«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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quinta-feira, 29 de maio de 2014

notas para esconjurados

I
a escolha vai se fazendo
de dias vazios, de noites frias
cabides vazios em armários

II
partimos os espelhos
riscamos os números
perdemos os mapas

III
deixamos de ficar
desistimos de partir
e de esquecer fizemos o verbo


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

segunda-feira, 20 de maio de 2013

purgatorium XLIV


E é chegada a minha vez de sair de cena. A terceira pessoa ganha finalmente o seu papel de protagonista.
Estendeu-lhe a mão aberta, mas sem remédio, sem salvação. Primeiro sentiu a pele fria e áspera, os ossos sem réstia de carne.
Como que à queima-roupa, mas nunca pelas costas, jamais pelas costas, disparou-lhe a pergunta, Tens o dinheiro? Deveria tê-lo, mas esqueceu-se onde o puseram. Sim, decididamente deveria ter o dinheiro, outros tinham-se certificado de lho colocar nos bolsos. Só que agora as mãos inertes não saberiam busca-lo e de pouco lhe adiantaria a voz abafada debaixo de uns lábios extintos.
Sim, tinha realmente as moedas e ia ficar errando pois não sabia como as encontrar.
A porta fechou-se pesada, um baque forte, o silêncio derradeiro.

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

terça-feira, 12 de março de 2013

esventrado XXVIII


espreita do outro lado da janela
com dentes cariados e hálito pérfido
marca os segundos no vidro embaciado
deixando o riso escapar

fecho os olhos e vejo
cerro os dentes e falo

ah, maldito sejas tu
com tuas vestes brancas
com tua voz de candura
torcendo os ponteiros
ameaçando a carne que envelhece

cubro o corpo e tremo de frio
esqueço o tempo e as pragas cumprem-se

tira-me as medidas
compra-me um belo par de sapatos
tece-me o fato que sonhaste
prende os pregos nas tábuas lisas de pinho
pois sabes bem que daqui não me é possível sair

[no fundo todos estamos realmente frios]

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

notas para genesis dissemelhante


I
talvez ainda devore o pão
amassado no suor do meu rosto
temendo o pó que me assalta a sepultura

II
teimo em ordenar aos bichos
novas regras
organizando-os a meu bel-prazer

III
ainda assim resta a lembrança
do jardim, dos céus e da terra
da chuva impossível  que fez brotar as sementes

IV
longe estão já
os tempos do diluvio
quarenta dias e também quarenta noites

V
os que se salvaram
são os heróis prometidos
que carregam punhais escondidos

VI
geraram-se filhos, geraram-se filhas
e eis que fomos corrompidos
numa terra tingida de sangue

VII
duzentos e cinco anos
com as mesmas palavras
atravessadas na garganta

VIII
e toda a eternidade
com o estranhar
do dialeto do vizinho

IX
assim me marcas: homicídio não consumado
assim me desculpas: mas os outros não
assim me condenas: entregue a mim próprio

X
apenas quis perceber o teu lugar
apenas quis saber o que pensar
mas o teu rosto não assome no horizonte

Fotografia Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

a não-Odisseia


não há barcos para Ítaca
naufragados estão na orla dos sonhos
ao longe já não se ouvem
as trompas emudecidas sob a ameaça
de noites sem fim

sei bem que me escreveste
sobre as lutas em terras distantes
mandando entregar os papeis
que nunca vi, que nunca saberia ler

imagino que das tuas mãos
a ira se tenha erguido
e nelas sucumbiram
os gigantes de água, os gigantes de pedra

mas esta fantasia todos
ludibriou
enquanto por ti rezavam
e pela tua chegada aguardavam

não, eu não acredito
em meias palavras
em meios feitos
em finais de encantar

os labirintos medi-os
um a um
sem nunca me enganar
já não cruzo os braços
à espera de uma faúlha que seja
agito as mãos, abro a boca
e sei finalmente como respirar
a cidade está escura, talvez sempre assim tenha sido
em silêncio rasgo a manta
que outrora não teria remate

não, esta não é a nossa história
é apenas o esboço de ninguém
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

domingo, 25 de novembro de 2012

Balada XXII


sem mais delongas
é chegada a hora de me despedir
amigo que te sentas comigo
nesta mesa esquecida num canto qualquer

esvaziamos as garrafas
enchemos os copos
fumamos todos os cigarros
medimos o tempo
olhando pela lupa
enquanto riscávamos os dias em dobras na pele

