XL
naquele tempo comíamos os frutos das árvores, bebíamos a água dos charcos.
naquele tempo caíamos, arranhávamos os joelhos, sangrávamos e corríamos pela linha do caminho-de-ferro.
naquele tempo contávamos os números à nossa maneira, falamos as nossas palavras, gritávamos ao vento.
naquele tempo, todo o universo éramos nós.
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
"O coração é um vasto cemitério" Heiner Muller
XXXIX
fechar os olhos. abrir os braços. sentir o vento na pele, o vento que hoje finalmente dorme.
rodar, rodar, rodar.
sentir o chão que foge. entrar no solo que se abre violentamente sobre os pés.
rodar, rodar, rodar, rodar.
amanhã, esquecemos o nome de quem coloca o alimento sobre a mesa.
amanhã, esquecemos a mão que embalou o berço.
amanhã nascemos, se amanhã houver amanhã.
Beirut @ Glastonbury-Carousels
fechar os olhos. abrir os braços. sentir o vento na pele, o vento que hoje finalmente dorme.
rodar, rodar, rodar.
sentir o chão que foge. entrar no solo que se abre violentamente sobre os pés.
rodar, rodar, rodar, rodar.
amanhã, esquecemos o nome de quem coloca o alimento sobre a mesa.
amanhã, esquecemos a mão que embalou o berço.
amanhã nascemos, se amanhã houver amanhã.
Beirut @ Glastonbury-Carousels
terça-feira, 12 de julho de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXXVII
atravessada sobre os lençóis brancos, deixo a minha cabeça pender. da janela do quarto, observo a luz amarela do candeeiro filtrar-se entre o nevoeiro que se espalha na neblina. ténues pedaços de luz amarela dissolvem-se na escuridão da noite, pequenos pedaços de algodão desfeito.
os teus dedos desenham mapas na minha pele, a tua boca bebe o rio sem foz, na carne cravam-se os dentes.
uma gota de suor cai, sobre o chão de madeira e a lua acaricia os corpos com a sua luz fria de gelo.
o tempo parou, para que se pudesse dormir, assim, pausa.
atravessada sobre os lençóis brancos, deixo a minha cabeça pender. da janela do quarto, observo a luz amarela do candeeiro filtrar-se entre o nevoeiro que se espalha na neblina. ténues pedaços de luz amarela dissolvem-se na escuridão da noite, pequenos pedaços de algodão desfeito.
os teus dedos desenham mapas na minha pele, a tua boca bebe o rio sem foz, na carne cravam-se os dentes.
uma gota de suor cai, sobre o chão de madeira e a lua acaricia os corpos com a sua luz fria de gelo.
o tempo parou, para que se pudesse dormir, assim, pausa.
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXXVI
um instante, um breve segundo: sentir que o coração parou e o sangue é uma poça adormecida, onde crianças saltam de pés descalços.
se abrir um corte na pele, se cortar em duas linhas simétricas o peito, jorrará sangue em golfadas tímidas, lágrimas virão limpar a face e o sal adivinha esculturas disformes na linha do rosto
sentir este estremecimento, sentir-me assim, sentir-te assim, dentro de mim
um instante, um breve segundo: sentir que o coração parou e o sangue é uma poça adormecida, onde crianças saltam de pés descalços.
se abrir um corte na pele, se cortar em duas linhas simétricas o peito, jorrará sangue em golfadas tímidas, lágrimas virão limpar a face e o sal adivinha esculturas disformes na linha do rosto
sentir este estremecimento, sentir-me assim, sentir-te assim, dentro de mim
domingo, 12 de junho de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXXV
o fumo do cigarro sobe em espiral, entre as línguas de luz que fintam os estores fechados. sigo-lhe o percurso contorcido entre pequenas partículas de pó. é provável que o sol queime as searas esta tarde e se abrigue no beiral da porta, mas aqui o frio permanece, imóvel, gelado, irrepetível.
de olhos abertos, de olhos fechados a escuridão rodeia o meu corpo e as papoilas ardem mais quentes do que a luz que as finta.
inspiro o fumo, o pó, o frio, o negro dos olhos e expiro em golfadas geladas.
algures o gancho enterra-se no peito e conto os dias, os meses, os anos que aqui me trouxeram.
a culpa existe: é a pele que cobre a carne, as rugas que sulcam a cara, o sangue que desliza pelos dedos, os olhos que fugiram das órbitas.
