«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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terça-feira, 24 de maio de 2011

Pedrada LXIV

inho

os homenzinhos com as suas bonitas camisinhas engomadinhas
as mulherezinhas com os seus lindos vestidinhos floridinhos
os homenzinhos e as mulherezinhas do cimo dos seus engraxadinhos sapatinhos, enrolam as palavrinhas nas suas linguazinhas de serpentes;
agitam os seus bracinhos branquinhos e brincam com os seus documentozinhos prioritários de inutilidade;
lancham as suas comidinhas gourmet nas mesinhas redondas, onde deixam ficar a sua imundice;
fumam os seus cigarrinhos nas esquinas, escondidos do sol enquanto falam, falam e falam
os homenzinhos e as mulherezinhas, com as suas lindas roupinhas e seus gestos lixivados, metem-me cá um grande nojinho

terça-feira, 10 de maio de 2011

Pedradas LXII

O enigma

fecha o portão rápido
os sonhos há muito que voaram
entre as falhas do granito que se estende sob os nossos olhos

corta a erva que cresce
sorrateira no teu jardim,
nenhuma bota merece a sua seiva pura

escuta o murmúrio do vento
os belos gigantes vomitam palavras tolas
e hão de cair em pó

[e eu sei quem tu és]

Fotografia de Pedro Polónio,http://club-silencio.blogspot.com/

sábado, 7 de maio de 2011

Pedradas LXI

O vento que fica

abraço o vento que passa
e o arrepio percorre toda a minha pele,
vejo-a cansada da secura do teu beijo

esbugalho os olhos
mas é só vento que passa
sem trazer o odor dos teus braços

tiro a roupa que me cobre,
o sangue pára entre os músculos e a carne
e é só o vento que passa

[nem a escuridão me devolve a tua face
nem o silêncio me cobre com o teu canto
nem o frio aquece nas horas vagas]


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

terça-feira, 3 de maio de 2011

Pedradas LX

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Pedradas LIX

Fastio

bocejo:
mergulho a colher baça no café
que pinta a parede da chávena cansada,
os olhos humedecem-se de tédio

bocejo:
a colher viola a espuma,
num gesto mecânico agito a água tingida
a espuma abre-se, fecha-se e abre-se de novo
numa espiral mesclam-se a espuma e o café

bocejo:
são braços que se abrem, são braços que abraçam
são mãos que se fecham, são mãos que largam
são lábios que se abrem, são lábios que se calam

bocejo:
bebo o café de um gole só,
sempre sem açúcar

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pedradas LVIII

Ao fim e ao cabo

que sensação desconfortável
invade o meu intimo, todas as entranhas
reviradas, viradas e reviradas
de baixo para cima, de cima para baixo
o fogo consome o interior, coze a pele em lume brando

[que palavras são estas?]

turvam-se os olhos,
avermelhados da raiva que nasce bem no fundo
e brota violenta pela carne quente
em fúria, em fúria senhores
e queima os vermes que se escondem

[que palavras são estas, meus senhores?
estas palavras pintadas, ornamentando
vossas frases espalhafatosas,
sim, meus senhores, serão estes os vossos pensares?]

quer o poeta escrever tudo:
o que lhe apetece
que lhe vai entre o sangue e a urina,
entre o suor e a lágrima

quer o poeta dizer:
que na sarjeta vive poema

terça-feira, 12 de abril de 2011

Pedradas LVII

Faz me um favor


não sou eu quem se deita na tua cama à noite
não sou eu quem bebe da tua boca nas manhãs frescas
faz me um favor, fecha a janela:
não dou por mim a voar no teu terraço
nem a morder o teu corpo nu

Fotografia de Laura Alberto

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Pedradas LVI

Porra

Ah!
e não há um machado que destrua este cadeado
corte esta árvore
parta estes vidros
arrombe estas tábuas
destrua este ar podre

Ah! e não há um martelo que esmague o crânio
triture estes dias
dilacere este peito
estrague estes ossos
assassine este moribundo que se arrasta a meu lado

Ah!
e não há liberdade que se fume
num cigarro à beira da estrada

Pedradas LV

Presente

a correr pelo alcatrão quente
entre o fumo que se absorve, lento

quisera ter asas e saber que podia voar
faria do céu o túmulo do sonho sublimado

a fugir na estrada de terra solta
entre abetos que vivem, sempre

quisera voar e saber o que eram asas
faria do teu corpo o lugar onde pousar o abraço

a dormir pelos dias abafados
que escorrem pelo tempo

domingo, 27 de março de 2011

Pedradas LIV

O casacão

se vestir o casaco
não me posso esquecer:
polir com afinco as medalhas de latão oxidado

se efectivamente vestir o casaco,
convém pegar
em agulha e linhas, não vá o forro despregar

se optar por vestir o casaco,
primeiro terá que arejar
não vão os meus ossos sufocar quando for a enterrar

se vestir o casaco,
não posso ter medo
a nudez desprende-se pela pele, realmente

domingo, 20 de março de 2011

Pedradas LIII

Equinócio

não me importa:
dos copos de cristal
das flores em jarras
de janelas, de portas

[os vidros rasgam-me a pele
traçam mapas entre veias cansadas]

não me importa:
da lua redonda (que fosse quadrada)
dos dias que cercam as noites
das noites que assassinam os dias (que fosse o tempo)

