«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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terça-feira, 14 de junho de 2011

Manifesto CXVIII

monólogo do astrolábio partido

de uma lágrima fiz o oceano nascido entre os nossos pés
com um grão de areia moldei continentes suspensos no ar
parti um copo para te ver do outro lado, mesmo que longe, mesmo de costas
um quadrado de pele serviu-me de nau, uma gota de sangue deu forma às suas velas

tive frio, tive calor, tive frio, tive calor
tive escorbuto, tive sede, tive fome
tive medo, tive medo, tive medo

não sabia das estrelas porque se apagavam à minha passagem
não conheci os peixes em cardumes, escondidos que estavam no abismo
não ouvi o cantar do vento com os ouvidos surdos

à deriva fui, fui, fui, fui e vou


Marcantonio, Melancolia 20, Técnica Mista 89×154 cm, Rio de Janeiro, 2006
http://cadernosdearte.wordpress.com/

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Manifesto CXXIII

Cegueira ou não cegueira


já não observo o meu rosto ao espelho
conheço de cor todas as manchas que me cobrem a pele
navego nas suas rugas vincadas e sou um naufrago na tua boca

se eu me olhar no espelho
sei do pó que me cobre a face:
é o mesmo que resta da longa espera

talvez encontre uma saída
talvez parta o espelho em milhões de formas geométricas, sem forma

já não reconheço o crânio e a pele que o cobre,
todos os vasos sanguíneos onde ainda circula o sangue,
a boca seca, fechada
o nariz dilatado

talvez os polegares me cubram as orbitas
onde deviam estar os olhos
e eu descubra dois fossos vazios

Marcantonio, Cinco Monotipias 2001

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Polaroid 22

Carrasco

arrasta as botas pelas pedras da calçada
o tempo esquece-se entre as linhas de terra

dedos torcidos, frios
arranhados pelas meias de lã

sacode os braços, num movimento descoordenado
agita a lâmina de aço, rasga o ar humido

são as ruas que crescem
sobre as solas, até a linha do mar

range os dentes, range os dentes
um fio de sangue escorre pelo canto da boca

[psst, psst]

é a noite que cai pelos ombros
entra pelo olhos raiados de raiva

[ei, psst, psst
estou aqui]


Marcantonio, Melancolia 43, Técnica Mista, 85×150 cm, Rio de Janeiro, 2007

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Polaroid 11

Acidente como prato principal

se engolir um caroço, sufoca:
o ar pára, o sangue corre cada vez mais rápido
os olhos esbugalham-se de dor
os pulmões exigem,
o ar continua parado

se engolir dois caroços, sufoca:
o ar pára, o sangue dilata-se nas veias
o peito não contém um só coração
os pulmões explodem
o ar continua parado

se engolir em seco:
o ar pára, o sangue corre até às pedras
o peito explode em surdina
os pulmões mirram sobre as costelas
o ar começa a circular

quando engolir, recorde:
veja bem aquilo que come


Marcantonio, Melancolia 27 – Consensus Omnium Sapientium Técnica Mista 141×81 cm Rio de Janeiro, 2006
http://cadernosdearte.wordpress.com/

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Pedradas XL

Egoísmo

saem pequenas gotas pelos poros
ficam imóveis sobre a pele seca de sal
numa sintonia perfeita, esféricas

rolam sobre os sulcos dos dias, das noites, das estações
afogam as suplicas silenciosas das noites defeituosas

guardamos em frascos de vidro
os braços imóveis, as mãos arrancadas

amanhã quebramos os dedos, esgaçamos as unhas
e mordemos os corações estragados

Marcantonio, Melancolia 30 – Vertebral Técnica Mista 158×80 cm Rio de Janeiro, 2006
http://cadernosdearte.wordpress.com/