adivinho a tarde, lá fora: a tarde parou nos pés das crianças sem forças para a pontapear, a tarde parou nos olhares pasmos dos pais, a tarde parou no dia em que o meu cigarro se apagou.
o fumo do cigarro sobe em espiral, entre as línguas de luz que fintam os estores fechados. sigo-lhe o percurso contorcido entre pequenas partículas de pó. é provável que o sol queime as searas esta tarde e se abrigue no beiral da porta, mas aqui o frio permanece, imóvel, gelado, irrepetível.
de olhos abertos, de olhos fechados a escuridão rodeia o meu corpo e as papoilas ardem mais quentes do que a luz que as finta.
inspiro o fumo, o pó, o frio, o negro dos olhos e expiro em golfadas geladas.
algures o gancho enterra-se no peito e conto os dias, os meses, os anos que aqui me trouxeram.
a culpa existe: é a pele que cobre a carne, as rugas que sulcam a cara, o sangue que desliza pelos dedos, os olhos que fugiram das órbitas.
adivinho a tarde, lá fora: a tarde parou nos pés das crianças sem forças para a pontapear, a tarde parou nos olhares pasmos dos pais, a tarde parou no dia em que o meu cigarro se apagou.
terça-feira, 17 de maio de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXXIV
a navalha repousa no balcão, romba, cansada da pele seca que a cobre. o pó cobriu-a ao longo dos dias que correram, que ficaram quedos nos raios de luz entre frinchas da madeira.
até os ratos desistiram de procurar a carne
até as aranhas se cansaram das suas teias
até as moscas secaram entre o cotão das roupas
até as centopeias rastejaram sobre a luz do dia
a navalha espera, a ferrugem apanhou-a

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
a navalha repousa no balcão, romba, cansada da pele seca que a cobre. o pó cobriu-a ao longo dos dias que correram, que ficaram quedos nos raios de luz entre frinchas da madeira.
até os ratos desistiram de procurar a carne
até as aranhas se cansaram das suas teias
até as moscas secaram entre o cotão das roupas
até as centopeias rastejaram sobre a luz do dia
a navalha espera, a ferrugem apanhou-a

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
sexta-feira, 29 de abril de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXXIII
fecho a porta, não temas: o medo não existe, apenas na tua cabeça.
descansa, eu fecho a porta, mas vou deixá-la encostada, sem que tu te apercebas.
tranquilo, fecho a porta: lá fora é só o vento, é só a chuva, e só uma tempestade.
fecho a porta, encostada.
alguém virá perguntar a cor dos teus braços, o sabor da tua boca. a porta está fechada e o bolor invade as paredes.
fecho a porta, não temas: o medo não existe, apenas na tua cabeça.
descansa, eu fecho a porta, mas vou deixá-la encostada, sem que tu te apercebas.
tranquilo, fecho a porta: lá fora é só o vento, é só a chuva, e só uma tempestade.
fecho a porta, encostada.
alguém virá perguntar a cor dos teus braços, o sabor da tua boca. a porta está fechada e o bolor invade as paredes.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXXII
uma gota cai, um som abafado entoa pelas paredes de mármore branco. cai cega, num lavatório de água a escaldar e mal cai dilui-se, ganha braços, pernas, cem de cada, entre a água parada no lavatório de louça estalada.
uma gota cai, decidida, sozinha e desaparece na água com que te lavas, hoje e amanhã.
uma gota cai, um som abafado entoa pelas paredes de mármore branco. cai cega, num lavatório de água a escaldar e mal cai dilui-se, ganha braços, pernas, cem de cada, entre a água parada no lavatório de louça estalada.
uma gota cai, decidida, sozinha e desaparece na água com que te lavas, hoje e amanhã.
quinta-feira, 31 de março de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXXI
as pernas tinham sido cortadas, na linha imediatamente abaixo dos joelhos, enfiava os cotos em duas latas: de chapa prateada, que brilhava entre as pedras da calçada.
vendia amores perfeitos: roxos, lilases, violeta, cor-de-rosa. os seus olhos sorriam perante os ramos atados com gigantes folhas verdes atadas por um cordel.
entre os vendedores de lotaria, de rifas, os aleijados, os pedintes, os alcoólicos, vendia ramos de amores perfeitos e guardava os trocos em latas.
as pernas tinham sido cortadas, na linha imediatamente abaixo dos joelhos, enfiava os cotos em duas latas: de chapa prateada, que brilhava entre as pedras da calçada.
