«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Pedradas XL

Egoísmo

saem pequenas gotas pelos poros
ficam imóveis sobre a pele seca de sal
numa sintonia perfeita, esféricas

rolam sobre os sulcos dos dias, das noites, das estações
afogam as suplicas silenciosas das noites defeituosas

guardamos em frascos de vidro
os braços imóveis, as mãos arrancadas

amanhã quebramos os dedos, esgaçamos as unhas
e mordemos os corações estragados

Marcantonio, Melancolia 30 – Vertebral Técnica Mista 158×80 cm Rio de Janeiro, 2006
http://cadernosdearte.wordpress.com/

Polaroid 10

Forjado

no armário: de ferro, fundido, branco, enferrujado, com três pés assentes num velho tapete, gasto

debaixo do velho espelho: de arestas partidas, oxidadas, reflexo fosco da imagem que não existe
no armário de ferro, sobre o tampo retorcido: o veneno
no espelho torto, na parede descascada: o antídoto

"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller

XVII
estava cansada disso: sempre frio, frio, dias frios, anos gelados. não encontrava casacos suficientes que tornassem as horas menos isso, frias. os pássaros abriam as asas diante de mim e as penas estavam congeladas, tentava aquecê-los e eram pássaros, sem peito, sem bico, nadas.
estou cansada disto: sempre frio, frio, estações paradas no gelo árctico. quando tiro a roupa, demoro minutos, horas, tiro a roupa, tiro, tiro e tiro. não encontro nada a não ser um pequeno cristal de gelo colado no peito. continuo a tirar a roupa e a ter frio.

Manifesto LXXXI

Dissecação

escorre o musgo pelas fendas do granito, quase
que posso jurar que te vi respirar

finco as pernas numa poça de lama, de certeza
que te vi respirar, quase

guardo os utensílios de alumínio
acreditei tempo demais
que sobre o peito bateria um coração

fecho os vidrinhos de desinfectante
imaginei em silêncio
a areia que saia dentro das unhas

Marcantonio, Melancolia 37 Técnica Mista 80×146 cm Rio de Janeiro, 2006
http://cadernosdearte.wordpress.com/

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

os seis sentidos


Fotografia Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

I. olfacto
amanhã quando acordares, não
te esqueças de fechar os olhos
guarda o nosso cheiro no vidro da mesinha.

II. audição
martelo, bigorna, tímpano.
a nova retina do ser
nasce do som do teu bater de asas.

III. paladar
amanhã, banha-te na água das
nossas lágrimas. arrumadas na prateleira
estão as línguas. em sal.

IV. tacto
seda ou areia,
só com o teu corpo
se escreve a palavra “pele”.

V. visão
amanhã quando te deitares
pousa os olhos sobre os destroços
em que nos guardamos.

VI. intuição
mesmo não sabendo se existes,
sinto.
e se não basta?…



Laura Alberto e Jorge Pimenta


Sur-Realidades




Fotografia de Berenika

– Tu, quando estás comigo és surrealista.



– Surrealista, simbolista, decadentista… Chovem os sufixos gramaticais, mas esconde-se a matriz semântica.
– Tu, quando estás comigo és surrealista, até porque o papel é permeável a toda a chuva.
– Continuo sem gabardina para resistir à enxurrada, sabes? Até porque as etiquetas sempre me confundiram e a poesia é impermeável. Tu e o teu surrealismo ajudam a entender (me)?...
– Deixa lá, a pele é permeável a toda a chuva. Afinal, o que é o sangue sem a água, a água sem o sangue, o real sem o surreal?
– Às vezes pergunto-me sobre o que está mais próximo de nós: o real ou a sua caricatura – pomposamente etiquetada de surreal? Ei, passas-me o espelho? Não consigo respirar…
– Não encontro o interruptor. [Cegueira total].
– E a pele? A impermeável pele, terá desaprendido de tactear, de alumiar?...
– Deixa-a de molho. Quem sabe encontra os ossos que vestir. Olha, parti o espelho. Crás!
– Oh, e agora? Preciso do vidro. Sabes, é que eu temo a água e o seu reflexo; foi-me dito que derrete os olhos. Já não sei o que é pior: asfixiar ou deixar de ver…
– Destapa o frasco. Bebe o veneno.
– A cortina corre, a luz apaga-se, os aplausos escondem-se no interior das algibeiras. A humilhação é o granizo que lava, hoje, o palco. –



– Queria oferecer-te o que não tenho – o lobo e o cordeiro cabem na mesma veia. Achas que o ar que nos falta é o segredo que os junta?
Toma. Gostas?
É a panela mais silenciosa que encontrei.
– Deixa-me simplesmente fic-ar.
– E a nossa vida enche-se com tudo aquilo que não nos cabe –

Laura Alberto e Jorge Pimenta


Mão Morta-Tiago Capitão

Polaroid 9

Ano Novo

hoje cortei um braço, pela simples razão de o cortar
ontem arranquei uma perna, pelo simples motivo de a arrancar
amanhã procuro como cauterizar os golpes de azar

enquanto corre o silêncio à volta
entre lama, frio, gelo
desenham-se círculos na areia movediça