«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

esventrado XXXII

acordo: uns cêntimos no bolso
levanto-me: um rosto que não sei
tento a subida: são cinzas que chovem

deixei que o tempo fugisse
entre as mãos sem o saber
agora que movo os dedos
já nada tenho para agarrar
não sou este corpo, não sou este retrato
sorrio e não me sei eu
choro e não me sei encontrar

penso: que quero eu então
penso: eu que tudo tenho
penso: procuro-me enquanto me perco
penso: vou-me perdendo enquanto me reconheço

e a tinta da china tudo é bonito
e com flores tudo tem um novo aroma
e com música todos os medos se retraem

e eu com alguns cêntimos no bolso

e sem sonhos para comprar

terça-feira, 9 de julho de 2013

esventrado XXX

[golden star]

a chávena inerte sobre a mesa
o café que arrefece, fumo em espirais aleatórias
com dedos nervosos percorro o tampo de vidro
impressões digitais esborratadas
misturadas com outras de desconhecidos

já nem os estudantes aqui param
e os velhos contam os últimos trocados
que irão trocar por pão
ensaio umas letras, a medo
num papel que trago esquecido no bolso

à saída deixo-o ficar amarrotado
no caixote do lixo imundo

tão depressa me erguem uma estátua
tão depressa me abrem um túmulo

Fotografia de Man Ray, Anatomies



quarta-feira, 10 de abril de 2013

esventrado XXIX


[para os que partem, com os olhos noutro futuro, para os que ficam e os vêem partir]

onde estão os teus filhos
que alimentaste com o peito em ferida
cantando as glórias de viriato

entregaste as suas almas
ao mar da tempestade na esperança de outros futuros
e viste-os padecer na orla da praia

pedaço de terra, país de sofredores
que carregam a cruz que não puderam escolher
porque fechas os olhos agora

ah, Portugal, que fizeste tu
parindo fortes guerreiros

ah, Portugal, que fazes tu
abandonando os teus filhos

talvez eles voltem, um dia, Portugal
com a lágrima nos olhos
e tu com os braços bem abertos lhes beijes a fronte

talvez fiquem bem longe de ti
com a triste memória
de serem os teus filhos esquecidos

terça-feira, 12 de março de 2013

esventrado XXVIII


espreita do outro lado da janela
com dentes cariados e hálito pérfido
marca os segundos no vidro embaciado
deixando o riso escapar

fecho os olhos e vejo
cerro os dentes e falo

ah, maldito sejas tu
com tuas vestes brancas
com tua voz de candura
torcendo os ponteiros
ameaçando a carne que envelhece

cubro o corpo e tremo de frio
esqueço o tempo e as pragas cumprem-se

tira-me as medidas
compra-me um belo par de sapatos
tece-me o fato que sonhaste
prende os pregos nas tábuas lisas de pinho
pois sabes bem que daqui não me é possível sair

[no fundo todos estamos realmente frios]

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

esventrado XXVII


trazes o oceano no olhar
as vagas altas encarceradas no peito
tua primeira lágrima rola
sobre a pele que teimas esquecer

sabe a sal o silêncio
com que encerras os dias longos
e aceitas a ladainha que se repete

quisera eu ser senhora
dos sete mistérios ocultos
detentora das sete chaves
oxidadas, sem portas que as conheçam

sou apenas uma mais, a mais
dos marcados eternamente
à espera da vingança

e setenta vezes sete
inventarei um novo sol
criarei um novo mar
desflorarei a terra virgem

se dessas setenta e sete vezes cair
saberei de novo erguer-me sobre pernas lassas
as lágrimas não cairão mais
pois os olhos trago-os abertos
e a terra por nós será lavrada
sem resquícios de sal

