«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

esventrado XXVII


trazes o oceano no olhar
as vagas altas encarceradas no peito
tua primeira lágrima rola
sobre a pele que teimas esquecer

sabe a sal o silêncio
com que encerras os dias longos
e aceitas a ladainha que se repete

quisera eu ser senhora
dos sete mistérios ocultos
detentora das sete chaves
oxidadas, sem portas que as conheçam

sou apenas uma mais, a mais
dos marcados eternamente
à espera da vingança

e setenta vezes sete
inventarei um novo sol
criarei um novo mar
desflorarei a terra virgem

se dessas setenta e sete vezes cair
saberei de novo erguer-me sobre pernas lassas
as lágrimas não cairão mais
pois os olhos trago-os abertos
e a terra por nós será lavrada
sem resquícios de sal

Fotografia do filme Naked City, 1948 de Jules Dassin

13 comentários:

  1. Laurinha,
    a eternidade quando multiplicada pela eternidade é vida ao avesso, contra-maré nadar, e morrer no doce mar sem morrer.

    Beijos com saudades de ti, querida amiga de olhos verdes-castanhos ou castanhos-esverdeados? :)

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  2. Apreciei e como os versos finais. Sem resquícios de sal. o sal tempera, mas também pode estragar. Os produtos melhores são os da praia, mas creio que a terra não é salgada. Em terra salgada o cultivo não deve crescer. Será?

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  3. o sal que lava a alma e que não aduba (?) a terra.
    terá sido?

    beijão,

    r.

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  4. [por cada passo, a palava

    o corpo adentro, a palavra
    teima a reinvenção de mais um grande

    grande mar.]

    um imenso abraço,

    Lb

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  5. Sou de setenta e sete e de sete em sete, já dizia meu avô, muda-se o paladar. A palavra tem sete letras e através dela é que podemos nos levantar.

    Bjos!

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  6. Apenas o que importa: abrir as 7 portas para reinventar um novo sol e o mar sem sal.
    Lindo, Laura. Quero ler 77 vezes.

    Beijos.

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  7. Se seus versos são oriundos de todas essas tentativas, que linda é a sua trajetória!

    Um grande abraço!

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  8. Há que nos levantarmos sempre!
    Encontro sempre um belo momento de poesia por aqui!

    Beijos, boa semana

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  9. querida laura,
    li-te no maior silêncio meu, com todo o imenso que esse silêncio pode conter...
    belíssimo!

    beijinhos

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  10. Minha poeta de todos os espantos, esse merece mt mais que um puta que o pariu!!!!!
    fogo! fogo!
    bj gigante

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  11. O importante é nunca desistir.
    Magnífico poema, gostei imenso.
    Laura, tem um bom resto de domingo e uma boa semana.
    Beijo.

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