«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

quarta-feira, 10 de abril de 2013

esventrado XXIX


[para os que partem, com os olhos noutro futuro, para os que ficam e os vêem partir]

onde estão os teus filhos
que alimentaste com o peito em ferida
cantando as glórias de viriato

entregaste as suas almas
ao mar da tempestade na esperança de outros futuros
e viste-os padecer na orla da praia

pedaço de terra, país de sofredores
que carregam a cruz que não puderam escolher
porque fechas os olhos agora

ah, Portugal, que fizeste tu
parindo fortes guerreiros

ah, Portugal, que fazes tu
abandonando os teus filhos

talvez eles voltem, um dia, Portugal
com a lágrima nos olhos
e tu com os braços bem abertos lhes beijes a fronte

talvez fiquem bem longe de ti
com a triste memória
de serem os teus filhos esquecidos

segunda-feira, 18 de março de 2013

notas para amanhã ou para o petiz

I
não se escolhe com certeza
a hora em que tudo
muda , abruptamente

II
contornam-se os dias
contam-se os passos
mas a chegada não se anuncia

III
medos crescem, sem cessar
semeiam abismos
no peito dorido

IV
mas uma manhã
um estalo violento
de quente lucidez

V
venham então os gigantes
com as maldições eternas
venham os sábios de mentes deturpadas

VI
venham os ventos
venham as tempestades
abra-se a terra em valas sombrias

VII
no orvalho da madrugada
aprenderemos
a reconhecer o nosso reflexo

VIII
no silêncio da noite
saberei sempre
ouvir a tua voz

IX
podes vir
sempre
e hoje sei disso

terça-feira, 12 de março de 2013

esventrado XXVIII


espreita do outro lado da janela
com dentes cariados e hálito pérfido
marca os segundos no vidro embaciado
deixando o riso escapar

fecho os olhos e vejo
cerro os dentes e falo

ah, maldito sejas tu
com tuas vestes brancas
com tua voz de candura
torcendo os ponteiros
ameaçando a carne que envelhece

cubro o corpo e tremo de frio
esqueço o tempo e as pragas cumprem-se

tira-me as medidas
compra-me um belo par de sapatos
tece-me o fato que sonhaste
prende os pregos nas tábuas lisas de pinho
pois sabes bem que daqui não me é possível sair

[no fundo todos estamos realmente frios]

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

terça-feira, 5 de março de 2013

Polaroid 55


Estrada nacional 105

alguém lhe tirou as medidas
altura, largura
ombros, pés
provável rosto desfeito, cicatrizes incontáveis

e naquele entroncamento
plantam-se flores de plástico
acendem-se velas todas as semanas
a recordação incessante do que se perdeu

amanhã ou depois
mando gravar o teu nome no passeio
mando apagar a borracha que marca o asfalto
amanhã ou depois: passo sem te ver

mas as flores continuam lá
as velas são substituídas
o tempo teima em não passar
pelo menos para ti

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

purgatorium XLIII


Como foi que aqui vim parar? O abismo escuro apoderou-se da minha mente. Busco os momentos, os passos, os caminhos e apenas encontro mãos vazias, o nada que me enche as mãos.
Não sei em que acreditar. Em ti não acredito. Em mim, sou obrigada a acreditar.
Porra, mas como foi que aqui vim parar?
Não bebi, não bebo.
Não fumei, não fumo, já não fumo.
Não abusei, não abuso.
Não vivi, não vivo.
Uma réstia de esperança no tampo imundo de uma mesa. Dobrar de esquinas confusas, ruas sem nome, ruas sem ninguém.
Não sei como aqui vim parar, mas talvez saiba como daqui sair. Sem estar sentada em cima do meu rosto.
Decisão tardia, no instante certo.
Esta foi a história possível, a que se escondia na tinta que hoje seca, perene. Talvez volte, talvez de mim se fale. Ou talvez ninguém me reconheça mais. Não importa, não me interessa: reconheço-me do outro lado de mim, do outro lado do espelho.
Todas as vidas encerram mortes anunciadas, uma morte apenas. E os nascimentos escondem mortes sibiladas.

Fotografia Laura Alberto

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

desAlinhado XXXV

30ºC
início a descida pela avenida
envolta em nevoeiro
o frio afugentou as pessoas
ou talvez a hora não ajude
torna-se difícil respirar este ar gélido
que invade os pulmões, que corta as costelas

ninguém cruza o meu caminho
ninguém se avista ao perto, ao longe
onde está a cidade
dorme escondida com uma cruz no peito
na noite anterior lavou o sangue das mãos

[sou vulto cinzento de rosto tapado
figura disforme que sublima na memória
há muito tempo que me esqueci]

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

notas para cidade adormecida


I
ah, os desconhecidos
vultos que arrastam os pés
sobre a minha janela esquecida

II
maranha de pele suja, sangue e ossos
os animais deixam-se nas valetas
da cidade que finge fingir

III
tinge-se em definitivo o céu
de cinzento chumbo
luzes pálidas no contorno dos corpos

IV
o frio cola-se no corpo
aí resta, sereno
corroendo o que sobeja

V
tiro a melhor roupa
ensaio sorrisos frente ao espelho
calço sapatos engraxados

VI
enfrento o eterno inverno da cidade
contorno as putas, os chulos, os mendigos
evito o vómito, os escarros, a urina das ruas

VII
as flores de plástico não murcham
as pedras não se erguem
e a boca esconde-se de pétalas

VIII
fantasio que alguém chame o meu nome
no cruzamento de duas ruas
mas apenas posso beijar os meus dedos

IX
afinal
aquilo que realmente fiz
foi contornar o meu silêncio: sempre
Fotografia de Gérard Castello-Lopes