«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

domingo, 18 de novembro de 2012

esventrado XXV


ensaio a frio como cortar os pulsos
sentada num frio banco de ferro
a cidade adormecida
pelo menos finge que não vê
e o tempo cola-se nas espaldas
curva as costas, desenha sulcos no rosto envelhecido

uma moeda perde-se aos meus pés
não sou, não estou
não me olhem:
sou trecho fosco absorvido
pelos vossos olhos apressados

há muito que abandonei o banco
onde ainda me julgam
onde ainda juram me ver
há muito que deixei de ser
a suja estátua de pedra
contudo os pássaros ainda pousam na minha mão

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

esventrado XXIV


amanheceu em nós
a madrugada da vasta solidão

sobre corpos tombados
de pele arrepiada
de carne fria
de sangue inerte
o pesar do tempo líquido
que os afasta

de nada adianta jurar
que o mundo irá parar
que o céu não será um denso manto pendendo sobre nós
pois a escuridão caminha

lado-a-lado
a teu lado
a meu lado
e nós já aqui não estamos

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

domingo, 11 de novembro de 2012

esventrado XXIII

não ouço os meus pesados passos
sobre o chão

não sinto o peso do casaco
pendendo sobre os ombros

não vejo o meu reflexo cansado
no nevoeiro cinzento

e um manto de folhas amarelecidas
raspa o alcatrão
e um vaso com flores de plástico
é esquecido sobre o mármore imundo

cansaste-te de ler o meu o nome
deixaste-o preso em letras de bronze

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

purgatorium XXXIX

Desenham-se umas olheiras fundas debaixo dos meus olhos cansados. Uma tosse violenta acorda-me nas noites negras, abafa as corujas, abafa os lobos, abafa os ecos emaranhados na mente.
Aproxima-se o pesado inverno, ouço os seus passos moribundos, pressinto a sua respiração rouca do outro lado da janela. Aperto a gola do casaco, disfarço o medo.
Eu também já tive sonhos, mas isso foi em tempos, por agora esqueci-me.
Imagino o meu rosto do espelho: quem sou eu?
Porra, quem sou eu?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

notas para fundo de mala

I
encontro uma caixa de fósforos
esquecida entre o forro da mala
e há tanto tempo que deixei de fumar

II
deito o corpo sobre a cama
vazio de ti, disforme
pele enrugada à espera

III
sinto o hálito doce
o teu corpo debruçado
perante a nudez arrepiada

IV
tardes frias de primavera
hotéis esquecidos
quartos imundos repletos de odores nauseabundos

V
grossos dedos, língua quente
molda-se a carne
pelos ossos que não lhe pertencem

VI
elevam-se montanhas de feno
afundam-se vales de sangue
mergulho no profundo de mim

VII
acendo um cigarro
prometo que será o último
não tarda encontro-te novamente

VIII
sim, não tarda encontro-te novamente
ou finjo que te encontro
no fim desta estrada

terça-feira, 6 de novembro de 2012

desAlinhado XXXIII

caminho sobre a noite
não a que já caiu sobre a cidade
mas a que a mim me assola

o frio instalou-se no espaço entre as costelas
entre a carne e os ossos
não agora, mas há muito tempo

restam-me
um rio poluído que desagua sem saber
as luzes de néon rosa de uma pensão
faróis amarelos de automóveis com rostos de estranhos
as vozes que vou calando em mim

procuro o mar que me inunda o olhar
alargo o nervo que me consome o corpo gasto

talvez amanheça em mim
outra vida, outra cidade, outro ser
que não se me consuma no peito

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Balada XXI

então, mandaram vir os médicos
mil médicos vieram e nada disseram
então, mandaram vir os físicos
mil físicos chegaram e rastos de nada encontraram
então, chegou a mensagem aos alquimistas
mil alquimistas morreram pelo caminho

as mulheres carpiam, soluçavam
no frio quarto adjacente ao seu
durante todo o tempo chovia
e o frio ganhava lugar no pele, na carne e por fim nos ossos

deixaram então de procurar
primeiro veio o silêncio da sua voz
os gemidos desapareceram debaixo do cantar da chuva
acenderam-se as lareiras
as mulheres cobriam o corpo com sujas mantas de lã
abafavam o rosto com negros véus

na solidão dos corredores:
o estalar da pele
o mirrar da carne
os ossos torcendo-se
rasgando músculo, deslaçando tendões
os lábios secos num sorriso moribundo
o sangue escorrendo lento pelo que resta do rosto 

então a chuva parou
e os sinos tocaram

chamaram os coveiros
chamaram os padres
chamaram os bruxos
chamaram as beatas
todos foram chamados, mais de mil

pesadas pás ferrugentas
jogaram-lhe mais de mil pazadas de terra
uma a uma ouviu-as cair
um baque surdo sob as tábuas
depois terra sobre terra sobre pedras sobre terra
de olhos bem abertos abraçou a escuridão
afagou o fato preto de fazenda: esperava

o meu homem
cessou no passado