lá fora a noite
lá fora o dia
em nós as trevas
encerradas no peito húmido
saturadas de ar bafiento
lá fora o dia
lá fora a noite
em nós o vazio
que cresce dentro dos ossos
e queima o que resta das entranhas

há muito que fomos
há muito que esquecemos o que somos
esqueletos sorridentes, histórias de assombrar

despeço-me de ti, querido amigo
sem mais delongas
tu que há muito não te sentas à minha mesa
que há muito me ensinaste o sabor amargo da partida

e que sei eu ainda
amanhã alguém me virá buscar
mas muito antes de o caixão sair do umbral da porta
talvez tudo arda num ápice, talvez as paredes restem em pé

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/


domingo, 18 de novembro de 2012

esventrado XXV


ensaio a frio como cortar os pulsos
sentada num frio banco de ferro
a cidade adormecida
pelo menos finge que não vê
e o tempo cola-se nas espaldas
curva as costas, desenha sulcos no rosto envelhecido

uma moeda perde-se aos meus pés
não sou, não estou
não me olhem:
sou trecho fosco absorvido
pelos vossos olhos apressados

há muito que abandonei o banco
onde ainda me julgam
onde ainda juram me ver
há muito que deixei de ser
a suja estátua de pedra
contudo os pássaros ainda pousam na minha mão

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

esventrado XXIV


amanheceu em nós
a madrugada da vasta solidão

sobre corpos tombados
de pele arrepiada
de carne fria
de sangue inerte
o pesar do tempo líquido
que os afasta

de nada adianta jurar
que o mundo irá parar
que o céu não será um denso manto pendendo sobre nós
pois a escuridão caminha

lado-a-lado
a teu lado
a meu lado
e nós já aqui não estamos

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

terça-feira, 30 de outubro de 2012

purgatorium XXXVIII

Escrevo.
Escrevo porque nada mais me resta no frio da noite solitária.
Escrevo, antes que a minha carne seja pó, antes que a pele se suma.
Escrevo, pois nada mais tenho a fazer do que esperar, do que ter coragem.
Escrevo e a lâmina repousa na mesa diante de mim, inerte, ameaçadora.
E enquanto escrevo esqueço-me de mim, deixo que a pele entre na carne, a carne desapareça nos ossos e os ossos se partam nas mãos de um desconhecido.
Não acendam velas, queimem apenas aquilo que eu escrevo.

Foto de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

esventrado XXI


amaldiçoo o dia que nasce
enchendo o tempo de luz
tocando de leve no rosto dos mortais iludidos

trilho a noite entre abismos
profundos que me crescem no peito
ouço os ecos roucos dos mortos

ateio fogo ao corpo
que sempre viveu viciado
pelo calor do inferno que ergueu

vejo-me arder
vejo-me ser cinzas
vejo-me obrigada a viver tudo de novo

todo este céu azul
causa-me náuseas
e o vomito cresce incontrolável

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

balada XX


olhou para ela de soslaio, pelo canto do olho
esvoaçava em trapos negros
vulto de formas imprecisas e odor quente

quis oferecer-lhe uma mão
ainda que desfalecida
ainda que cravada de sulcos fundos

-não preciso as asas chegam-me bem
ele mexeu os lábios mostrando uma fileira de dentes amarelos
tornava-se impossível respirar

olhou de novo para ela enfrentando-a
desenhou um futuro em linhas invisíveis
e cravou-lhe o punhal com mestria entre os espaços das costelas
ainda sentiu a lamina tocar-lhe no coração
[há mortes que precisam ser ensaiadas]

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

balada XIX


distantes estão já os dias passados a fumar
de pernas cruzadas no chão da sala
hoje distraio o tempo contando as horas
na nicotina que mancha de vida os dedos

fecho os olhos e tudo se torna mais clarividente
os papeis esquecem-se pela casa, amontoados
perdidos entre mesas, prateleiras, soalho
a maldição de carregar nas mão tinta que não se pode limpar

cheguei aqui com o desejo de vos cumprimentar
saber das vossas histórias, partilhar os vossos sorrisos
mas deste ponto já nem encontro o caminho de regresso
e a memória languida atraiçoa o pensamento mordaz

desaparecem os corpos, as figuras
calam-se as vozes, fecham-se as portas
a realidade escancarada diante de olhos pálidos
a solidão que toca no ombro enquanto se procura um cigarro perdido

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

purgatorium XXXV


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

Talvez do outro lado existam sorrisos, gargalhadas e gritos de crianças. Talvez elas corram em estradas de terra batida, com as faces sujas de pó. Quando caem levantam-se e continuam a correr com os seus arcos de metal envelhecido.
Talvez exista um pacífico oceano de águas azuis onde se mergulha sem medo, sem frio, onde se sabe nadar mesmo sem ter aprendido a tal.
Talvez do outro lado exista algo, mas quando saio dou por mim numa estrada que se fecha em círculo.