vendia amores perfeitos: roxos, lilases, violeta, cor-de-rosa. os seus olhos sorriam perante os ramos atados com gigantes folhas verdes atadas por um cordel.
entre os vendedores de lotaria, de rifas, os aleijados, os pedintes, os alcoólicos, vendia ramos de amores perfeitos e guardava os trocos em latas.
quinta-feira, 24 de março de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXX
olho o telhado que se estende ondulado, sob um céu de nuvens: ramos secos, folhas, e os pequenos pardais aos saltos, aos saltinhos, com medo.
sou um pássaro que foge, por aí, bem longe, bem perto, uma mala cheia de nada e pó nas asas.
olho o telhado, já não sei das horas, das folhas, dos ramos e todos os pardais voaram.
olho o telhado que se estende ondulado, sob um céu de nuvens: ramos secos, folhas, e os pequenos pardais aos saltos, aos saltinhos, com medo.
sou um pássaro que foge, por aí, bem longe, bem perto, uma mala cheia de nada e pó nas asas.
olho o telhado, já não sei das horas, das folhas, dos ramos e todos os pardais voaram.
sexta-feira, 18 de março de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXIX
ficava horas, horas seguidas a olhar para a parede: a cal branca, imaculada. os dias estendiam-se, pelas tábuas do quarto, pelas paredes do quarto, enquanto o gigante arreganhava os dentes.
a noite deitava-se no dia, o dia deitava-se na noite: é o estar sozinho, o estar acompanhado, procurar um rosto, um qualquer rosto, que sorrisse, que dissesse, estou aqui, mas não estou. a multidão dilui-nos, dilui-me.
horas a fio desenhavam riscos no branco, riscos e mais riscos até que o branco era negro, o frio era o refúgio e tu, o silêncio. e ficar assim, a olhar de olhos cerrados.
ficava horas, horas seguidas a olhar para a parede: a cal branca, imaculada. os dias estendiam-se, pelas tábuas do quarto, pelas paredes do quarto, enquanto o gigante arreganhava os dentes.
a noite deitava-se no dia, o dia deitava-se na noite: é o estar sozinho, o estar acompanhado, procurar um rosto, um qualquer rosto, que sorrisse, que dissesse, estou aqui, mas não estou. a multidão dilui-nos, dilui-me.
horas a fio desenhavam riscos no branco, riscos e mais riscos até que o branco era negro, o frio era o refúgio e tu, o silêncio. e ficar assim, a olhar de olhos cerrados.
segunda-feira, 7 de março de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXVIII
sentava-me naquele corredor, gigantesco na altura, sobre a carpete fofa: de pernas cruzadas, de joelhos, de lado. aquele corredor era o meu país e eu: ditava as leis, construía cidades, destruía casas e tocava no meu piano de plástico.
naquele corredor, separado de toda a casa por portas vi, pela primeira vez, o meu sangue escorrer pela testa, vi o meu pai e a minha mãe: de costas, de frente, zangados, chateados, a sorrir muito, quando tocava o meu piano de plástico.
naquele corredor, de paredes que não lembro a cor, vi todas as pessoas que entraram, que saíram e tornaram a entrar, que entraram, que saíram e que nunca mais vi.
naquele corredor, feito de nada, só de portas, descobri o sonho, o frio, o medo: o medo de ter medo, o medo de não ter medo, o medo de dizer que não se tem medo.
o piano vermelho partiu-se, o corredor viu todos partirem e todos me esqueceram lá
sentava-me naquele corredor, gigantesco na altura, sobre a carpete fofa: de pernas cruzadas, de joelhos, de lado. aquele corredor era o meu país e eu: ditava as leis, construía cidades, destruía casas e tocava no meu piano de plástico.
naquele corredor, separado de toda a casa por portas vi, pela primeira vez, o meu sangue escorrer pela testa, vi o meu pai e a minha mãe: de costas, de frente, zangados, chateados, a sorrir muito, quando tocava o meu piano de plástico.
naquele corredor, de paredes que não lembro a cor, vi todas as pessoas que entraram, que saíram e tornaram a entrar, que entraram, que saíram e que nunca mais vi.
naquele corredor, feito de nada, só de portas, descobri o sonho, o frio, o medo: o medo de ter medo, o medo de não ter medo, o medo de dizer que não se tem medo.
o piano vermelho partiu-se, o corredor viu todos partirem e todos me esqueceram lá
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXVII
fazer das tripas coração: esperar que ele bata, que circule o sangue, que se respire o ar, que se beba a água.
