«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

terça-feira, 25 de março de 2014

estilhaço número VII

os amigos
enumero-os um-a-um
dedos das mãos e siga para os pés

os amigos
seus abraços
suas palavras preciosas

os amigos
tão depressa os sei
tão depressa os perco

os amigos
tão rápido a chegar
e num ápice a partir

os amigos
encontram outros rostos
acolhem novos corpos

os amigos
sentem asco e fingem
odeiam e fecham

os amigos
tantos são

e tanta é a solidão

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

estilhaço número VI

os sonhos que se guardam
aqueles que fazem chorar
aqueles que nos deixam em claro
aqueles que deixamos cair
e aqueles que teimamos agarrar

as palavras que se aprendem
como são difíceis no primórdio
como se tornam fáceis no último sopro
como perdem o seu sentido
como ganham novos significados

e essa palavra
que vou apreendendo, dia após dia
escrevo-a com mão tremula
humedeço-a com o olhar
deixo que cresça nos gritos surdos

e estes dias cinzentos
que fogem e correm
de mim, sem mim
que se cumprem frios e solitários
entre sorrisos, verdadeiros e falsos
entre bom dia e até logo

este tempo que não me pertence
e que fora de mim

se ausenta do meu ser

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

estilhaço número V

Saberemos cada vez menos
O que é um ser humano.
Livro das previsões

que conheço eu
da imagem que me olha
quando conto as rugas
num qualquer espelho

as roupas que trago
escolhi-as eu
e agora são me largas
e outras são-me apertadas

já não sei quem vejo
quem procuro em gavetas
vazias de sonhos

os riscos que fiz
as palavras que disse
as palavras que por dizer
foram ficando esquecidas

os outros reconhecem-me
o meu corpo, o meu rosto
dizem o meu nome
e saúdam-me com um caloroso sorriso

que sou eu ainda
caminho em terrenos inóspitos
em vertigem sobre mim
os fios cortei-os há muito
e agora é deles que preciso

esta espiral aperta-se
ao menos que o ar teimasse em falhar
morrer não me custa

viver é que se torna doloroso

notas para viagem interminável

I
dizem que o tempo
não espera por mim,
por ninguém

II
toma as precauções
necessárias
não se sabe quando ela chega

III
mas essas folhas
ainda não
foram por mim viradas

IV
enganada
confio
que os dias não passam

V
iludida
acredito
que amanhã será diferente

VI
velocidade vertiginosa
passo
sem saber olhar, minto

VII
lá vai o pastor
com o seu escasso
rebanho, incomum

VIII
ajeito as costas
olho em frente
o horizonte quer-se distante

IX
o mesmo homem
à mesma hora
sem os mesmos sonhos

X
alguém que passa
saúdam-se
e o céu precipita-se em mim

XI
miúdo novo
de cajado na mão
mais um guardador de rebanhos

XII
de quando em vez
um acidente
um cadáver de um animal que ninguém quer

XIII
a linha termina aqui
posso respirar

e o tempo vai passando, para mim

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

estilhaço número IV

todas as tempestades
terminam em ti
guardadas no pequeno peito
que descobre golfadas de ar

todos os vendáveis
correm doces
entre as curvas involuntárias
dos teus dedos frágeis

e todos os nomes
escondem o teu em silêncio
e todos os sonhos
são agora tua pertença
e todos os medos
são agora tão pequenos, aos teus pés

um dia saberás ver
os pássaros que cruzam o céu
e deixarás que passem sem notar

um dia a chuva será
apenas água fria
que te gela o corpo

um dia o vento
trará
a memória dos que perdeste

um dia os teus sonhos
serão de outros,
e que tu sejas sempre tu

e o sorriso a ti pertença

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O senhor (a)prova?

O despertador não tocou, porque o meu relógio biológico, vá-se lá saber o porquê, leva-me a acordar sempre uns minutos antes da hora.
Entre o preparar das coisas, arranjar o petiz e arranjar-me, saio, como sempre a correr, para enfrentar mais uma hora e cinco de alcatrão e chegar à escola.
Enfrento as estradas nacionais, municipais, quelhas e no fim de tudo isto, do lado esquerdo, o edifício cor-de-rosa. Chego à escola. A primeira reunião.
Posso respirar, posso respirar porque estou viva, mas não posso respirar de alívio. Hoje, não sei quantos professores contratados, dizem na comunicação social mais de três mil, ou três mil e quinhentos, dirigem-se para fazer uma prova, grande parte deles, morreram a ver a linha da praia, por alguns dias são obrigados a fazer esta prova absurda.
Depois dos inquéritos de opinião, nalguns canais de rádio, grande parte da população é favorável a que seja feita esta prova a todos os professores, quer contratados, quer do quadro. A ser assim, até poderia estar de acordo, poderia, mas não estaria. Tal como não estou agora.
Termina a primeira reunião, depois de toda a papelada e burocracia, os colegas saem com um sorriso nos lábios. A mim é me impossível sequer mexer os lábios. Não sei quantos professores fizeram a prova, ou se esta virá a ter algum valor no final. Penso nos colegas que, após anos nas universidades e nas escolas, como contratados, muitas vezes olhados de lado e como professores de segunda, coisa que eu já senti na pele e às vezes ainda sinto, foram sujeitos a esta pressão.
Partilhei quatro anos com uma colega que suponho estará a fazer a prova. Nesses anos, partilhamos material, experiências, dinamizamos actividades experimentais para os alunos. Eu, com mais de doze anos de tempo de serviço nunca me senti de algum modo mais profissional do que a minha colega de grupo. E agora eu posso escapar ilesa e ela não, injustamente.
Que os professores devem todos ser avaliados? Sim, nós contratados somos avaliados todos os anos.
Que os professores devem fazer formação? Sim, nós fazemos formação nos centros de formação das escolas onde leccionamos.
Que os professores estão sentados nas suas cadeiras acomodados? Sim, nós enfrentamos estradas, longas viagens, alguns são obrigados a mudar de casa, deixar a família.
Que os professores só fazem greve e têm férias? Sim, neste momento estamos todos em casa, as aulas acabaram e nós estamos de férias. Não temos reuniões de avaliação, não temos formações, não temos serviço nas escolas até ao dia 6 de Janeiro.
Que todos os professores devem fazer a prova? É um país democrático, pensem por vocês.
Nós apenas estamos cansados de fazer tudo para conseguir um lugar no ensino, em agosto vivermos o pesadelo do desemprego e passar os meses que se seguem entre visitas obrigatórias à junta de freguesia, listas onde o nosso nome teima em não aparecer e entrevistas onde, algumas vezes, somos enxovalhados.
Venha a próxima reunião.

Marco de Canaveses, 18 de Dezembro de 2013


Esta crónica é escrita com o antigo acordo ortográfico. Prendam-me

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

estilhaços

I
destas mãos que trago
sujas de terra
já nem as cicatrizes se notam

desta face
que abriga distantes portos
nem uma ruga conta história

destes dias
que me sobejam
apenas a densa escuridão

dos outros dias
que já contei
memórias escritas e perdidas

disto que sou
disto que fui

já nem sei quem serei
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/