a música que embala e chega na noite
sabes agora que vou ouvir
as palavras que encerras no peito
nada receies, elas chegam mudas pelas janelas entreabertas,
deixei-as assim para que viesses, entre as agulhas dos pinheiros pela noite sombria
[deixa-me tocar esse teu corpo que outrora me pertenceu,
beber dos teus lábios os beijos que me arrasam]
parece que regresso dos mortos, com o pó na alma
e o medo caminha comigo, ao meu lado
observo o espelho, sinto-me estremecer por dentro
[já não é o suor que me corre na pele nua
e descubro que os lençóis são frios de mais]
afio os ouvidos, deixo que o silêncio me retalhe, lentamente
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
terça-feira, 7 de junho de 2011
Tendinites VIII
as árvores suspiram nos ramos agitados
a sua prisão eterna.
fosse árvore e também agitaria os ramos.
mas este vento cola-se aos ossos
afaga a carne e gela o sangue
ouso morder-lhe a língua num aviso de insanidade declarada
quando vestir de inverno o esqueleto
como hei-de gritar o podre e a finitude?
ao dobrar a esquina, sinto-lhes o bafo acre
adivinho a linha da gengiva a sangrar o seu veneno
são inúteis estes vermes onde assento os pés
e lá fora agitam-se as bandeiras desbotadas
sou um galho seco
pleno de humanidade boiando sobre o lodo
a sua prisão eterna.
fosse árvore e também agitaria os ramos.
mas este vento cola-se aos ossos
afaga a carne e gela o sangue
ouso morder-lhe a língua num aviso de insanidade declarada
quando vestir de inverno o esqueleto
como hei-de gritar o podre e a finitude?
ao dobrar a esquina, sinto-lhes o bafo acre
adivinho a linha da gengiva a sangrar o seu veneno
são inúteis estes vermes onde assento os pés
e lá fora agitam-se as bandeiras desbotadas
sou um galho seco
pleno de humanidade boiando sobre o lodo
Laura Alberto / João Miguel Ferreira
Bala número oito
afirmam apreciar a minha letra, a que desenho com a mão direita. observo-a sem notar o que nela vive de tão especial. esboço um sorriso, é da caneta, quanto à letra, perdi no tempo onde começou a enrolar-se na mão, no pulso, em mim, desde sempre foi assim.
tens uma letra bonita, já não ouvi.
a branca folha repousa sobre a mesa, um ligeiro tremer de mão, há que ser firme e agarrar a caneta. a folha continua virgem, a mão imóvel.
ouço o aparo a rasgar o papel, a tinta espalha-se entre as fibras do papel. silenciosa a folha deixa que a tinta a penetre. diante dos meus olhos, os primeiros riscos, a primeira letra, depois outra, mais outra, um hífen seguido de duas letras, uma palavras, outra, outra e mais outra.
os olhos não conseguem agora beber toda a folha, todas as palavras dispostas, arrumadas sigilosamente.
é minha esta letra, tem o sangue que me corre nas veias, o suor que se acumula nos dedos.
e esborrata-se com o sal das ondas
tens uma letra bonita, já não ouvi.
a branca folha repousa sobre a mesa, um ligeiro tremer de mão, há que ser firme e agarrar a caneta. a folha continua virgem, a mão imóvel.
ouço o aparo a rasgar o papel, a tinta espalha-se entre as fibras do papel. silenciosa a folha deixa que a tinta a penetre. diante dos meus olhos, os primeiros riscos, a primeira letra, depois outra, mais outra, um hífen seguido de duas letras, uma palavras, outra, outra e mais outra.
os olhos não conseguem agora beber toda a folha, todas as palavras dispostas, arrumadas sigilosamente.
é minha esta letra, tem o sangue que me corre nas veias, o suor que se acumula nos dedos.
e esborrata-se com o sal das ondas
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Bala número oito
Batalhão de cavalaria
vesti hoje a tua roupa que adivinhava não me servir
passei as mãos pelos ombros, a costura assentava no antebraço
provavelmente pensarás, tempo houve em que a carne cobria o meu esqueleto e as calças não transpunham a linha do ventre
se tentar, sinto o pó que se liberta das fibras e adivinho o odor bafiento que se emana aquando das primeiras gotas de água
fecho os olhos, abro os olhos, um trilho de veredas constrói-se desde os meus pés até à linha do horizonte onde começa o céu, o caminho onde correste, onde soubeste o que é ter medo, onde descobriste a coragem, onde te deixaste ficar
a roupa teimosa, sobra ao longo do tronco, dos braços, das pernas
esta é a tua roupa, comida por traças, esquecida numa velha mala arrumada no sótão, as tuas memórias, os teus dias, os teus anos, enterrados no esquecimento, noutros anos que se seguiram
e os elefantes brancos abatem-se na savana distante
vesti hoje a tua roupa que adivinhava não me servir
passei as mãos pelos ombros, a costura assentava no antebraço
provavelmente pensarás, tempo houve em que a carne cobria o meu esqueleto e as calças não transpunham a linha do ventre
se tentar, sinto o pó que se liberta das fibras e adivinho o odor bafiento que se emana aquando das primeiras gotas de água
fecho os olhos, abro os olhos, um trilho de veredas constrói-se desde os meus pés até à linha do horizonte onde começa o céu, o caminho onde correste, onde soubeste o que é ter medo, onde descobriste a coragem, onde te deixaste ficar
a roupa teimosa, sobra ao longo do tronco, dos braços, das pernas
esta é a tua roupa, comida por traças, esquecida numa velha mala arrumada no sótão, as tuas memórias, os teus dias, os teus anos, enterrados no esquecimento, noutros anos que se seguiram
e os elefantes brancos abatem-se na savana distante
sábado, 4 de junho de 2011
Manifesto CXXV
arquitectura de uma sombra
(para o José Luís Peixoto)
fundi-me na cal da parede, alva, intocável.
