«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

domingo, 6 de junho de 2010

Estudo XLVII

Sábado

não estou aqui,
permaneço ao teu lado,
mas não sou mais que uma fotografia,
condenada ao silêncio de uma folha de papel,

não estou aqui,
o sorriso que te devolvo,
é mera pintura de um artista anónimo,
esquecido ao bater das horas,

não estou aqui
e também não sei onde vou
(só sei que não estou)


Gun, Andy Warhol, 1981-1982

sábado, 5 de junho de 2010

Estudo XLVI

Armário

quando penso em ti sorrio,
o choro acabou por dar origem ao silêncio,
o teu rosto é agora uma névoa que se espalha
nas frias noites da vida,

quando penso em ti, agora consigo sorrir,
as lágrimas secaram nos meus olhos,
o teu corpo transformou-se em água,
despiu-se de mim,

quando penso em ti, já não sorrio,
já não penso, quando penso em ti


Andy Warhol, Untitled (Skeletons) 1976-1986

Praesens III

Em resposta ao meu Praesens II, o meu amigo João Miguel deixou-me ficar um belissimo poema, é justo que eu o publique aqui.
Obrigada João.

O silêncio
(era preferível o silêncio!)
é o prolongamento do túnel escuro
por onde fugimos
A saída era voltar atrás
onde nos encontrámos
Lá fora gravita o sol
gravando em fogo
um futuro
suspenso
Mas avançamos ao acaso
feridos pela noite

João Miguel Ferreira

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Estudo XLV

Despedida

posso ficar,
apenas um miúdo instante,
o tempo de abrires os lábios,

posso ficar
apenas um suave esgar,
o tempo de saborear o teu sal

posso ficar,
mas sê rápido,
só tenho um segundo para beber desse teu mar


Edvard Munch, Death and Love, 1894

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Estudo XLIV

Banheira

mergulhei naquela água fria,
a mesma azulada de sempre,
deixei que subisse até às narinas
e acariciasse o meu cabelo

os azulejos brancos ainda reflectem a tua imagem,
as pernas entrelaçam-se no tango bizarro de sempre,
dou por mim enterrada no teu peito,
prisioneira nos teus braços,

destapo o ralo
e deixo que a água escoe,
só sei que tenho frio, muito frio


Knives by Andy Warhol

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Praesens II

Continuamos:
Sozinhos,
Na escuridão.
Sanados,
superficialmente.
Vozes que se calam.
Corações mirrando aos dias.
Estamos:
Distantes,
Ocultos nos nossos postos,
À queima-roupa.

BASQUIAT, Jean-Michel. "Self Portait" (1982, óleo em tela. Coleção particular)

Estudo XLIII

Farmácia

as baratas beberam todo o perclorato de ferro,
continuam recatadas nos cantos,

procuramos o remédio infalível
para as fracturas expostas,
porque o sangue já não corre lá,

adoçam-nos os braços com palavras vãs
abraçam-nos os lábios com dedos de lã