«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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terça-feira, 27 de abril de 2021

do outro lado do passeio
misturado entre o cinzento do muro de granito
e a neblina matinal
um desconhecido caminha sem pressas
observo-o
levanta os braços
coloca as mãos sobre a cabeça
e contempla o céu
esperei 45 anos por isto
sem saber

terça-feira, 16 de março de 2021

em loop


sigo o trilho que resta

entre um rio que não se acalma

um corte no joelho lembra-me

de que não se brincam com as pedras

se não te respeitares

respeita ao menos o que te rodeia

digo para mim

um último encher de ar

os pulmões cansados

olhar à volta

ter tudo a andar à volta

e o rio nos meus pés

e as pedras com quem não se brincam


sábado, 26 de setembro de 2020

Marilyn Manson - DON'T CHASE THE DEAD (Official Video)



dura a eternidade
até os sete palmos de terra
me cobrirem o rosto
vendam as terras
vendam as casas
queimem as roupas
espatifem os carros
e esqueçam-me
não há amanhã

sexta-feira, 19 de junho de 2020



aqui agora nada ninguém
medo muito medo sono
insónia silêncio
dormir
nada aqui silêncio amanhã

não me apontes o dedo
não me olhes
se não me amas, precisas fazer nada

sexta-feira, 17 de abril de 2020


será que alguém,
do outro lado,
alguém do outro lado me dá mão,
enquanto deste lado
finjo desaparecer
mas hei-de regressar
feito filha pródiga
mas neste momento, não estou aqui
e não estou aí, não sou eu, nem tu


mas o que eu gostava era de saber cantar,
de cantar para alguém e esperar que alguém me ouvisse
então eu gritaria
até ficar rouca
até cair para o lado
até vocês se irem embora
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA


e aos poucos vamos tentando não morrer
sabendo que de dia para dia
morremos um bocadinho mais
é tudo ou nada
em suspenso no ar:
não precipita
não sublima
assim, como um manequim exposto numa montra
não chora
não ri
não fala
não ouve
mas está lá, onde deve estar
venham as chuvas
siga a primavera
que eu corro, corro, corro
em suspenso

quarta-feira, 18 de março de 2020



se calhar devias tê-lo feito
mas agora que não o fizeste
diz-me tu o que vais fazer?
eu por mim optei por não pensar, muito
distrair a mente com o que me rodeia
se bem que o que me rodeia
é um punhado de medo
e seu eu não o fiz
agora talvez o não consiga fazer
pelo menos sei o que é ter medo
com todas as letras

m de morte
e de esquecimento
d de dor
o de ontem

já não importa o caminho
andar numa estrada que não se sabe onde termina
porque os passos são poucos e vagos
não fossem todos os filmes que eu vi
e não perderia tempo a ver imagens em meu redor
não sei o que tenho
mas sei o que desejo
já nada importa, já nada importa
e o raio dos pássaros não param de cantar
e o raio da Primavera vem aí
e agora talvez já de nada valha a pena

m de monstro
e de esquisito
d de disfarce
o de ontem