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

notas para pseudónimo em forma de lista de compras



I
não esquecer:
de fechar os olhos antes de adormecer
a cegueira teima em atacar as negras noites

II
não esquecer:
de dormir acordada
os sonhos são cantos envenenados onde perecemos

III
trazer sempre no bolso
uma lâmina bem afiada
pois nunca se sabe quando o espelho se parte

IV
perguntar sempre
quanto de mim se fecha num nome
que não sendo meu, sempre me coube

V
abandonar, tentar esquecer
a graça do batismo
que nos leva pela vida que se vai desfazendo

VI
aprender
a dormir com os fantasmas
mortos no ventre

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

[Queridos amigos, companheiros desta minha viagem as férias têm-me afastado dos vossos blogues, apesar de os continuar a ler, é-me difícil deixar comentários pois o tempo é escasso. Tentarei, o mais breve possível, deixar as minhas marcas nas vossas viagens. Muito obrigada a todos.]

sexta-feira, 27 de julho de 2012

notas para assalto noturno interior



I
tardes sombrias estendem-se pela janela
as perguntas saltam em queda
até à hora da morte quantas vidas lá cabem?

II
os homens uivam na escuridão da noite
arrastam as sobras do banquete de ontem
mas esqueceram os túmulos dos seus antepassados

III
uma mosca pousa-me no braço
ginástica acelerada com as patas dianteiras
de que lado é que me observa?

IV
até à hora de dormir
são muitas as peles que arrasto
ignoro as que deixo sobre o chão do quarto

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

segunda-feira, 18 de junho de 2012

notas para epigrafe funerária



I
os outros morrem
saberás ao menos o seu nome
ou vais carpir um desconhecido?

II
os outros morrem
o sinal da cruz, abençoados
deixá-los ir em paz

III
os outros morrem
dê-lhes alguém o céu
que descansem em paz

IV
os outros morrem
e tu finges que choras
e tu finges que sabes

V
os outros morrem
e tu pensas,
ainda bem que não fui eu

VI
os outros morrem
e tu como eles
um dia vais morrer
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

quinta-feira, 14 de junho de 2012

notas para corpo sobre a mesa


I
célere
lamber os ponteiros do relógio
balancear a imagem pelo canto do olho

II
ânsia de moldar a carne
desejo de provar o sabor
das palavras proibidas escondidas aos soluços

III
o segredo que se guarda
entre pernas semiabertas,
afogar a moralidade recortada no horizonte

IV
enganar
a espera
e desesperar

V
talvez seja a puta
que te espera
na penumbra da tua mente
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

domingo, 27 de maio de 2012

notas tácteis para poema de possível amor


I
lavo a pele com água a escaldar,
preparo o terreno
onde os vermes farão pousio

II
procuro as vestes perfumadas
com que ornamentarei o corpo,
mapa de urgências mudas

III
corto pedra, faço um trilho
abismo fundo
de nossos corpos descartáveis

IV
cerro os olhos, busco agulhas
se não enxergar,
o amanhã nunca chegará


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

segunda-feira, 21 de maio de 2012

notas para possível poema de amor táctil


I
agarro uma a uma as frutas esquecidas sobre a mesa
mordo a sua pele dura, encontro a carne mole
o seu suco escorre-me pela boca

II
irrequieta, a língua acaricia o céu da boca
lábios abertos
à procura dos dedos de açúcar

III
olhos cerrados, mãos despertas
pele contra pele
pernas que se abrem sorrateiras
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

segunda-feira, 14 de maio de 2012

balada XV


as palavras, sei-o agora
são feitas de traços dobrados,
tinta preta rasgando o papel

o papel, sei-o agora
envelhece com os dias
e queima-se no esquecimento

o esquecimento, sei-o agora
é palavra jogada no canto do quarto,
animal ferido rosnando


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/