arquitectura de uma sombra
(para o José Luís Peixoto)
fundi-me na cal da parede, alva, intocável.
ali, colei as costas à parede e deixei que o meu corpo fosse sugado pela cal, a pele, a carne, os ossos, uma massa que se misturou na pedra.
os pés entraram dentro da terra, o pó são os meus pés, os meus pés são de pó.
em silêncio, adivinhei a sombra crescendo, desde o rés da parede, um ténue traço contornado de penumbra, depois um rectângulo, depois um quadrado de sombra perfeito e depois continuou a crescer, a fugir entre a terra e a calçada escondida, um gigante pedaço de sombra a diluir-se, grande, grande.
alguém limpa o quadrado e a sombra permanece
alguém perde um sapato e não há contos que possam ser escritos
alguém cai e o sangue escorre entre os espaços do paralelo, as ervas secas, ressequidas, o pó pesado
alguém chora lágrimas que desaparecem
alguém fica prisioneiro naquele quadrado
cai a noite, a sombra invade toda a rua, todas as casas, todos os quartos, todos os corpos, todos os espaços vazios, todos os espaços cheios
a noite deita-se em lençóis extremosamente asseados, ao lado da solidão
a noite é o quadrado de sombra que dorme ao nosso lado

Fotografia de António Nunes
(para o José Luís Peixoto)
fundi-me na cal da parede, alva, intocável.
ali, colei as costas à parede e deixei que o meu corpo fosse sugado pela cal, a pele, a carne, os ossos, uma massa que se misturou na pedra.
os pés entraram dentro da terra, o pó são os meus pés, os meus pés são de pó.
em silêncio, adivinhei a sombra crescendo, desde o rés da parede, um ténue traço contornado de penumbra, depois um rectângulo, depois um quadrado de sombra perfeito e depois continuou a crescer, a fugir entre a terra e a calçada escondida, um gigante pedaço de sombra a diluir-se, grande, grande.
alguém limpa o quadrado e a sombra permanece
alguém perde um sapato e não há contos que possam ser escritos
alguém cai e o sangue escorre entre os espaços do paralelo, as ervas secas, ressequidas, o pó pesado
alguém chora lágrimas que desaparecem
alguém fica prisioneiro naquele quadrado
cai a noite, a sombra invade toda a rua, todas as casas, todos os quartos, todos os corpos, todos os espaços vazios, todos os espaços cheios
a noite deita-se em lençóis extremosamente asseados, ao lado da solidão
a noite é o quadrado de sombra que dorme ao nosso lado

Fotografia de António Nunes
Moça do além vagas... = )
ResponderEliminarMinha sombra tem as formas das luzes que clareiam meu caminho... enxergo melhor quando leio almas como a tua!
Não há como impedir a Luz de extravasar com palavras de incentivo iguais as tuas...
Muito feliz com teus sorrisos deixados no Luz! Ficarei atenta a teus chamados...
Beijinho luminoso de fim de semana!
Saudações, Laura,
ResponderEliminarlinda a fotografia, lembra as ruas e casas de nossas cidades históricas aqui das Minas Gerais.
Este Manifesto também me lembrou da roça, onde as moradas são caiadas com cal e para dar uma cor diferente ao branco acrescentam bosta de boi/vaca e daí surge o verde
"a noite deita-se em lençóis extremosamente asseados, ao lado da solidão
a noite é o quadrado de sombra que dorme ao nosso lado"
tocante, inquietante, belo,
beijo pra ti
O teu texto é fabuloso.
ResponderEliminarParabéns pela tua criatividade e talento.
Boa semana, beijos.
PS: há cerca de 2 semanas que não te conseguia comentar, mas desta vez o enguiço quebrou-se...