fazer das tripas coração: sair, ir e chegar para voltar a sair, ir e chegar, até um dia.
fazer das tripas coração: rasgar a face, esticar os lábios, sorrir, ouvir o riso que sai de dentro e continuar a sorrir.
fazer das tripas coração: beber as lágrimas, trincar o sal, morder o medo, esconder a faca.
fazer das tripas coração: partir os ossos, queimar a pele, cortar o musculo, deixar o sangue correr, pelas pernas, pela lápide.
fazer das tripas coração: coragem e fazer das tripas coração.
fazer das tripas coração: esperar que ele bata, que circule o sangue, que se respire o ar, que se beba a água.
fazer das tripas coração: sair, ir e chegar para voltar a sair, ir e chegar, até um dia.
fazer das tripas coração: rasgar a face, esticar os lábios, sorrir, ouvir o riso que sai de dentro e continuar a sorrir.
fazer das tripas coração: beber as lágrimas, trincar o sal, morder o medo, esconder a faca.
fazer das tripas coração: partir os ossos, queimar a pele, cortar o musculo, deixar o sangue correr, pelas pernas, pela lápide.
fazer das tripas coração: coragem e fazer das tripas coração.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXVI
uma casa e as suas paredes: pintadas, enfeitadas com desenhos a dourado, manchas de água que hão-de escorrer, no futuro, do telhado, das caleiras rompidas.
são dois, três, quatro, cinco, voltam a ser três, deixam de ser três, para serem dois, depois três, depois dois, uma.
o barulho encheu os corredores, os quartos, todas as divisões da casa, abriram-se todas as janelas, limpou-se o pó pousado de leve sobre os móveis, quadros de imagens, que nunca existiram a não ser na mente de quem os pintou, brilhavam nas paredes.
a chuva batia nos vidros da janela, a luz do largo iluminava os quartos escuros, luz amarela. de joelhos, apoiada na alcatifa: não quero crescer e tu vais ficar sempre comigo. a resposta falsificada e é de novo verão, de novo inverno, de novo a mesma promessa.
muito antes de ser só um, os cães morreram, deixaram as casotas vazias, que acabaram em ruínas, tal como o velho barraco. depois, o ruído foi sumindo pelas janelas, pelas portas e o velho relógio de corda parou.
quando ficou só uma, o silêncio invadiu a casa, pelos vidros tortos, pelas portas entreabertas, misturando-se com a escuridão dos dias. o pó ficou nos tapetes, o cotão amontoou-se nos cantos da sala, o cinzento tinha chegado.
quando a porta da rua se fechou de vez, ficamos sentadas na cozinha, nos bancos de sempre a observar aqueles azulejos brancos, alguns rachados: brincas comigo?
uma casa e as suas paredes: pintadas, enfeitadas com desenhos a dourado, manchas de água que hão-de escorrer, no futuro, do telhado, das caleiras rompidas.
são dois, três, quatro, cinco, voltam a ser três, deixam de ser três, para serem dois, depois três, depois dois, uma.
o barulho encheu os corredores, os quartos, todas as divisões da casa, abriram-se todas as janelas, limpou-se o pó pousado de leve sobre os móveis, quadros de imagens, que nunca existiram a não ser na mente de quem os pintou, brilhavam nas paredes.
a chuva batia nos vidros da janela, a luz do largo iluminava os quartos escuros, luz amarela. de joelhos, apoiada na alcatifa: não quero crescer e tu vais ficar sempre comigo. a resposta falsificada e é de novo verão, de novo inverno, de novo a mesma promessa.
muito antes de ser só um, os cães morreram, deixaram as casotas vazias, que acabaram em ruínas, tal como o velho barraco. depois, o ruído foi sumindo pelas janelas, pelas portas e o velho relógio de corda parou.
quando ficou só uma, o silêncio invadiu a casa, pelos vidros tortos, pelas portas entreabertas, misturando-se com a escuridão dos dias. o pó ficou nos tapetes, o cotão amontoou-se nos cantos da sala, o cinzento tinha chegado.
quando a porta da rua se fechou de vez, ficamos sentadas na cozinha, nos bancos de sempre a observar aqueles azulejos brancos, alguns rachados: brincas comigo?
