«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Manifesto CXXXVIII

escorrego entre os teus dedos
os peixes são lembranças coloridas em memórias desbotadas
debaixo de um céu obscuro de nuvens cinzentas,
mergulhada em escuridão silenciosa
deixo que o meu corpo desagúe a teus pés

não haverá lágrimas a escorrer pelo peito
não haverá hora marcada nos relógios
não haverá folha no calendário
não haverá palavra a rasgar a carne

fico assim, imóvel

deixa as flores que nascem para o interior da terra
e os rios que param sem retorno possível
deixa que o meu nome seque nos teus lábios

desAlinhados XII

enquanto uma criança salta à corda
num jardim distante,
nascem pregos de aço nas mãos dos generais

a mesma criança corre livre
nas ruas da sua aldeia desconhecida
no lugar oposto, apertos de mãos honram promessas de sangue

de noite alguém virá aconchegar os lençóis,
desejar sonhos azuis à criança de cabelos despenteados,
do outro lado, esfregam-se as mãos
e puxa-se o lustro às espingardas

domingo, 1 de janeiro de 2012

desenho

falas do tempo como se dele fosses dono
conservado entre os bolsos do casaco
e vais construindo torres altas

pegas no lápis que trazes sempre contigo
desenhas as estradas e as flores do tempo quente
esboças lábios em granitos disformes

e eu não tenho tecto sobre a minha casa
e eu procuro portas em paredes infindáveis
e eu não tenho casaco que vestir

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

balada VI

hoje acordei e não reconheci o quarto
seria eu que desenhava os lençóis?
a roupa espalhada pelo chão: em rodilhas, do direito, do avesso
o sabor amargo de uma noite esquecida na boca ressequida
ouvi o silêncio do mês de dezembro a invadir a mente
senti o frio do mês de dezembro a rodear a pele

hoje acordei e não foi a teu lado

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

balada V

que a noite se segue ao dia: isso já sabíamos
que do verão se faz Outono: isso já conhecíamos
que as ondas se desfazem na linha da areia: isso já constatamos
que um céu de estrelas é caminho de navegadores: isso já aprendemos
que a tempestade antecede céus azuis: isso já vimos muitas vezes
que o fogo queima: isso já sentimos muitas vezes

que o abismo é ao virar da esquina: isso, ainda ninguém nos disse

Nick Cave & The Bad Seeds - Stranger Than Kindness (Live, HQ)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

conto curto made in Portugal

Maria sai de casa, com o filho ao colo, perfeitamente encaixado no início da anca. O dia ainda desconhece a luz pálida do sol. Hoje é o primeiro dia de inverno, de inverno a sério e não é preciso o calendário para o saber.
No mesmo instante em que entrega o filho aos cuidados da ama, o marido atravessa a fronteira entre a Alemanha e a França. O cansaço é muito, mas a vontade de chegar a casa é maior.
Na noite de consoada, mãe e filho partilham no mesmo prato, a pobre refeição, enganando mais tarde o estômago com uma guloseima natalícia.
Debaixo do pinheiro de plástico, comprado numa promoção com desconto em cartão, não há presentes. Desculpem-me os leitores, mas prefiro substituir por, nunca há presentes.
Não se sabe bem a hora, mas parece que o filho da Maria caminhou pela primeira vez, quando ouviu bater à porta. Quase que consigo imaginar que deve de ter aberto a porta ao seu pai, o seu Pai Natal.
Uns quilómetros mais à frente, numa outra casa, de pessoas com outras posses, João traquina pergunta, Ó mãe, o Pai Natal é made in China?

Fotografia Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

balada IV

onde estás
procuro uma réstia de neve, mesmo que suja
que me devolva o sabor dos teus lábios
onde pousas o teu corpo
afago os lençóis frios testemunho de noites
longínquas de inverno
onde vertes o teu olhar
desenho montes e vales entre brumas
em cascas de árvores

onde estás
procuro os teus braços firmes
e descubro que a memória me atraiçoa