escorrego entre os teus dedos
os peixes são lembranças coloridas em memórias desbotadas
debaixo de um céu obscuro de nuvens cinzentas,
mergulhada em escuridão silenciosa
deixo que o meu corpo desagúe a teus pés
não haverá lágrimas a escorrer pelo peito
não haverá hora marcada nos relógios
não haverá folha no calendário
não haverá palavra a rasgar a carne
fico assim, imóvel
deixa as flores que nascem para o interior da terra
e os rios que param sem retorno possível
deixa que o meu nome seque nos teus lábios
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
desAlinhados XII
enquanto uma criança salta à corda
num jardim distante,
nascem pregos de aço nas mãos dos generais
a mesma criança corre livre
nas ruas da sua aldeia desconhecida
no lugar oposto, apertos de mãos honram promessas de sangue
de noite alguém virá aconchegar os lençóis,
desejar sonhos azuis à criança de cabelos despenteados,
do outro lado, esfregam-se as mãos
e puxa-se o lustro às espingardas
num jardim distante,
nascem pregos de aço nas mãos dos generais
a mesma criança corre livre
nas ruas da sua aldeia desconhecida
no lugar oposto, apertos de mãos honram promessas de sangue
de noite alguém virá aconchegar os lençóis,
desejar sonhos azuis à criança de cabelos despenteados,
do outro lado, esfregam-se as mãos
e puxa-se o lustro às espingardas
domingo, 1 de janeiro de 2012
desenho
falas do tempo como se dele fosses dono
conservado entre os bolsos do casaco
e vais construindo torres altas
pegas no lápis que trazes sempre contigo
desenhas as estradas e as flores do tempo quente
esboças lábios em granitos disformes
e eu não tenho tecto sobre a minha casa
e eu procuro portas em paredes infindáveis
e eu não tenho casaco que vestir
conservado entre os bolsos do casaco
e vais construindo torres altas
pegas no lápis que trazes sempre contigo
desenhas as estradas e as flores do tempo quente
esboças lábios em granitos disformes
e eu não tenho tecto sobre a minha casa
e eu procuro portas em paredes infindáveis
e eu não tenho casaco que vestir
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
balada VI
hoje acordei e não reconheci o quarto
seria eu que desenhava os lençóis?
a roupa espalhada pelo chão: em rodilhas, do direito, do avesso
o sabor amargo de uma noite esquecida na boca ressequida
ouvi o silêncio do mês de dezembro a invadir a mente
senti o frio do mês de dezembro a rodear a pele
hoje acordei e não foi a teu lado
seria eu que desenhava os lençóis?
a roupa espalhada pelo chão: em rodilhas, do direito, do avesso
o sabor amargo de uma noite esquecida na boca ressequida
ouvi o silêncio do mês de dezembro a invadir a mente
senti o frio do mês de dezembro a rodear a pele
hoje acordei e não foi a teu lado
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
balada V
que a noite se segue ao dia: isso já sabíamos
que do verão se faz Outono: isso já conhecíamos
que as ondas se desfazem na linha da areia: isso já constatamos
que um céu de estrelas é caminho de navegadores: isso já aprendemos
que a tempestade antecede céus azuis: isso já vimos muitas vezes
que o fogo queima: isso já sentimos muitas vezes
que o abismo é ao virar da esquina: isso, ainda ninguém nos disse
Nick Cave & The Bad Seeds - Stranger Than Kindness (Live, HQ)
que do verão se faz Outono: isso já conhecíamos
que as ondas se desfazem na linha da areia: isso já constatamos
que um céu de estrelas é caminho de navegadores: isso já aprendemos
que a tempestade antecede céus azuis: isso já vimos muitas vezes
que o fogo queima: isso já sentimos muitas vezes
que o abismo é ao virar da esquina: isso, ainda ninguém nos disse
Nick Cave & The Bad Seeds - Stranger Than Kindness (Live, HQ)
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
conto curto made in Portugal
Maria sai de casa, com o filho ao colo, perfeitamente encaixado no início da anca. O dia ainda desconhece a luz pálida do sol. Hoje é o primeiro dia de inverno, de inverno a sério e não é preciso o calendário para o saber.
No mesmo instante em que entrega o filho aos cuidados da ama, o marido atravessa a fronteira entre a Alemanha e a França. O cansaço é muito, mas a vontade de chegar a casa é maior.
Na noite de consoada, mãe e filho partilham no mesmo prato, a pobre refeição, enganando mais tarde o estômago com uma guloseima natalícia.
Debaixo do pinheiro de plástico, comprado numa promoção com desconto em cartão, não há presentes. Desculpem-me os leitores, mas prefiro substituir por, nunca há presentes.
Não se sabe bem a hora, mas parece que o filho da Maria caminhou pela primeira vez, quando ouviu bater à porta. Quase que consigo imaginar que deve de ter aberto a porta ao seu pai, o seu Pai Natal.
Uns quilómetros mais à frente, numa outra casa, de pessoas com outras posses, João traquina pergunta, Ó mãe, o Pai Natal é made in China?

Fotografia Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
No mesmo instante em que entrega o filho aos cuidados da ama, o marido atravessa a fronteira entre a Alemanha e a França. O cansaço é muito, mas a vontade de chegar a casa é maior.
Na noite de consoada, mãe e filho partilham no mesmo prato, a pobre refeição, enganando mais tarde o estômago com uma guloseima natalícia.
Debaixo do pinheiro de plástico, comprado numa promoção com desconto em cartão, não há presentes. Desculpem-me os leitores, mas prefiro substituir por, nunca há presentes.
Não se sabe bem a hora, mas parece que o filho da Maria caminhou pela primeira vez, quando ouviu bater à porta. Quase que consigo imaginar que deve de ter aberto a porta ao seu pai, o seu Pai Natal.
Uns quilómetros mais à frente, numa outra casa, de pessoas com outras posses, João traquina pergunta, Ó mãe, o Pai Natal é made in China?

Fotografia Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
balada IV
onde estás
procuro uma réstia de neve, mesmo que suja
que me devolva o sabor dos teus lábios
onde pousas o teu corpo
afago os lençóis frios testemunho de noites
longínquas de inverno
onde vertes o teu olhar
desenho montes e vales entre brumas
em cascas de árvores
onde estás
procuro os teus braços firmes
e descubro que a memória me atraiçoa
procuro uma réstia de neve, mesmo que suja
que me devolva o sabor dos teus lábios
onde pousas o teu corpo
afago os lençóis frios testemunho de noites
longínquas de inverno
onde vertes o teu olhar
desenho montes e vales entre brumas
em cascas de árvores
onde estás
procuro os teus braços firmes
e descubro que a memória me atraiçoa
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