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXV
querer escrever e não conseguir: as palavras ficam prisioneiras no peito, rochas cinzentas que se amontoam. todos sorriem à minha volta. passam me as mãos pelas costas, batem-me no ombro, dizem-me olá, acenam-me um adeus. porque é que não se calam?
sim, estou aqui, sentada, com frio. à espera que as horas passem, mas elas deslizam longas pelo dia cinzento, pelos dias solitários.
sim, estou aqui, sentada ao vosso lado, ouço as vozes que quero distantes, que quero silenciosas, sim, porque estou aqui, estou sozinha.
querer escrever e não conseguir: as palavras ficam prisioneiras no peito, rochas cinzentas que se amontoam. todos sorriem à minha volta. passam me as mãos pelas costas, batem-me no ombro, dizem-me olá, acenam-me um adeus. porque é que não se calam?
sim, estou aqui, sentada, com frio. à espera que as horas passem, mas elas deslizam longas pelo dia cinzento, pelos dias solitários.
sim, estou aqui, sentada ao vosso lado, ouço as vozes que quero distantes, que quero silenciosas, sim, porque estou aqui, estou sozinha.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXIV
venho aqui muitas vezes, desde que me lembro que eu sou eu. não sei onde comecei, onde vou acabar. os corredores primeiro eram gigantescos e eu percorria-os um a um, primeiro com o olhar, depois pelo meu próprio pé, agora com o pensamento. reconheço as paredes, o papel que as cobre, que tapa a tinta que recordo. fiz historias nessa mesma tinta, vivi dias a fio nesse papel de parede.
venho aqui muitas vezes, fico sentada na alcatifa laranja até que o sangue não consegue mais circular, até que o frio é a única sensação que fica, tenho o corpo pintado, colorido, escurecido, pisado demais, demais e demais. fico aqui até que alguém se lembre de me procurar, de me procurar e não me encontrar.
venho aqui muitas vezes, desde que me lembro que eu sou eu. não sei onde comecei, onde vou acabar. os corredores primeiro eram gigantescos e eu percorria-os um a um, primeiro com o olhar, depois pelo meu próprio pé, agora com o pensamento. reconheço as paredes, o papel que as cobre, que tapa a tinta que recordo. fiz historias nessa mesma tinta, vivi dias a fio nesse papel de parede.
venho aqui muitas vezes, fico sentada na alcatifa laranja até que o sangue não consegue mais circular, até que o frio é a única sensação que fica, tenho o corpo pintado, colorido, escurecido, pisado demais, demais e demais. fico aqui até que alguém se lembre de me procurar, de me procurar e não me encontrar.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXIII
aquele tanque parecia uma piscina gigantesca. aquela água gélida, conseguia escaldar-me o corpo. naqueles dias, em que tudo tinha dimensões exageradas, eu era um ponto. pequenino, à deriva, ao sabor de todo aquele vento, que corria, que ainda corre mas agora lento, cansado.
ouvia a lâmina romba, afastar violentamente a terra, o torto cabo de madeira a deslocar o ar, a terra gemia, sofria e ficava assim, remexida. agitavam-se as roupas na corda, ressequidas pelo vento e a terra continuava a sofrer.
aquele tanque, aquela água, limpava-me os joelhos, desinfectava-me as feridas, alimentava a minha boca. E eu tenho saudades daquele quintal, esquecido.
aquele tanque parecia uma piscina gigantesca. aquela água gélida, conseguia escaldar-me o corpo. naqueles dias, em que tudo tinha dimensões exageradas, eu era um ponto. pequenino, à deriva, ao sabor de todo aquele vento, que corria, que ainda corre mas agora lento, cansado.
ouvia a lâmina romba, afastar violentamente a terra, o torto cabo de madeira a deslocar o ar, a terra gemia, sofria e ficava assim, remexida. agitavam-se as roupas na corda, ressequidas pelo vento e a terra continuava a sofrer.
aquele tanque, aquela água, limpava-me os joelhos, desinfectava-me as feridas, alimentava a minha boca. E eu tenho saudades daquele quintal, esquecido.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXII
tenho uma cicatriz no joelho esquerdo. por mais que tente enfeita a rótula esquerda, marca o joelho esquerdo. mas não me dói.
tenho uma queimadura na mão esquerda. não quero que daí saia, mas saiu. e dói imenso.
encher com água, a banheira suja, do quarto frio, na mansão abandonada.
percorrer, com os pés descalços o mármore bolorento, dar um pontapé em qualquer coisa, acender um cigarro, mergulhar naquela água, quentíssima, quente, fria, gelada.
esperar a serpente que entra pela janela entreaberta.

