Uma vez ou Simplesmente
abrem-se as flores,
morrem as libélulas,
desprendem-se as rochas,
saboreia-se o fruto,
apodrece o pão,
cheira-se o mar,
bebe-se o bolor,
cai-se contra os joelhos,
voa-se sobre nada,
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Pedradas II
quer o gnomo fatiar o lodo, charcos envoltos em vapores de enxofre
patas assentes em pântanos de terra, seca sobre as nuvens cinzentas
quer o anão evaporar, cordilheiras de rochas soltas
asas libertas no céu de aço, sublimando aos tártaros
quer o poeta tinta para a pena, quando tinta não é o que lhe falta
patas assentes em pântanos de terra, seca sobre as nuvens cinzentas
quer o anão evaporar, cordilheiras de rochas soltas
asas libertas no céu de aço, sublimando aos tártaros
quer o poeta tinta para a pena, quando tinta não é o que lhe falta
Pedradas I
Como ficar?
Como ir?
Como chegar?
Onde se vislumbra o fim?
Onde se teve o inicio?
São as folhas que sobem, de encontro aos ramos?
Um dia há-de o mar beijar a nascente.
Uma semana hei-de ficar no baloiço,
até que os dias mirrem e se cansem as noites.
Como ir?
Como chegar?
Onde se vislumbra o fim?
Onde se teve o inicio?
São as folhas que sobem, de encontro aos ramos?
Um dia há-de o mar beijar a nascente.
Uma semana hei-de ficar no baloiço,
até que os dias mirrem e se cansem as noites.
Manifesto XXVIII
Salteador
mão direita na algibeira, bolso vazio,
mão esquerda oculta, segura-se o revolver,
olhos turvos de pó, limpa-se a alma com o lenço imundo,
ouvidos afiados, atenta-se no eco do pensamento,
todo o pano cobre a boca, os lábios que não sabem,
coxeia, coxeia
enfim, para a prateleira vazia que ocupas
mão direita na algibeira, bolso vazio,
mão esquerda oculta, segura-se o revolver,
olhos turvos de pó, limpa-se a alma com o lenço imundo,
ouvidos afiados, atenta-se no eco do pensamento,
todo o pano cobre a boca, os lábios que não sabem,
coxeia, coxeia
enfim, para a prateleira vazia que ocupas
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Manifesto XXVII
Perguntar, diz o povo, não ofende.
-Qual é o sito certo para se colocar um parêntesis?
(Provavelmente para colocar meia, ou até mesmo uma dúzia de palavras, soltas ou não)
-As palavras que se escondem entre esses sinais curvos não são muito importantes no texto onde nadam?
(Firmes muros de tinta, abrigando as letras que se temem, que nunca se dizem, nunca se dirão)
-Então? Quando devo de usar os parêntesis?
(Definitivamente, sem qualquer réstia de duvidas, quando a coragem apodreceu nas tuas entranhas)
-Qual é o sito certo para se colocar um parêntesis?
(Provavelmente para colocar meia, ou até mesmo uma dúzia de palavras, soltas ou não)
-As palavras que se escondem entre esses sinais curvos não são muito importantes no texto onde nadam?
(Firmes muros de tinta, abrigando as letras que se temem, que nunca se dizem, nunca se dirão)
-Então? Quando devo de usar os parêntesis?
(Definitivamente, sem qualquer réstia de duvidas, quando a coragem apodreceu nas tuas entranhas)
Manifesto XXVI
Saídas
Silêncio,
Cansei de te ouvir!
Memória,
Enjoei de tanto te sorver!
Respirar,
Rebentei de tanto evitar!
Ver,
Sujei as órbitas com o teu pó!
Sentir,
Vomito o teu odor!
-Sai!
(E saí)
Silêncio,
Cansei de te ouvir!
Memória,
Enjoei de tanto te sorver!
Respirar,
Rebentei de tanto evitar!
Ver,
Sujei as órbitas com o teu pó!
Sentir,
Vomito o teu odor!
-Sai!
(E saí)
Manifesto XXV
bocaDOS
o cheiro a azedo domina,
os cestos aguardam, vazios,
sobre o soalho, ressequidos vermes,
músculos abandonando os ossos quebradiços,
tendões lassos desistindo perante dias caleidoscópicos,
olhos vazos em lixo,
não há vento que sacie a sede,
não há mar que me abrace o peito,
não há punhal que trespasse a visão
lá longe, ao fundo

Fotografia de David Lynch
o cheiro a azedo domina,
os cestos aguardam, vazios,
sobre o soalho, ressequidos vermes,
músculos abandonando os ossos quebradiços,
tendões lassos desistindo perante dias caleidoscópicos,
olhos vazos em lixo,
não há vento que sacie a sede,
não há mar que me abrace o peito,
não há punhal que trespasse a visão
lá longe, ao fundo

Fotografia de David Lynch
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