já não há amanhã
partiram-se os relógios, arrancaram-se as paginas dos calendários
amanhã de manhã
nem o dia, nem a noite cumprirão a sua rotina
porque amanhã não será mais amanhã
apanham-se as roupas caídas à sorte pelo chão
abrem-se as janelas, abre-se o ar dentro do quarto
tiram-se os lençóis, fecham-se as gavetas
encerram-se os gritos nos armários ao fundo
lava-se a pele com água a escaldar
disfarçam-se os corpos com máscaras de seda
amanhã não será amanhã
nem hoje será ontem
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
desAlinhados IX
IX
fecho os olhos e sinto-me deslizar
líquida pelo mármore gelado
os teus dedos percorrem as minhas costas
num arrepio lunar
[sem tecto, sem paredes]
ouço a tua voz muda segredar-me ao ouvido
linhas tortas de contos esquecidos
é doce o teu hálito
que me embala na noite
é quente o teu toque
quando rouba um pedaço de pele
[sem ti, sem mim]
o meu pecado és tu
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
o meu amor tem asas de pássaro quando se esconde nos abetos
voa em círculos no azul e oferece presentes ao infinito
o meu amor tem forma de nuvem que se desfazem aos meus pés
e cai em gotas de açúcar pelo meu corpo
o meu amor sobe no dorso das ondas e desaparece no horizonte
enquanto durmo na noite
o meu amor tem a forma da areia nas minhas mãos
e escorre lânguido pela minha boca
o meu amor tem a frescura do relento quando me aquece na solidão
o meu amor traz o brilho de todos os sois que iluminam o silêncio
o meu amor gravou o meu nome na sua carne quando ardeu sozinho
Jorge Palma - Estrela do mar
voa em círculos no azul e oferece presentes ao infinito
o meu amor tem forma de nuvem que se desfazem aos meus pés
e cai em gotas de açúcar pelo meu corpo
o meu amor sobe no dorso das ondas e desaparece no horizonte
enquanto durmo na noite
o meu amor tem a forma da areia nas minhas mãos
e escorre lânguido pela minha boca
o meu amor tem a frescura do relento quando me aquece na solidão
o meu amor traz o brilho de todos os sois que iluminam o silêncio
o meu amor gravou o meu nome na sua carne quando ardeu sozinho
Jorge Palma - Estrela do mar
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
desAlinhados VIII
VIII
enrolo o corpo numa espiral, tentativa de me aquecer
lá fora o dia vai longo com a sua apagada luz cinzenta
sei que tenho que me levantar, que me vestir
tropeço constantemente na roupa, visto, dispo e visto
e continuo nua
olho-me ao espelho, que posso querer mais eu ainda?
com o indicador desenho o trilho esquecido
lá fora o dia segue, horas longas, escuras e frias
os meus olhos já estão habituados a esta escuridão
a minha pele conhece de cor os pálidos sorrisos
o sangue ainda corre, só que cansado
fico por casa, o erro é sempre menor

Jorge Molder Linha do Tempo/Time Line, 2000
enrolo o corpo numa espiral, tentativa de me aquecer
lá fora o dia vai longo com a sua apagada luz cinzenta
sei que tenho que me levantar, que me vestir
tropeço constantemente na roupa, visto, dispo e visto
e continuo nua
olho-me ao espelho, que posso querer mais eu ainda?
com o indicador desenho o trilho esquecido
lá fora o dia segue, horas longas, escuras e frias
os meus olhos já estão habituados a esta escuridão
a minha pele conhece de cor os pálidos sorrisos
o sangue ainda corre, só que cansado
fico por casa, o erro é sempre menor