Fotografia do filme Naked City, 1948 de Jules Dassin

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

esventrado XXVI

a tua cama
é o abismo onde gosto de me perder
os teus lençóis
carregam a sujidade que me viciam
o teu quarto
abriga os meus ossos partidos

oferta-me
o gelo do teu toque
o odor a alfazema dos teus lábios
o punhal que cravas na carne

que o veneno, o teu veneno
seja a última coisa que conheço

o teu quarto: frio, o teu quarto: vazio, o teu quarto: assombrado, o teu quarto: o vicio, o teu quarto: o fim

não importa a dor, tudo acaba em si

domingo, 18 de novembro de 2012

esventrado XXV


ensaio a frio como cortar os pulsos
sentada num frio banco de ferro
a cidade adormecida
pelo menos finge que não vê
e o tempo cola-se nas espaldas
curva as costas, desenha sulcos no rosto envelhecido

uma moeda perde-se aos meus pés
não sou, não estou
não me olhem:
sou trecho fosco absorvido
pelos vossos olhos apressados

há muito que abandonei o banco
onde ainda me julgam
onde ainda juram me ver
há muito que deixei de ser
a suja estátua de pedra
contudo os pássaros ainda pousam na minha mão

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

esventrado XXIV


amanheceu em nós
a madrugada da vasta solidão

sobre corpos tombados
de pele arrepiada
de carne fria
de sangue inerte
o pesar do tempo líquido
que os afasta

de nada adianta jurar
que o mundo irá parar
que o céu não será um denso manto pendendo sobre nós
pois a escuridão caminha

lado-a-lado
a teu lado
a meu lado
e nós já aqui não estamos

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

domingo, 11 de novembro de 2012

esventrado XXIII

não ouço os meus pesados passos
sobre o chão

não sinto o peso do casaco
pendendo sobre os ombros

não vejo o meu reflexo cansado
no nevoeiro cinzento

e um manto de folhas amarelecidas
raspa o alcatrão
e um vaso com flores de plástico
é esquecido sobre o mármore imundo

cansaste-te de ler o meu o nome
deixaste-o preso em letras de bronze

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

esventrado XXI


amaldiçoo o dia que nasce
enchendo o tempo de luz
tocando de leve no rosto dos mortais iludidos

trilho a noite entre abismos
profundos que me crescem no peito
ouço os ecos roucos dos mortos

ateio fogo ao corpo
que sempre viveu viciado
pelo calor do inferno que ergueu

vejo-me arder
vejo-me ser cinzas
vejo-me obrigada a viver tudo de novo

todo este céu azul
causa-me náuseas
e o vomito cresce incontrolável

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

terça-feira, 2 de outubro de 2012

esventrado XX

gostaria de ter sido mais
do que uma mulher deitada na tua cama
acorrentada pelo toque da tua pele
viciada no sabor acre da tua boca
amaldiçoada sob o teu corpo quente

poderia ter sido mais
do que um corpo nu à tua mercê
onde cidades ruíram, onde templos se ergueram
e todos os mares banharam a península de nossos corpos torcidos

poderíamos ter feito mais, muito mais
do que uma melodia gasta num velho gira discos
e um promessa esquecida no tempo
[os copos continuam vazios]
 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

esventrado XIX

as mãos escondidas nos bolsos, inquietas
permiti-me invadir o teu espaço dissimulado
sem aviso, sem falar, sem nada esperar
assim como assim, como fomos de rompante

há uma mão que é a primeira a sair, a perder o medo
a conquistar a sua batalha
o toque da pele quente, o esfriar do pensamento na nuca
[por ti dobrei o tronco e toquei as profundezas húmidas]

quando a outra mão saiu impaciente, ávida
arqueei as costas, toquei o soalho frio do teu quarto
deixei que a pele fosse tua, como sempre o fora
entreguei-te a carne que devorarias sem pesar, sem pensar
fui o teu brinquedo
atirada vezes sem conta para os lençóis viciados da tua cama
fui a tua pedra bruta
que moldaste, fizeste e refizeste
de pernas abertas, de pernas fechadas
seios perdidos nas tuas mãos
lábios em orgia de carmim
corpo afogado pelo suor
lagos de sémen onde flores jazem
tardes sombrias estendendo-se pelo quarto, sobre nós

