[este ao menos será poupado]
não trará pesados sacos de viagem
desconhecerá a falta de água
e a fome será apenas palavra de dicionário
todos os órgãos estarão sempre perfeitamente alinhados
sem estremecimentos, sem entorpecimentos, sem aborrecimentos
falará das doenças que nunca sentiu
como se fossem sua criação
[este ao menos foi poupado]
habita num quarto de paredes infinitas
brancas
traça linhas com um lápis na janelas
transparentes
os outros, são pequenos pontos negros
que mudam, mudam e mudam de sítio
os rostos há muito que se esfumaram da sua memória
sim, este ao menos foi poupado
melhor que muitos, melhor que nada
José Moreira, fotografia de Raquel Mendes
Eu que fiquei em desalinho com esse poema! A melhor escrita é a que nos desalinha, nos move para onde não temos habitação tranquila.
ResponderEliminarBeijo.
Diante da impossibilidade de se expressar, entregou-se ao silêncio redentor... o mesmo siêncio que a tinha calado!
ResponderEliminarBeijinho com o carinho de sempre, Laurinha!
este poema não nos poupa da sua força, é daqueles que me calam, causam um desconforto bom, uma agitação... este poema é muito muito bom ecoando em mim :)
ResponderEliminarbeijos muitos
este foi poupado (ou poupou?) - a eterna questão: onde está o agente e o objeto? afinal, pontos negros, muitos, incertos, indefiníveis é o que somos, os que foram poupados e os que poupam...
ResponderEliminarabraço, laura!
Serei poupado nas palavras: excelente.
ResponderEliminarQuerida amiga, tem um bom resto de Domingo e uma boa semana.
Beijo.