Jorge Molder Linha do Tempo/Time Line, 2000
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
desAlinhados VII
VII
subo e desço estas escadas, encontrões, ombros que desenham linhas imaginárias contra os meus braços, sinto uma dor ligeira, um rubor vermelho, uma aureola na pele branca
subo e desço estas escadas, alguém me chama, alguém grita o meu nome, não estou aqui
seguras a minha anca com as tuas mãos firmes, sou um pássaro que é capaz de voar com as tuas asas, bebo o ar do ponto mais alto onde me levas, arqueio as costas e ainda sinto a pele dos teus dedos na pele das minhas ancas
um toque nas pernas, leva-me de volta às escadas
o cheiro da tua boca sublima-me no ar
estou aí, enrolada no teu corpo enquanto lês a história dos meus ossos
a verdadeira perdição está guardada em sonhos inconfessáveis
ninguém me conhece integralmente, mas juntem-se todos os que partilharam a minha mesa e todos os eus perdem-se em fumo
se sorrio, não sorrio
se calo, não calo
se sou, não sou, eu

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
subo e desço estas escadas, encontrões, ombros que desenham linhas imaginárias contra os meus braços, sinto uma dor ligeira, um rubor vermelho, uma aureola na pele branca
subo e desço estas escadas, alguém me chama, alguém grita o meu nome, não estou aqui
seguras a minha anca com as tuas mãos firmes, sou um pássaro que é capaz de voar com as tuas asas, bebo o ar do ponto mais alto onde me levas, arqueio as costas e ainda sinto a pele dos teus dedos na pele das minhas ancas
um toque nas pernas, leva-me de volta às escadas
o cheiro da tua boca sublima-me no ar
estou aí, enrolada no teu corpo enquanto lês a história dos meus ossos
a verdadeira perdição está guardada em sonhos inconfessáveis
ninguém me conhece integralmente, mas juntem-se todos os que partilharam a minha mesa e todos os eus perdem-se em fumo
se sorrio, não sorrio
se calo, não calo
se sou, não sou, eu

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
desAlinhados VI
aproxima-se o inverno
sei-o: pressinto-o na pele gelada, no vapor que sobe a partir dos gritos encerrados, nos olhos imóveis perante a neblina que se estende
estalam os ossos, a clavícula desalinhada, os dedos entorpecidos, o rosto engelhado de frio
uma chuva forte insiste em cair, escorre em grossos rios pelas casas, pelas estátuas, pelos candeeiros de luz amarela, pelo pêlo e pelas patas dos cães vadios, pelas latas de lixo, pela cidade
teimo em aqui ficar, como uma estátua
se me esquecer, também os outros de mim se esquecem
inverno: há já muito tempo
há muito tempo que me esqueci de quem era
sei-o: pressinto-o na pele gelada, no vapor que sobe a partir dos gritos encerrados, nos olhos imóveis perante a neblina que se estende
estalam os ossos, a clavícula desalinhada, os dedos entorpecidos, o rosto engelhado de frio
uma chuva forte insiste em cair, escorre em grossos rios pelas casas, pelas estátuas, pelos candeeiros de luz amarela, pelo pêlo e pelas patas dos cães vadios, pelas latas de lixo, pela cidade
teimo em aqui ficar, como uma estátua
se me esquecer, também os outros de mim se esquecem
inverno: há já muito tempo
há muito tempo que me esqueci de quem era
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
desAlinhados V
V
tenho o direito de andar à chuva sem guarda-chuva
tenho o direito a beber a chuva com a boca aberta e sorrir
tenho o direito de saltar nas poças de água e molhar toda a minha roupa
tenho o direito de falar alto numa biblioteca
tenho o direito de me remeter ao silêncio quando me questionam
tenho o direito de correr quando todos estão imóveis
tenho o direito de ficar quieta quando por mim chamam
tenho o direito de sorrir, de chorar, de falar, de me calar quando o direito é meu, só por direito
tenho o direito de andar à chuva sem guarda-chuva
tenho o direito a beber a chuva com a boca aberta e sorrir
tenho o direito de saltar nas poças de água e molhar toda a minha roupa
tenho o direito de falar alto numa biblioteca
tenho o direito de me remeter ao silêncio quando me questionam
tenho o direito de correr quando todos estão imóveis
tenho o direito de ficar quieta quando por mim chamam
tenho o direito de sorrir, de chorar, de falar, de me calar quando o direito é meu, só por direito
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