«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

desAlinhados

IV
de que me servem os sorrisos que me observam do outro lado da rua
de que me servem as palmadinhas calorosas que me dão nas costas
de que me servem os teus olhos apagados nestes dias negros
de que serve a tua voz do outro lado se não sei qual a forma do teu rosto

ao que parece estou condenada a caminhar entre sombras familiares que espreitam do outro lado da porta
não atendas o telefone quando te ligar

desAlinhados

III
não sei que montanha subir
quanto mais alto olho, mais se abre o abismo sob os meus pés
tenho as asas quebradas pelo vento das tuas mãos
quando voltar a nascer, serei um pássaro
se tiver que nascer, serei um pássaro de coração negro, outra vez

desAlinhados

II
este rio que corre do meu peito, que corre do nosso peito
é sangue vermelho, calor
faz arder a pele quando nele nos afogamos
arrasta os ossos quando nele nos lavamos

este de rio de sangue somos nós, à deriva

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Crimes amorosos

XVII
último crime: o ódio
deixámos estas paredes, deixamo-nos ficar nesta cal e as nossas botas pisam a terra e seguem separadas
outros virão habitar entre os fantasmas pálidos de tudo o que nos bastou, outros dormirão nos nossos lençóis, de suor, de sangue e sal, outros falarão também a mesma língua de falácia
será sempre inverno, teremos sempre frio
quando olhar o meu corpo no espelho reconhecerei o contorno da tua mão na minha pele, quando abrir os lábios procurarei sempre os teus e encontrar assim a tua língua nos dedos entorpecidos
um crime qualquer: a ignorância
primeiro crime: existirmos

[terminam aqui os crimes amorosos, escritos tendo por base uma história entre dois amantes, hoje é o dia em que finalmente se separam, obrigada]

desAlinhados I

descobri ontem a forma das tuas mãos
cobertos pela fina pele branca, dedos nem excessivamente grandes, nem excessivamente pequenos, os mesmos dedos com que sempre seguraste o cigarro

tenho andado muito, as pernas cansadas, a mente confusa
nem penso, nem sei, o que sei eu ainda?
a língua de alcatrão cansa-me com seu cansaço repetitivo

ouço as vozes, os outros
riem, falam, conversam, riem mais alto
mas não encontro as palavras, a voz encerrou-se há muito neste peito gelado
e o frio é tanto que tento o calor de mil verões e continuo a encontrar o frio

e as tuas mãos ficam guardadas nos bolsos das calças
para que mais ninguém se perca nelas

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Crimes amorosos

XVI
o dedo percorreu a parte exterior da coxa por cima da roupa, mas mesmo assim sabias que a pele é branca e que o arrepio percorreria todo o corpo
[tu sabes, tal como eu sei]
a mão deslizou suavemente pela parte interior da perna até ao preciso local onde tudo é proibido
[já sabemos, o que sempre soubemos]

todo o tempo, todo o escasso tempo que nos resta é aqui, escondidos entre estas paredes mudas, sobre estes lençóis frios que se mancham com o calor dos nossos corpos, todo o nosso sangue corre sobre o soalho do chão
somos vapor negro que se dissolve entre o silêncio do quarto
[sabemos, como sempre soubemos o que ninguém sabe]
amanhã, quando abrirem as portas perras, o vazio fugirá aos mortais

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

como o céu se desmorona em segundos inúteis a meus pés

hoje o céu olha-me com um ar jocoso, até a própria lua arreganha os dentes aguçados entre densas nuvens que a ocultam
e chove, tal como ontem choveu, e anteontem, e antes de anteontem, tal como amanhã irá chover e esta cruel realidade impede-me de contar o tempo

caminho, sei que caminho porque os pés se arrastam no alcatrão molhado, todos se afastam em figuras de contornos escuros, primeiro perfeitamente definidos e depois esbatidos, quero olhá-los, senti-los, dizer-lhes: estou aqui, mas somem-se entre os olhos cansados

ultimamente tenho a companhia das sombras que nascem na ponta dos sapatos e se estendem em fantasmas que assombram as próprias valetas, também elas habituadas à escuridão, aos escarros, ao lixo, ao sangue infecto

eu tenho uma navalha no bolso e não tenho coragem de a usar
eu tenho uma navalha no bolso e está cheia de ferrugem
eu tenho uma navalha no bolso e não sei onde a perdi


Sigur Ros - Gong