ali, colei as costas à parede e deixei que o meu corpo fosse sugado pela cal, a pele, a carne, os ossos, uma massa que se misturou na pedra.
os pés entraram dentro da terra, o pó são os meus pés, os meus pés são de pó.
em silêncio, adivinhei a sombra crescendo, desde o rés da parede, um ténue traço contornado de penumbra, depois um rectângulo, depois um quadrado de sombra perfeito e depois continuou a crescer, a fugir entre a terra e a calçada escondida, um gigante pedaço de sombra a diluir-se, grande, grande.
alguém limpa o quadrado e a sombra permanece
alguém perde um sapato e não há contos que possam ser escritos
alguém cai e o sangue escorre entre os espaços do paralelo, as ervas secas, ressequidas, o pó pesado
alguém chora lágrimas que desaparecem
alguém fica prisioneiro naquele quadrado
cai a noite, a sombra invade toda a rua, todas as casas, todos os quartos, todos os corpos, todos os espaços vazios, todos os espaços cheios
a noite deita-se em lençóis extremosamente asseados, ao lado da solidão
a noite é o quadrado de sombra que dorme ao nosso lado

Fotografia de António Nunes
(para o José Luís Peixoto)
fundi-me na cal da parede, alva, intocável.
ali, colei as costas à parede e deixei que o meu corpo fosse sugado pela cal, a pele, a carne, os ossos, uma massa que se misturou na pedra.
os pés entraram dentro da terra, o pó são os meus pés, os meus pés são de pó.
em silêncio, adivinhei a sombra crescendo, desde o rés da parede, um ténue traço contornado de penumbra, depois um rectângulo, depois um quadrado de sombra perfeito e depois continuou a crescer, a fugir entre a terra e a calçada escondida, um gigante pedaço de sombra a diluir-se, grande, grande.
alguém limpa o quadrado e a sombra permanece
alguém perde um sapato e não há contos que possam ser escritos
alguém cai e o sangue escorre entre os espaços do paralelo, as ervas secas, ressequidas, o pó pesado
alguém chora lágrimas que desaparecem
alguém fica prisioneiro naquele quadrado
cai a noite, a sombra invade toda a rua, todas as casas, todos os quartos, todos os corpos, todos os espaços vazios, todos os espaços cheios
a noite deita-se em lençóis extremosamente asseados, ao lado da solidão
a noite é o quadrado de sombra que dorme ao nosso lado

Fotografia de António Nunes
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Bala número sete
as mãos cansadas seguram o pano laranja, sinto as suas fibras prenderem-se na pele seca.
limpo o pó, o pó branco deitado sobre os moveis, as estantes, os livros, as recordações que acabaram por ir ficando, como prova de um passado, cada vez mais arredado, arrumado nas folhas que se viraram, ao sabor do vento, amareladas.
se abrir a janela, outro pó branco acabará por entrar, invadir as falhas do ar saturado que paira e cobrir os móveis, as estantes, os livros, e eu voltarei a segurar o mesmo pano, imóvel entre um segundo e outro, entre uma eternidade e um instante.
e o pó voltará para cobrir as molduras vazias da tua face
Sigur Ros - Viorar Vel Til Loftarasa
limpo o pó, o pó branco deitado sobre os moveis, as estantes, os livros, as recordações que acabaram por ir ficando, como prova de um passado, cada vez mais arredado, arrumado nas folhas que se viraram, ao sabor do vento, amareladas.
se abrir a janela, outro pó branco acabará por entrar, invadir as falhas do ar saturado que paira e cobrir os móveis, as estantes, os livros, e eu voltarei a segurar o mesmo pano, imóvel entre um segundo e outro, entre uma eternidade e um instante.
e o pó voltará para cobrir as molduras vazias da tua face
Sigur Ros - Viorar Vel Til Loftarasa
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