Fotografia de Jorge Molder, Um dia Cinzento
tenho uma cicatriz no joelho esquerdo. por mais que tente enfeita a rótula esquerda, marca o joelho esquerdo. mas não me dói.
tenho uma queimadura na mão esquerda. não quero que daí saia, mas saiu. e dói imenso.
encher com água, a banheira suja, do quarto frio, na mansão abandonada.
percorrer, com os pés descalços o mármore bolorento, dar um pontapé em qualquer coisa, acender um cigarro, mergulhar naquela água, quentíssima, quente, fria, gelada.
esperar a serpente que entra pela janela entreaberta.

Fotografia de Jorge Molder, Um dia Cinzento
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XXI
será, provavelmente mais um espelho, de cantos partidos, costas oxidadas pelo tempo, algures deixado sozinho no silêncio que corria, corre e correrá
o grito sairá quase mudo, ensurdecedor perante toda aquela humidade e o cheiro bafiento a esquecimento
erguer-se perante ele e ver a imagem que é devolvida, o troco de toda a brincadeira, sem demora:
não reconhecer a carne que cobre o esqueleto, numerar as veias, uma por uma, que atravessam todo o musculo
não perceber o rosto diante si, duas bochechas mirradas, olhos vazios de água, nariz delgado ornamentado por uma, uma só cicatriz, uma boca de espanto
com um qualquer dedo, tocar o espelho, no sitio preciso do coração. afinal ele bate, sempre, conhecer, reconhecer.
mesmo que os joelhos estejam esfolados, cobertos de sangue seco. mesmo que a pele que veste seja um mapa de nódoas negras e cicatrizes, chegará a hora de sair para o campo, de batalha
será, provavelmente mais um espelho, de cantos partidos, costas oxidadas pelo tempo, algures deixado sozinho no silêncio que corria, corre e correrá
o grito sairá quase mudo, ensurdecedor perante toda aquela humidade e o cheiro bafiento a esquecimento
erguer-se perante ele e ver a imagem que é devolvida, o troco de toda a brincadeira, sem demora:
não reconhecer a carne que cobre o esqueleto, numerar as veias, uma por uma, que atravessam todo o musculo
não perceber o rosto diante si, duas bochechas mirradas, olhos vazios de água, nariz delgado ornamentado por uma, uma só cicatriz, uma boca de espanto
com um qualquer dedo, tocar o espelho, no sitio preciso do coração. afinal ele bate, sempre, conhecer, reconhecer.
mesmo que os joelhos estejam esfolados, cobertos de sangue seco. mesmo que a pele que veste seja um mapa de nódoas negras e cicatrizes, chegará a hora de sair para o campo, de batalha
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller
XX
entram cavalos pela janela. não me lembro sequer de um dia a ter visto aberta ou fechada, não me lembro de alguma vez a ter visto assim: encoberta pelas portadas de madeira. as mesmas que o tempo tratou de arrancar a tinta, a cor.
sai o fumo invisível pela porta, pela sala, pelas escadas, pela porta que dá para uma rua: aquela onde não corri, não caí, não fiquei à espera que se abrisse a tal porta, debaixo de uma gelada chuva.
mudo os tacos do quarto, um puzzle com várias soluções, mas sobra sempre cimento, cotão, cimento e mais cotão.
abro e fecho os armários, as gavetas, os guarda-vestidos sem vestidos, sem memória.
recolho o que não conheço, não reconheço. tenho um nome, um nome que nunca ouvi, que nunca ouvirei mais, mas que existiu algures entre os dias do calendário.
na verdade, o que entra é frio: a saudade de saber sentir saudade

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
entram cavalos pela janela. não me lembro sequer de um dia a ter visto aberta ou fechada, não me lembro de alguma vez a ter visto assim: encoberta pelas portadas de madeira. as mesmas que o tempo tratou de arrancar a tinta, a cor.
sai o fumo invisível pela porta, pela sala, pelas escadas, pela porta que dá para uma rua: aquela onde não corri, não caí, não fiquei à espera que se abrisse a tal porta, debaixo de uma gelada chuva.
mudo os tacos do quarto, um puzzle com várias soluções, mas sobra sempre cimento, cotão, cimento e mais cotão.
abro e fecho os armários, as gavetas, os guarda-vestidos sem vestidos, sem memória.
recolho o que não conheço, não reconheço. tenho um nome, um nome que nunca ouvi, que nunca ouvirei mais, mas que existiu algures entre os dias do calendário.
na verdade, o que entra é frio: a saudade de saber sentir saudade

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
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