«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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segunda-feira, 23 de junho de 2014

estilhaço X

deixa que o tempo continue a cobrir
a memória do que fomos, a sombra do que somos
os olhos já não sabem o horizonte
quedaram-se noutras paragens
o vento que corre já não tem o sabor de outrora
ainda o sei sentir: é amargo, quando de ti esboça notícias

deixa que a terra seja bem pesada
sete, setenta palmos de terra
bem seca, bem molhada
não procures o instante, ele foi-se
como tu e eu já cá não estou

fomos o sonho que nunca soube existir
e hoje somos o pesadelo das noites frias

deixa morrer, deixa-nos morrer

quinta-feira, 5 de junho de 2014

eatilhaço X

quis ser o chão do teu quarto
o lençol da tua cama
os retratos na tua parede

deitei-me debaixo dos teus pés
fiz da minha pele os restos do teu prato
prendi te os braços
agarrei-te os lábios
adocei-te a tua boca

esqueci-me que afinal tens asas
e a tua língua buscava outros lugares

fiz do meu corpo teu corpo
e agora relembro o que não tive

e sinto saudades do que não vivi

quarta-feira, 30 de abril de 2014

estilhaço IX

olho para o meu rosto de relance
um olhar furtivo
o olhar derradeiro
sobre a pele, os olhos, as rugas
o tempo marcado a cinzel

procuro a água
que tudo faça desaparecer
a cura eficaz
para os males que se guardam
mas os remédios, esses foram criados

para que a nossa doença permaneça

terça-feira, 25 de março de 2014

estilhaço número VIII

carrego talvez o cansaço
destes poucos anos de existência
consigo ainda encontrar espaço
uma réstia de pele
onde marcar as ausências
um fio de cabelo a arrancar
uma lágrima perdida pronta a sair
um sorriso que se dá e não se sente

e vou seguindo
iludindo e iludindo-me

rostos, rostos, rostos, rostos, rostos, rostos, rostos
e rostos
abraços, abraços, abraços, abraços, abraços, abraços, abraços
e abraços


e no fim a solidão de estar entre a multidão

estilhaço número VII

os amigos
enumero-os um-a-um
dedos das mãos e siga para os pés

os amigos
seus abraços
suas palavras preciosas

os amigos
tão depressa os sei
tão depressa os perco

os amigos
tão rápido a chegar
e num ápice a partir

os amigos
encontram outros rostos
acolhem novos corpos

os amigos
sentem asco e fingem
odeiam e fecham

os amigos
tantos são

e tanta é a solidão

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

estilhaço número VI

os sonhos que se guardam
aqueles que fazem chorar
aqueles que nos deixam em claro
aqueles que deixamos cair
e aqueles que teimamos agarrar

as palavras que se aprendem
como são difíceis no primórdio
como se tornam fáceis no último sopro
como perdem o seu sentido
como ganham novos significados

e essa palavra
que vou apreendendo, dia após dia
escrevo-a com mão tremula
humedeço-a com o olhar
deixo que cresça nos gritos surdos

e estes dias cinzentos
que fogem e correm
de mim, sem mim
que se cumprem frios e solitários
entre sorrisos, verdadeiros e falsos
entre bom dia e até logo

este tempo que não me pertence
e que fora de mim

se ausenta do meu ser

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

estilhaço número V

Saberemos cada vez menos
O que é um ser humano.
Livro das previsões

que conheço eu
da imagem que me olha
quando conto as rugas
num qualquer espelho

as roupas que trago
escolhi-as eu
e agora são me largas
e outras são-me apertadas

já não sei quem vejo
quem procuro em gavetas
vazias de sonhos

os riscos que fiz
as palavras que disse
as palavras que por dizer
foram ficando esquecidas

os outros reconhecem-me
o meu corpo, o meu rosto
dizem o meu nome
e saúdam-me com um caloroso sorriso

que sou eu ainda
caminho em terrenos inóspitos
em vertigem sobre mim
os fios cortei-os há muito
e agora é deles que preciso

esta espiral aperta-se
ao menos que o ar teimasse em falhar
morrer não me custa

viver é que se torna doloroso

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

estilhaço número IV

todas as tempestades
terminam em ti
guardadas no pequeno peito
que descobre golfadas de ar

todos os vendáveis
correm doces
entre as curvas involuntárias
dos teus dedos frágeis

e todos os nomes
escondem o teu em silêncio
e todos os sonhos
são agora tua pertença
e todos os medos
são agora tão pequenos, aos teus pés

um dia saberás ver
os pássaros que cruzam o céu
e deixarás que passem sem notar

um dia a chuva será
apenas água fria
que te gela o corpo

um dia o vento
trará
a memória dos que perdeste

um dia os teus sonhos
serão de outros,
e que tu sejas sempre tu

e o sorriso a ti pertença

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

estilhaços

I
destas mãos que trago
sujas de terra
já nem as cicatrizes se notam

desta face
que abriga distantes portos
nem uma ruga conta história

destes dias
que me sobejam
apenas a densa escuridão

dos outros dias
que já contei
memórias escritas e perdidas

disto que sou
disto que fui

já nem sei quem serei
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/