelicidade do mundo pintada de vermelho
ninguém disse, um passo à frente é o abismo

e as pás fazem-me calos nas mãos quando decido cavar o tumulo

terça-feira, 7 de junho de 2011

Bala número oito

afirmam apreciar a minha letra, a que desenho com a mão direita. observo-a sem notar o que nela vive de tão especial. esboço um sorriso, é da caneta, quanto à letra, perdi no tempo onde começou a enrolar-se na mão, no pulso, em mim, desde sempre foi assim.
tens uma letra bonita, já não ouvi.
a branca folha repousa sobre a mesa, um ligeiro tremer de mão, há que ser firme e agarrar a caneta. a folha continua virgem, a mão imóvel.
ouço o aparo a rasgar o papel, a tinta espalha-se entre as fibras do papel. silenciosa a folha deixa que a tinta a penetre. diante dos meus olhos, os primeiros riscos, a primeira letra, depois outra, mais outra, um hífen seguido de duas letras, uma palavras, outra, outra e mais outra.
os olhos não conseguem agora beber toda a folha, todas as palavras dispostas, arrumadas sigilosamente.
é minha esta letra, tem o sangue que me corre nas veias, o suor que se acumula nos dedos.
e esborrata-se com o sal das ondas

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Bala número oito

Batalhão de cavalaria

vesti hoje a tua roupa que adivinhava não me servir
passei as mãos pelos ombros, a costura assentava no antebraço
provavelmente pensarás, tempo houve em que a carne cobria o meu esqueleto e as calças não transpunham a linha do ventre

se tentar, sinto o pó que se liberta das fibras e adivinho o odor bafiento que se emana aquando das primeiras gotas de água

fecho os olhos, abro os olhos, um trilho de veredas constrói-se desde os meus pés até à linha do horizonte onde começa o céu, o caminho onde correste, onde soubeste o que é ter medo, onde descobriste a coragem, onde te deixaste ficar

a roupa teimosa, sobra ao longo do tronco, dos braços, das pernas
esta é a tua roupa, comida por traças, esquecida numa velha mala arrumada no sótão, as tuas memórias, os teus dias, os teus anos, enterrados no esquecimento, noutros anos que se seguiram

e os elefantes brancos abatem-se na savana distante

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Bala número sete

as mãos cansadas seguram o pano laranja, sinto as suas fibras prenderem-se na pele seca.
limpo o pó, o pó branco deitado sobre os moveis, as estantes, os livros, as recordações que acabaram por ir ficando, como prova de um passado, cada vez mais arredado, arrumado nas folhas que se viraram, ao sabor do vento, amareladas.

se abrir a janela, outro pó branco acabará por entrar, invadir as falhas do ar saturado que paira e cobrir os móveis, as estantes, os livros, e eu voltarei a segurar o mesmo pano, imóvel entre um segundo e outro, entre uma eternidade e um instante.

e o pó voltará para cobrir as molduras vazias da tua face


Sigur Ros - Viorar Vel Til Loftarasa

terça-feira, 31 de maio de 2011

Bala número seis

já não lembrava a cor do sangue que me corre nas veias
o cheiro a ferro que emana quando corre pelo rosto

a pele arde, a mistura de suor e sangue cobre-me a pele
não vou chorar, há muito que as lágrimas se dissolveram,
para secarem nas cinzas do teu nome

é vermelho vivo, quando morre sobre o paralelo sujo
gotas e gotas e mais gotas pairam sobre o ar, imóveis
gotas perfeitas, redondas de sangue, de suor

reconheço esta vida que corre, que me foge
entre as feridas que despontam
como flores quando chega a primavera

e quando caí adivinhei o pó que me cobria

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Bala número cinco (Para a Alexandrina)

há quem tome banho de água fria e sorria
há quem tome banho de água quente e vomite escuridão
há quem abrace molhos de flores e respire
há quem colha o vazio, num suicídio interminável
há quem observe os riscos brilhantes do granito
há quem sangre sobre as pedras quentes
há quem flutue entre papas de sujidade
há quem se esconde na deriva

e ainda assim, há quem seja

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Bala número quatro

quando o tempo começou a apoderar-se do tempo que sobrava, na beira do prato, no fundo da rua, na sombra do carvalho; a enxada revolvia a terra; a pá carregava as pedras, meticulosamente ocultando os olhos daqueles que ainda arrastavam os pés.
quando o tempo cerrou os dentes entre lábios descolorados enfeitados por saliva seca, os ossos quebravam sob a suspeita do fogo e o nome queimava no dorso dos cavalos a abater.
quando o tempo foi o tempo, em círculos sobre si mesmo, a pá revolvia a terra, escavava valas, valas e mais valas, o feno abafava-se pelo pó seco, valas e mais valas, abrindo caminho sobre campos de papoilas, valas e mais valas, diante dos olhos de pássaros, tordos, andorinhas.
quando o tempo se cumpriu, aos meus pés, aos nossos pés, enterrava os amigos perante o olhar abafado de um gigante esquecido.
e o gigante caminha dia e noite, noite e dia com o seu saco de pano no braço

Fotografia de Laura Alberto

domingo, 15 de maio de 2011

Bala número três

fumei todos os cigarros: um após um após outro após um. todos os cigarros até que a pele esfolou, colada na pedra do isqueiro e os dedos se tornaram galhos tortos amarelados.
fumei todos os cigarros sentada, passaram os dias, longos, compridos entre as horas da noite, as horas do dia, o frio da sala foi cortado por raios de luz, tímidos de inicio, decididos no final, até ao calor descer pelo tecto, para ser de novo frio
fumei todos os cigarros enquanto castelos de fumo se construíam e destruíam perante os olhos noctívagos
fumei todos os cigarro
e lá fora o giz desenha no asfalto quente a tua face

sábado, 14 de maio de 2011

Balas

Bala número dois

acaricio a tua pele. sinto lhe a forma que se molda nos meus dedos, o frio que invadiu todo o corpo. limpo os traços de suor, agora riscos baços na pele branca.
precisei de vir aqui, sentir o teu corpo que desenha o ar do quarto.
não sei a data, que dia será hoje: ontem ou amanhã. não importa, não quero saber.
a tua pele veste-se pelas horas que se estendem e amanhã ou depois, quando restarem apenas cinzas e pó, também ninguém saberá o que fomos.
e os navios navegam por terra

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Balas

Bala

atribuíram um número, o mesmo, as fotocópias do meu bilhete de identidade, do número informativo fiscal, da carta condução. um número, impresso violentamente a negro no verso da folha. um clipe ferrugento, abraçou as folhas que se amontoaram numa gaveta de papeis.
sou mais um número, naquela gaveta de papeis, silenciado por outros tantos papeis e tantos outros números negros.
sou um número, não sei de quantos dígitos, esquecido entre papeis e mais papeis. quando o sangue gelar, a carne minguar sobre a pele, o músculo desprender o osso, sou na mesma esse número, que será descontinuado.
aos olhos do numerador, sou um número, só: uma combinação aleatória de dígitos.
e os cães esquecidos lambem as poças de água seca, na berma