hoje, a tua mão assenta em cima da mesa, serena
acorrentada
e teus dedos já não se mostram impacientes enquanto o sono te invade
 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

esventrado XVIII


esperaste que a luz viesse banhar o teu chão
mas esqueceste o caminho de regresso
quando bateste com a porta

jogaste aos dados
numa mesa sem ninguém
onde apostaste os teus dias longínquos

bebeste todo o vinho da adega
comeste toda a comida da despensa
juraste nunca mais falar

do futuro emprenhado
apenas a ilusão:
os demónios não existem

esqueceste, finges esquecer
o teu nome, a tua raça
e quando te perguntam, finges-te surdo

aguarda então que seja a terra
a cobrir as tuas narinas
e os vermes a beijarem-te na boca


 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

esventrado XVII

sonhaste
frescas areias pintadas de azul
lábios quentes em nuances de vermelho
calmas ondas recortando o céu que um dia saberias alcançar

planeaste
o tempo segundo as tuas mãos
moldando os dias, assassinando a noite

bebeste
o néctar da tua adega com brindes ruidosos
em banquetes de deuses desnudos

hoje estás
prisioneiro de uma cidade que jamais te conheceu
amaldiçoado pela luz pálida dos candeeiros
perdido entre as quatro paredes simples do teu quarto, a tua casa

limpa a maquilhagem com que cobriste o teu rosto
despe a roupa com que proteges o teu corpo envelhecido
um desafio: olha de frente, encara o espelho
percebes o que vês?

 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

esventrado XVI

não escolhi roupa alguma com que cobrir o corpo
afinal esta minha pele transpira
ávida pelas tuas mãos rudes


bebi todo o teu vinho
fumei todos os teus cigarros
droguei-me com todos os comprimidos que guardavas


espero-te num qualquer quarto
carne quente em combustão
suores frios sobre a espinha
imagino, ensaio uma e outra vez
dedos na boca seca, dedos no ventre arrepiado
uma e outra vez 
as pernas abertas, viciadas em ti


 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

esventrado XVI



talvez resista
ao vento cortando as suas arestas
e nem a humidade encontrará onde deixar o seu testemunho

talvez permaneça
intocável, inabalável
cortando o céu azul triunfante

talvez seja imortal
atravessando o tempo, comandando as estações
e de nós nem uma ínfima lembrança

[e não é isto que querias? uma casa:
pedra sobre pedra sobre pedra
sobre nós]

Fotografia de Laura Alberto

domingo, 10 de junho de 2012

esventrado XV

[de nada]
pesados passos que baptizam o ar
com a mensagem sem destinatário
[de pouco]
a salvação no salto cego
sobre o abismo crescente
[de mediano]
braços oscilantes
rasgando ondas de mar gélido
[de tudo]
de olhos fechados, braços bem abertos
acreditar que se sabe voar

 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

esventrado XIV

por hoje é tudo
já não consigo apanhar os bocado de mim
espalhados pelas mãos viciadas
encontrarei outras brasas, outros dedos
que me dêem forma


por hoje é tudo
o meu olhar reflecte o vazio do ar
onde caminho sozinha no tempo que resta
agora que está vazio o frasco dos analgésicos 


por hoje é tudo
aperto a gola do roupão contra o pescoço
num pesadelo real: o que não se consegue assassinar


é tudo por hoje

domingo, 20 de maio de 2012

esventrado XIII

não, não fales
de viagens sem destino nas costas das tuas mãos
de mergulhos doces na areia debaixo dos nossos pés

não, não fales
em abrir o tempo e beber o azul do céu
em esticar os braços, aprender a voar

não, não fales
todas as mansões serão muito em breve
ruínas desfeitas entregues ao silêncio

 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

esventrado XII

arrastam-se pesados
entre as sombrias paredes,
sons metálicos
gritados no passado distante


cunham sombras
indeléveis
nas esquinas cegas
do olhar


fracos ossos,
punhos cerrados
cravados no betão da memória:
o teu punhal espera por mim