[o nome escreve-se com lápis de carvão
e apaga-se com o ácido derramado do peito]

quinta-feira, 17 de março de 2011

Pedradas LII

O Engano

abriu os olhos para ver:
a névoa cinzenta que se estendia
cobria o dia, a noite, as horas

abriu as mãos para agarrar:
o silêncio que tinha parido
e escorria pelas paredes da casa, vazia, fria

mexeu os pés para caminhar:
sobre os pântanos da escuridão
onde pousava os braços abertos

acordou:
tarde demais

terça-feira, 15 de março de 2011

Pedradas LI

No frigorífico

no frigorífico há:
leite, iogurtes e queijo
legumes, maças, laranjas e peras
uma embalagem de natas, fora do prazo
uma embalagem de massa quebrada que o prazo termina amanhã
uma garrafa de vinho azedo

no frigorífico há:
prateleiras vazias, vazias
gavetas partidas, vazias e partidas
todas as noites, todos os gritos, todos os gestos,
e todo o frio que guardo nos ossos

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

segunda-feira, 7 de março de 2011

Pedradas L

Ironia

deixo a cabeça tombar para trás
desenha-se uma luz pálida, amarela,
coada entre rolos de fumo

aqui:
é o silêncio
e o ruído dos jogos infantis

fecho os olhos, abro os olhos:
tudo ocupa o mesmo lugar
imóvel entre linhas de pó

aqui:
é o frio que agasalha
e o vento invadindo as entranhas

procuro o buraco no peito,
entre pele, carne, ossos
e um fio de sangue que escorre

é:
o riso,
o choro,
o sal,
o doce,

agora:
só o nada se rouba
entre a lâmina assassina do tempo

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pedradas XLIX

Contar

quando aprendi a contar,
contei:
todos os azulejos da cozinha
todas as linhas que via
todos ao traços brancos no negro do alcatrão
todas as escadas que subi
todas as janelas que esqueci abertas
todos os pássaros que me fugiram
todas as pedras que agarrei
todas as portas em que entrei

um dia deram-me uma máquina
e desisti de contar

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Pedradas XLVIII

O bicho

engulo em seco
ele continua lá, teimoso
insisto, mordo a língua
e o sangue escorre pela traqueia
as cócegas continuam

bebo água, uma mistura
de sangue e água salobra
escorre pelo canto da boca
pouso o copo baço na mesa da cozinha
ele abre as asas e afaga o meu interior

[tosse, tosse
raio de tosse que não me larga]

meto os dedos na boca,
faringe, esófago e laringe
nada
mas as cócegas continuam
o ar tem dificuldade em entrar, em sair, em permanecer

chegará a hora em que o verei,
finalmente:
numa qualquer lâmina de microscópio
cortarei o seu corpo anelar com o bisturi
sem espinha, sem esqueleto

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Pedradas XLVII

Tempos verbais

estou:
sem sono, sem fome, sem ruído
sem ar, sem silêncio, sem ti

desconheço quando chegará a hora
a hora que temos para morrer
descer, descer, descer e descer

massacrar o cal das paredes, partir os cristais
estilhaçar as tábuas, em pó
queimar o corpo que resta, cinzas em cinzas, às cinzas

qual é o dia que chega
pelo peito, de dentro, sai e sufoca
enche o quarto de ar, de chuva

malditos, malditos sejam
todos os esqueletos guardados, chaves perdidas
todos os destroços de todos os corpos, que fomos

John Frusciante - The Past Recedes

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pedradas XLVI

D. Quixote

sinto que as estações escorrem,
lá fora, do outro lado do vidro da janela,
alguém atira uma pedra e é um suspiro que morre

[que queria eu?]

os sonhos secaram, presos nas costas dos gigantes

um cavalo, uma lança, um moinho
ainda que em ruínas, ainda que miragem
um moinho emproado sobre o monte

[e que monte seria?]

anda, corre meu fiel amigo,
ao teu lado
o dia galopa no dorso de mil tempestades

[quantas batalhas?]

são histórias, estas que nos contam
alguém parte um vidro
e é o vento que foge, lesto

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Pedradas XLV

Vómito

vómito:
mancha esquecida sobre o chão de tijoleira,
conspurca o pensamento, molda as imagens
com o seu raiar de sangue velho,
satura o ar com o seu odor acre

vómito:
fervem os espaços do tempo,
quebram-se os espelhos em ruído,
e os vermes rastejam numa tentativa
de libertação, de alienação

o vómito continua lá, seco
[deito a mão ao peito
o coração ainda lá está]

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Pedradas XLIV

Tosca

já não há princesas neste pedaço de terra,
nunca as houve,
ostentam as orlas dos vestidos conspurcadas
enquanto mostram falsos sorrisos de gengivas com escorbuto

respiram enxofre pálido, agitando leques de seda
gastos, esquecidos, envelhecidos
falam de montes, de prados húmidos pelas manhãs
de nuvens que lhes tocam a face e
do sol que lhes aquece o peito

já não há princesas de verdade neste quinhão,
secou a tinta nos aparos
e a historia não se pode continuar a escrever