«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

sábado, 3 de julho de 2010

( )

deito o corpo na água fria,
deixo que deslize pela corrente,
não há margens,
não há foz,

apertam-se as brechas,
escarpas cortantes sobre o peito morto,

afogo a mente na água fria,
que se apague a memória,
não há braços,
não há lábios,

carrega-se o tambor da pistola,
insinuante sobre o crânio,


Fotografia de Man Ray

Manifesto VII

Pára(grafo)

que mais viria por aí?
desisti da pergunta, fiquei à espera…

que mais iria escutar?
cansei de ouvir o teu silêncio…

que mais traria em mim?
secaram-se os braços,
evaporou-se o sangue,
fica o resto de um nada.


Rayographie, Man Ray

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Brincando, tipo Cesariny

Olá!

Pequeno gato pardo,
Afiando as suas unhas.

Sorri, ri,
Fim!

Um, dois
Fim!

Abraço, abraço,
Fim!

Beija, não beija,
Fim!

Deseja, pára,
Fim!

Afiando as suas unhas,
Gigante gato pardo.

Adeus,
Fim!


Mário Cesariny

Estudo XLVIII

Reflexo ou Poema da raiva

serei pó
até que o vento me carregue
(e não tu)

serei gota em terra árida
até que encontre o rio púrpura
(e não tu)

serei o esquecimento
até que abracem o meu corpo
(e não tu)


Barbette Applying Makeup, Man Ray, 1926

Manifesto VI

Pausa sustida

caiu uma estrela em Marte,
ninguém a ouviu

secaram as águas nos homens,
ninguém o viu

apodreceram os braços cansados,
ninguém o sentiu

ficaram os manequins sentados,
todos os visitaram


Mannequin, photograph gelatin silver print, Man Ray, 1939

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Manifesto V

Horas

sabia que chegaria a hora,
perdida em mais um dia vazio,

ácido derramado sobre as entranhas,
amedrontando o bicho dormente,

braços que apertam,
no silêncio que nos cerca

sabia que chegaria a hora,
de deixar a morte pousar


Woman With Long Hair, 1929, Man Ray

Manifesto IV

Corpus

se por acaso
entre um vento e um sopro,
avistares um qualquer cadáver,
deixa-o,
deixa-o ficar,
em silêncio,
ele guarda a saudade de um,
de dois,
de nenhum,
abraço


Untitled, Man Ray