Agora durmo tranquila de noite, o
seu bafo tornou-se inexistente. O seu murmúrio calou-se, sufocado em soluços.
Já não consigo ver a cidade, ouvi-la,
sentir o seu odor. Tenho quase a certeza que se a observasse agora, como
outrora, nua e estendida diante dos meus olhos, já não a reconhecia. Talvez
seja esse o motivo que me obriga a manter as cortinas corridas, os estores
fechados.
Se a visse agora, nem saberia que
a via.
Agora tudo, tudo é apenas mera
palavra, escrita com o alfabeto que me ensinaram, mas apenas uma sequência
vazia de letras e vogais.
[o vazio está aí, caminha para
aqui]
Já não tenho medo: do tempo, do
dia, da noite, da enfermidade, de ter fome, de ter sede, do ontem, do amanhã,
do hoje.
Já não tenho medo de nada, tenho
só medo de mim.
Fotografia de Man Ray, Venus Restaure, 1936