«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

terça-feira, 24 de maio de 2011

Pedrada LXIV

inho

os homenzinhos com as suas bonitas camisinhas engomadinhas
as mulherezinhas com os seus lindos vestidinhos floridinhos
os homenzinhos e as mulherezinhas do cimo dos seus engraxadinhos sapatinhos, enrolam as palavrinhas nas suas linguazinhas de serpentes;
agitam os seus bracinhos branquinhos e brincam com os seus documentozinhos prioritários de inutilidade;
lancham as suas comidinhas gourmet nas mesinhas redondas, onde deixam ficar a sua imundice;
fumam os seus cigarrinhos nas esquinas, escondidos do sol enquanto falam, falam e falam
os homenzinhos e as mulherezinhas, com as suas lindas roupinhas e seus gestos lixivados, metem-me cá um grande nojinho

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Polaroid 37

O homem que não ri

o homem que não ri abafa os risos dos pássaros debaixo do seu casaco negro, arrasta os pés no alcatrão fresco enquanto a noite se aproxima ao fundo, pela cortina do horizonte.
o homem que não ri abre os olhos na escuridão, bebe de copos vazios o medo dos procurados, sacode a chuva dos ombros nos dias afogados
o homem que não ri dorme de pé, de olhos abertos, guarda o silêncio, a noite no seu peito
o homem que não ri, um dia riu.
o homem que não ri, nunca ri, assalta as noites frias com os seus braços esguios,
e mudo ri, na bruma onde se esconde

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Cores: Laranja

esperei, esperei até que o dia se estendeu
ao longo da linha que separa o céu da terra
o dia entrava dentro da noite, a noite entrava dentro do dia

a linha ficou lá, ténue esboço, negro, silencioso
a separar o céu da terra, a apartar a terra do céu

o vento moldava os farrapos presos em mastros
escancarava as portas de casas vazias, esquecidas, frias

o vento com os seus gritos mudos, dentro da minha cabeça
de mim, a cortar as entranhas, retalhar a carne, a gelar o sangue
e aquela linha, a linha que separa o céu da terra, dos mortais queimava-me o olhar lentamente

Bala número quatro

quando o tempo começou a apoderar-se do tempo que sobrava, na beira do prato, no fundo da rua, na sombra do carvalho; a enxada revolvia a terra; a pá carregava as pedras, meticulosamente ocultando os olhos daqueles que ainda arrastavam os pés.
quando o tempo cerrou os dentes entre lábios descolorados enfeitados por saliva seca, os ossos quebravam sob a suspeita do fogo e o nome queimava no dorso dos cavalos a abater.
quando o tempo foi o tempo, em círculos sobre si mesmo, a pá revolvia a terra, escavava valas, valas e mais valas, o feno abafava-se pelo pó seco, valas e mais valas, abrindo caminho sobre campos de papoilas, valas e mais valas, diante dos olhos de pássaros, tordos, andorinhas.
quando o tempo se cumpriu, aos meus pés, aos nossos pés, enterrava os amigos perante o olhar abafado de um gigante esquecido.
e o gigante caminha dia e noite, noite e dia com o seu saco de pano no braço

Fotografia de Laura Alberto

terça-feira, 17 de maio de 2011

Tendinites VI

estou à tua espera, neste pedaço de tempo
entre os cinzentos do teu olhar
fecho os olhos
as mãos imóveis acariciam a tua pele

o desejo força-me a vencer o sono
e as nuvens tomam forma
e os dedos ganham vida
e estás onde te não vejo

abraço o teu corpo cansado
displicente sobre a cama
entre os fios de luz baça
que violam a escuridão do quarto

porque te vejo a olhares-me assim
quando é a tua ausência que nos preenche
falamos algumas vezes, lançamos o riso pelo mundo
e regressamos cada um ao seu lugar vazio

o remoinho perpétuo deita-me sobre as casas
e em pedaços escorro pelas traves
a porta, se estiver, deixa-a aberta

Laura Alberto / João Miguel Ferreira



Paula Rêgo

Manifesto CXXII

Abutres

não me servem as botas nos pés
as botas que correram; que pararam; que esperaram
as mesmas botas de sempre, não cabem nos meus pés

olho as extremidades das pernas
não reconheço estes pés, secos, cansados
os dedos alongam-se, entrelaçados e dobram-se na biqueira

quis fugir e não tive estrada
fiquei e não encontro onde dormir

"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller

XXXIV
a navalha repousa no balcão, romba, cansada da pele seca que a cobre. o pó cobriu-a ao longo dos dias que correram, que ficaram quedos nos raios de luz entre frinchas da madeira.
até os ratos desistiram de procurar a carne
até as aranhas se cansaram das suas teias
até as moscas secaram entre o cotão das roupas
até as centopeias rastejaram sobre a luz do dia
a navalha espera, a ferrugem apanhou-a

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/