quando chegaram os camiões com provisões, para além do pão que em breve seria consumido seco, descarregamos também caixões, com etiquetas sem nome
agora, o meu amigo, do outro lado da trincheira, acena-me um adeus antes de disparar, devolvo-lhe a graça e cumpro o meu papel nesta crónica sem nome
o céu cor de chumbo cobre o solo lamacento, abraçando os mortos num último conforto possível
ouve-se o silêncio misturado com gemidos que findam em gritos, sinto que o meu coração ainda bate, o ar ainda entra pelos pulmões. não sou de rezar, mas benzo-me e choro simultaneamente.
do outro lado da trincheira os meus olhos não alcançam a mão do meu amigo.
[que nenhuma guerra seja feita em meu nome, alimentada com o meu trigo, eu feliz vivo aqui neste lado, alheia à trincheira, não protesto. não em meu nome]