«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O amor

o amor:
roubou a minha pele
apagou as manchas que me cobriam
secou as lágrimas
cuspiu no sangue quente

o amor:
rasgou os campos de papoilas
apodreceu os frutos na minha boca
pisou o corpo que dormia
acordou o pesadelo da noite

o amor:
arreganhou os dentes amarelos
berrou o ódio pelos oceanos
vomitou bílis infecto
afagou os cabelos com as unhas sujas

o amor:
dobrou a esquina da minha rua
e levou as sobras num saco

(Um apelo: no Camara Clara de ontem, passou um pequeno excerto de um poema onde dizia "o amor roubou..."-que acabou por ser minha inspiração na manhã de hoje- gostava de saber quem é o autor/declamador desse texto. Obrigada)


domingo, 15 de maio de 2011

Pedradas LXIII

A verdade

cada curva na estrada guarda uma réstia de ar
um ar abafado, denso
escondido entre vigas de ferro torcido

quero passar rápido
marcar o pó da estrada com as botas
para que ele se apague quando o sol se esconder

ele está lá: à espreita, silencioso
não sei porque corro
sou sempre apanhada no fim da subida

[de todas as vezes que corri fiquei imóvel a sonhar
de todas as vezes que fechei os olhos observava sempre o arco dos teus braços
de todas as vezes que saí fiquei sempre gelada na ombreira da porta
e de todas as vezes que cheguei nunca soube onde tinha ficado]

Bala número três

fumei todos os cigarros: um após um após outro após um. todos os cigarros até que a pele esfolou, colada na pedra do isqueiro e os dedos se tornaram galhos tortos amarelados.
fumei todos os cigarros sentada, passaram os dias, longos, compridos entre as horas da noite, as horas do dia, o frio da sala foi cortado por raios de luz, tímidos de inicio, decididos no final, até ao calor descer pelo tecto, para ser de novo frio
fumei todos os cigarros enquanto castelos de fumo se construíam e destruíam perante os olhos noctívagos
fumei todos os cigarro
e lá fora o giz desenha no asfalto quente a tua face

Polaroid 36

Porto

trago-te sempre comigo
mesmo que seja imenso o alcatrão que nos separa,
aquele onde a água deixa marcas brancas
ou o sol seca os sonhos em farrapos velhos

conheço cada uma das tuas calçadas
as pedras, conto-as todos os dias em sonhos
as pedras, onde sei do sangue dos que foram esquecidos
e as lágrimas derramadas por nomes não mais chamados

sei das tuas casas, dos teus quintais,
dos teus becos, dos teus bairros
sei onde repousa o dia e a noite o cobre os passeios povoados de lixo

tu e eu, estamos sempre mergulhados em silêncio
enquanto os outros passam, cegos e apressados
e tu eu esboçamos sempre um sorriso à navalha afiada

Fotografia de Laura Alberto, Avenida dos Aliados

sábado, 14 de maio de 2011

Balas

Bala número dois

acaricio a tua pele. sinto lhe a forma que se molda nos meus dedos, o frio que invadiu todo o corpo. limpo os traços de suor, agora riscos baços na pele branca.
precisei de vir aqui, sentir o teu corpo que desenha o ar do quarto.
não sei a data, que dia será hoje: ontem ou amanhã. não importa, não quero saber.
a tua pele veste-se pelas horas que se estendem e amanhã ou depois, quando restarem apenas cinzas e pó, também ninguém saberá o que fomos.
e os navios navegam por terra

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Manifesto CXXI

Deserto

o piar dos pássaros chega aos ouvidos
sorrateiro pelas falhas de granito
dissolve-se nos riscos baços de luz

não preciso passar da ombreia da porta:
lá fora o feno liberta o seu odor
entre nuvens grossas de candura

e não sei o que se esconde atrás dos vidros
e não sei onde deitar o meu corpo
e não sei o lugar que ocupo neste mapa desbotado

aqui:
demora-se a seca entre as águas
e as faces apagadas são riscadas por dedos tortos

Fotografia de António Nunes

Balas

Bala

atribuíram um número, o mesmo, as fotocópias do meu bilhete de identidade, do número informativo fiscal, da carta condução. um número, impresso violentamente a negro no verso da folha. um clipe ferrugento, abraçou as folhas que se amontoaram numa gaveta de papeis.
sou mais um número, naquela gaveta de papeis, silenciado por outros tantos papeis e tantos outros números negros.
sou um número, não sei de quantos dígitos, esquecido entre papeis e mais papeis. quando o sangue gelar, a carne minguar sobre a pele, o músculo desprender o osso, sou na mesma esse número, que será descontinuado.
aos olhos do numerador, sou um número, só: uma combinação aleatória de dígitos.
e os cães esquecidos lambem as poças de água seca, na berma