«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

segunda-feira, 14 de maio de 2012

bala número quinze

deixei de me importar, de querer saber, de querer compreender.
descuidei-me nas palavras, ocultei gestos desenhados no ar viciado.
cada passada dada afasta-me de mim e sobretudo de ti. os vermes tragados trarão o veneno que procuro, as cócegas das asas no estômago, o ácido corroendo as entranhas.
deixei de me procurar ao espelho, de te ver diante de mim.
cada uma das lâminas tem o seu destino traçado, no chão o mapa programado do sangue em golfadas.
deixei-me de ser. nada.

e cada corte que em mim faço, a ti te destrói

 
Nine Inch Nails: Gave Up (1992)

balada XV


as palavras, sei-o agora
são feitas de traços dobrados,
tinta preta rasgando o papel

o papel, sei-o agora
envelhece com os dias
e queima-se no esquecimento

o esquecimento, sei-o agora
é palavra jogada no canto do quarto,
animal ferido rosnando


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

domingo, 13 de maio de 2012

purgatorium XXV


E de repente estás só.
E de repente estou sozinha.
E de repente sou eu, parada no centro da cidade de sempre. A sola a acariciar o chão imundo. Apago o cigarro com a ponta do sapato.
Sinto a inércia no corpo. Invadem-me as batidas do relógio na torre: sincronizadas, metálicas, uma lâmina que penetra nos tímpanos e entra na corrente sanguínea.
O coração dispara debaixo do peito cola-se nas costelas. Força-as. Obriga que se dilatem até ao possível limite humano.
Estou no centro de mim e todos se afastam. Vejo-os desaparecer, primeiro minúsculos pontos pretos, depois nada.
E de repente estou só.
Fotografia de Laura Alberto

domingo, 6 de maio de 2012

esventrado XI

tens a manhã na janela do teu quarto:
bebes o sol que te acorda na madrugada
esticas o corpo, bebes um café
e sais


refugio-me da luz que ofusca
em passos tortos pela casa
dobro as costas, encosto os joelhos ao peito
sucumbo à companhia do frio


trazes a calma quando chegas
tens o adeus sempre que partes
e sempre voltas, sempre


eu? esvazio o pensamento
certa de que já devia ter morrido,
ou nascido no teu passado
mas pela porta escancarada
desconheces como entrar
e o se, é lâmina que corta: aos dois


 

balada XIV

enrosco lâmpadas no casquilho
com dedos finos de lã
à espera do fim desta luz negra 


ao dobrar da esquina
prostram-se os sonhos
de joelhos contra o asfalto


[guardam-se duas velas de aniversário
embrulhadas em guardanapos sujos
dentro da carteira


ninguém o dirá
e ninguém virá
e ninguém o saberá]


continuo com o vidro fino
entre os dedos
alguém há-de vir reclamar os ossos sem nome

 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

purgatorium XXIV

Hoje, vejo os que se afastam em largas passadas, tornam-se minúsculas figuras até que desaparecem do meu olhar. Conheço-os, sempre os conheci e mesmo quando a sua imagem desaparece do meu alcance, sei-os desde sempre.
Sempre estiveram arrumados nas prateleiras, perfeitamente catalogados, esquecidos, ocultos pelo pó. A maior mentira de todas, o que se não vê jamais será lembrando.
Hoje, saíram todos do seu covil, limparam o pó que os cobria, vestiram o seu melhor fato. Saíram.
Fico aqui a ver as suas negras formas contra a linha do horizonte. Grito uma despedida. Ouço um adeus lancinante.
Acendo um cigarro, esperança vã que a bronquite se decida de uma vez.
E da memória nada reste.

terça-feira, 1 de maio de 2012

desAlinhado XXIV

agora que se recolhe a luz
deste dia azedo
e o silêncio abraça o corpo desperto


agora que adormecem os cansativos
seres coloridos
e o vento é companhia única dos ossos que restam


agora que as trevas são
dedos de lã acariciando os olhos
e embalando o sonho


sinto o mármore frio invadir a pele
bebo da chuva que escorre da tua boca
abro as portas sobre o peso dos séculos:
afogam-se as lembranças presentes
o corte eficaz da lâmina na pele esquecida


o sangue que escorre secará por fim
sem que ninguém o ouça