de negro se tinge o meu sangue
de vazio se enche o meu peito
e toda uma cidade desfalece no pensamento
entre vultos que se esfumam em cadáveres
de nada servem as memórias
que se guardam em esquinas da memória
esquinas sujas, obliquas, quase cegas
sombrios são os dias que tento despir, os dias
líquidos e viscosos que ainda me faltam contar
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
notas para pseudónimo em forma de lista de compras
I
não esquecer:
de fechar os olhos antes de adormecer
a cegueira teima em atacar as negras noites
II
não esquecer:
de dormir acordada
os sonhos são cantos envenenados onde perecemos
III
trazer sempre no bolso
uma lâmina bem afiada
pois nunca se sabe quando o espelho se parte
IV
perguntar sempre
quanto de mim se fecha num nome
que não sendo meu, sempre me coube
V
abandonar, tentar esquecer
a graça do batismo
que nos leva pela vida que se vai desfazendo
VI
aprender
a dormir com os fantasmas
mortos no ventre
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/
[Queridos amigos, companheiros desta minha viagem as férias têm-me afastado dos vossos blogues, apesar de os continuar a ler, é-me difícil deixar comentários pois o tempo é escasso. Tentarei, o mais breve possível, deixar as minhas marcas nas vossas viagens. Muito obrigada a todos.]
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
notas para naufrágio em Ítaca
I
não será precisa a tua
lamina afiada
disferindo misericórdia
II
de nada serve
coser as tua pálpebras
pois tua cegueira é perene
III
recolhe então à concha
imunda
onde te escondes
IV
pois os braços que se erguem
na tempestade do oceano
trazem mão de degolador
não será precisa a tua
lamina afiada
disferindo misericórdia
II
de nada serve
coser as tua pálpebras
pois tua cegueira é perene
III
recolhe então à concha
imunda
onde te escondes
IV
pois os braços que se erguem
na tempestade do oceano
trazem mão de degolador
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
notas para amor ébrio
"eles não sabem que vão morrer"
José Saramago
I
são as sombras que nos desenham
nos paralelos de qualquer cidade
nas noites em que nos perdemos
II
não sei dançar, nunca soube
não sabes dançar, esqueceste-te
os mestres há muito que se foram
III
esvazia as tuas garrafas
enche os teus copos
alguém saberá como limpar os despojos da noite
IV
sem voz, sem silêncio
[as trevas penetram pelas paredes do quarto]
rápido, antes que a última golfada de sangue seque
V
os que brincam com as cinzas
não são os mais destemidos
são talvez os mais tolos inconsequentes
VI
no fim
não haverá urna
que nos sirva
purgatorium XXXIV
XXXIV
Há noites que consigo adormecer.
A rotina habitual, o cerrar mecânico das pálpebras: estou a dormir, finalmente.
Durante o sono sonho que morro e
não há mais nada, um ponto final paragrafo, uma história que vê o seu fim, uma
história que não soube como escrever. Faltou-me a tinta. Embrulharam-se as
palavras. Emudeceram-me os silêncios.
Só isto, morri e nada mais.
Mas o temido acordar acaba por se
tornar realidade e a vida é essa que se segue, apresentada numa bandeja que
nunca consigo alcançar.
E quantas mortes encerrarei nesta
vida de grades?
bala número dezoito
um dia
quando todas as casas ruírem
quando todas as pedras forem
nuvens de pó
quando o silêncio desconhecer os
ouvidos onde se abrigar
restarão as cruzes castigadoras
de pedra
e de que adianta a sua sombra no
incêndio do tempo?
e quem plantará flores de
plástico nas estradas de alcatrão?
o meu nome não cabe numa folha de
papel
e de minha fotografia apenas um
ténue resquício
sexta-feira, 27 de julho de 2012
notas para assalto noturno interior
I
tardes sombrias estendem-se pela janela
as perguntas saltam em queda
até à hora da morte quantas vidas lá cabem?
II
os homens uivam na escuridão da noite
arrastam as sobras do banquete de ontem
mas esqueceram os túmulos dos seus antepassados
III
uma mosca pousa-me no braço
ginástica acelerada com as patas dianteiras
de que lado é que me observa?
IV
até à hora de dormir
são muitas as peles que arrasto
ignoro as que deixo sobre o chão do quarto
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/
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