[de nada]
pesados passos que baptizam o ar
com a mensagem sem destinatário
[de pouco]
a salvação no salto cego
sobre o abismo crescente
[de mediano]
braços oscilantes
rasgando
ondas de mar gélido
[de tudo]
de olhos fechados, braços bem abertos
acreditar que se sabe voar
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
domingo, 10 de junho de 2012
notas para remorso em cima da mesa
I
como pedras suspensas sobre a cabeça
sustentadas por fios invisíveis
emaranhados na garganta
II
a boca seca
o palato arranhado
a face deformada
III
caminho de pedras aguçadas
farol cego
sirene abafada, aquém, incorruptível
IV
sabor obliterado de veneno
olhos vazados
e um martelo com que partir os ossos
como pedras suspensas sobre a cabeça
sustentadas por fios invisíveis
emaranhados na garganta
II
a boca seca
o palato arranhado
a face deformada
III
caminho de pedras aguçadas
farol cego
sirene abafada, aquém, incorruptível
IV
sabor obliterado de veneno
olhos vazados
e um martelo com que partir os ossos
terça-feira, 5 de junho de 2012
notas para assustar fantasmas
I
sabei vós que o relógio não espera:
arregalai os olhos
e vede o tempo que escorre pela boca
II
podeis procurar a chave misteriosa
nos anais da história
mas essa porta há muito que está encerrada
III
e de nada vos adianta ranger os dentes
procurar o sangue que apodreceu nas entranhas
a vossa imagem é tumulto em lápides sem nome
IV
está na hora de fingir,
fingir que se dorme
de olhos escancarados de temor
segunda-feira, 4 de junho de 2012
esventrado XIV
por hoje é tudo
já não consigo apanhar os bocado de mim
espalhados pelas mãos viciadas
encontrarei outras brasas, outros dedos
que me dêem forma
por hoje é tudo
o meu olhar reflecte o vazio do ar
onde caminho sozinha no tempo que resta
agora que está vazio o frasco dos analgésicos
por hoje é tudo
aperto a gola do roupão contra o pescoço
num pesadelo real: o que não se consegue assassinar
é tudo por hoje
já não consigo apanhar os bocado de mim
espalhados pelas mãos viciadas
encontrarei outras brasas, outros dedos
que me dêem forma
por hoje é tudo
o meu olhar reflecte o vazio do ar
onde caminho sozinha no tempo que resta
agora que está vazio o frasco dos analgésicos
por hoje é tudo
aperto a gola do roupão contra o pescoço
num pesadelo real: o que não se consegue assassinar
é tudo por hoje
domingo, 3 de junho de 2012
notas para um breve verão
I
o suor escorre pela testa
a alcatifa áspera provoca comichão no meu corpo
o formigueiro de um fogo que não se esquece
II
os rios têm um fim próximo
onde não encontro o meu lugar
e a distância cresce com violência debaixo dos meu olhar
III
as luzes mantêm-se apagadas
não vá o quarto ser invadido
se o tempo parou, os gritos esses continuam eternos
IV
a janela aberta, as cortinas em rebuliço
o ar abafado a criar as suas raízes
debaixo de nós estamos todos moribundos
[para a Joelma Bittencourt]
notas para isolamento
“As ruínas são perigosas, …, debaixo delas algo ainda se mexe.” Gonçalo M. Tavares
I
se acreditar nas vozes
se realmente as vozes existirem
então devo preparar as vestes finais
II
ruídos abafados que rodeiam o cérebro
martelo pneumático
que teima em visitas nocturnas
III
rastejo pela lâmina afiada
da tua língua bífida
a fundura do silêncio penetra nas entranhas desesperadas
IV
querer ou não querer
o barulho oculto de verme
rastejando ao longo das paredes
V
não querer ou querer
quedas abafadas sobre o chão
de novo se erguem os vermes viciados
VI
lábios arqueados:
dentes e enxofre no hálito
e estes silêncios que não se calam
VII
a continuidade da ruína
estendida diante dos pés
procuro a salvação na surdez
purgatorium XXIX
O fresco da tarde chega por fim e arrefece-me o corpo febril. Ainda sinto a dor na carne rubra sob a lembrança da língua em brasa.
Lânguida, ordeno aos meus dedos que oscilem entre raios de luz, raios de escuridão: linhas a direito no ar da sala. A inércia do silêncio invade-me os tímpanos.
Tanta estrada, tantos quilómetros: sem memória, sem lembranças.
Pouso os membros, sinal de cansaço: estar aqui ou não estar é igual. Ficar ou partir? Ainda assim nenhum sopro de vento lembrará o meu nome.
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