«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

balada XXVI

boa noite, dizem
mas eu não sei quando dormir, que cama escolher
bom dia, dizem
e esquecem

raspo a terra debaixo das pedras
odor húmido invade-me as narinas
de unhas sujas como o pão que me resta

até amanhã, dizem
e eu esqueço o dia

um resquício de força, um olhar altivo
reconheço este céu, estas nuvens que me desenham
a última golfada de sangue, o último segundo de ar
não tenho muito tempo nesta parca existência
que não é minha, que não me pertence

ouço-os chorar
até sempre, dizem

e eu aqui fico

http://youtu.be/n6aCMgy0ES4

terça-feira, 29 de outubro de 2013

notas para jogo interminável

I
aposta no vermelho
todo o dinheiro que trazes
na algibeira que ainda resiste

II
bebe a última gota
de álcool
falsificado

III
esboça um sorriso
por cada bala
que cai no pó

IV
fecha os olhos
quando te preparas
para acordar

V
aposta no preto
a vida que ainda é tua
a que resta

VI
esquece
aprende
e esquece de novo

VII
as regras são estas
as regras são nossas
as regras mudam


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Não tenho, nem encontro palavras suficientes para agradecer a todos que estiveram presentes, outros ausentes mas bem perto do peito, no dia 28 de setembro.
Foi para mim muito importante e especial saber que todos responderam ao meu repto e iluminaram a esta minha loucura, com os seus sorrisos e com algumas lágrimas.
Confesso que sempre tive medo de assumir que escrevia, de mostrar aos outros os meus poemas, mas esse medo torna-se cada vez menor depois de todas as palavras de incentivo que recebi. Este foi também um teste para mim.
Obrigada pela vossa presença, pelas vossas mensagens e pelo carinho demonstrado ao longo de todos estes dias.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Lançamento do livro desAlinhados

É já no próximo sábado, dia 28, pelas 17:00 horas, no Grupo Dramático e Musical Flor de Infesta, em São Mamede de Infesta, perto da igreja, o lançamento do meu livro de poemas, desAlinhados.
Estão todos convidados...



Como lá chegar:
na A3 sair da saída Matosinhos e em seguida sair logo na primeira saída onde se lê: São Mamede de Infesta. Depois nas rotundas é seguir as indicações para São Mamede de Infesta e para a igreja. Aí aparece a indicação Grupo Dramático e Musical Flor de Infesta. 
Se perguntarem a alguém verão que todos conhecem e não tem nada que enganar.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

XXXVI

[dialogo do guerreiro]

existe uma madrugada fria
logo a seguir às noites em desalinho
é quando o sol, ainda que tímido, ainda que pálido
nos beija o rosto

abre os olhos
liberta os demónios
descansa o corpo cansado

um dia vamos de mão dada
alimentar os leões, sem medo no peito

um dia, um dia talvez
a tua mão conseguirá cobrir a minha
e nessa altura já posso cerrar as pálpebras

acorda, o dia despertou
a madrugada chega para ti

[terminam aqui os desAlinhados, este último desAlinhado é teu, Afonso, minha madrugada]


terça-feira, 9 de julho de 2013

esventrado XXX

[golden star]

a chávena inerte sobre a mesa
o café que arrefece, fumo em espirais aleatórias
com dedos nervosos percorro o tampo de vidro
impressões digitais esborratadas
misturadas com outras de desconhecidos

já nem os estudantes aqui param
e os velhos contam os últimos trocados
que irão trocar por pão
ensaio umas letras, a medo
num papel que trago esquecido no bolso

à saída deixo-o ficar amarrotado
no caixote do lixo imundo

tão depressa me erguem uma estátua
tão depressa me abrem um túmulo

Fotografia de Man Ray, Anatomies



segunda-feira, 17 de junho de 2013

baladas

XXV
[para o Afonso]

todos os oceanos de gelo
todos os desertos sem nome
todas as serras feridas
todos os vales em abismo

todas as ruas que cruzo
e todas as outras que nunca percorrerei
todas as faces que toco
e todas as outras que me fogem ao olhar

todos os sonhos alimentados
todos os medos bem guardados
as chaves esquecidas no fundo de mim

todo o azul do Olimpo
todo o vermelho do ventre
todo o negro que se estende
toda a cegueira alva em sussurro

olho a vida
é tão grande a aldeia
vasto se torna o mundo
na promessa de infinito

e todo o universo lá fora
e o meu bem cá dentro