Manifesto LXXXI

Dissecação

escorre o musgo pelas fendas do granito, quase
que posso jurar que te vi respirar

finco as pernas numa poça de lama, de certeza
que te vi respirar, quase

guardo os utensílios de alumínio
acreditei tempo demais
que sobre o peito bateria um coração

fecho os vidrinhos de desinfectante
imaginei em silêncio
a areia que saia dentro das unhas

Marcantonio, Melancolia 37 Técnica Mista 80×146 cm Rio de Janeiro, 2006
http://cadernosdearte.wordpress.com/

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Estrela

ainda ontem acordei
deitada sobre o teu peito nu
dedos teimosos

por trás das cortinas,
a alvorada
e nós aqui, deitados

ainda ontem acordei
na escuridão da tua respiração
bebendo do teu hálito fugidio

em redor, cercando:
o frio
e a pele engelhada de medo

ainda ontem adormeci

Marcantonio, Melancolia 17,Técnica Mista, 153×79 cm, Rio de Janeiro, 2006

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Manifesto XL

A folha

arrastam-se os pés pesados,
sobre as tábuas apodrecidas,
aconchega-se a gola do casaco,
ao pescoço coberto de pele,

é verão na cidade,
mas a chuva escorre pela fronte,
o vento parou nas ruas,
mas destroem-se os braços,

alguém há-de vir
para varrer as folhas,
que restam

Marcantonio, Melancolia 43,Técnica Mista,85×150cm, Rio de Janeiro, 2007

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Manifesto XXI

General

o general e o seu pesado casacão,
botas sujas de pó,
a fúria,
incrustada nos pulmões de asmático,

o general e o seu velho cavalo negro,
olhos vazios abraçando o campo,
o desejo,
fechado no peito raquítico,

o general e a sua arma ferrugenta,
ouvidos moucos ao murmúrio das serras,
o medo,
escondido nos pés torcidos,

o general e o seu batalhão,
regressam separados às suas casas

as cartas escritas,
perderam-se na berma da estrada


Marcantonio, Melancolia 25 – In Lingua Mortua, Técnica Mista 154×84 cm, Rio de Janeiro, 2006

terça-feira, 13 de julho de 2010

Manifesto XV

Necrologia

observas-te no espelho frio,
carcaça despojada de entranhas,
(quero dizer, de coração)
um golpe no abdómen liberta
o cheiro nauseabundo do teu íntimo,
(quero dizer…)
mais um corte no costado,
caem as falsas asas,
(quero dizer…)

pintas um retrato no vegetal enegrecido,
esqueleto de ossos quebrados,
(quero dizer, violentados)
um toque na estrutura de aço,
fogem os vermes da podridão,
(quero dizer…)
martelo pneumático no cérebro
solta-se a cobardia,
(quero dizer…)

quero te!
ler,
na página do jornal…


Marcantonio, Melancolia 40, Técnica Mista, 154×90 cm, Rio de Janeiro, 2006

domingo, 11 de julho de 2010

Manifesto XIII

Ter e não ter

Tens um quarto cheio, cidadão.
Tens o pincel com que o pintas, cidadão.
Tens o ar em que te afogas, cidadão.
Tens a água que te desliga, cidadão.

Cidadão, tens o quarto vazio de nós.
Tenho eu o serrote, cidadão



Marcantonio, Melancolia 36, Técnica Mista, 81×156 cm Rio de Janeiro, 2006

terça-feira, 6 de julho de 2010

Manifesto IX

O morto

agarra-se a espalda,
amedronta com o seu bafo frio,
impedem nos as suas mãos de gigante,

cerca a luz que cai,
corrompe o esvaziar dos dias,
dilui os fios que fogem,

o morto

nada pesa mais que um morto,
a não ser, talvez,
um vivo morto



Marcantonio, Melancolia 7 – Scyllam et Charibdim, Técnica Mista, 88×160 cm, Rio de Janeiro, 2005
http://cadernosdearte.wordpress.com/

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Carta

Daqui,
está um calor infernal, demónios
apenas o suor afaga o peito cru.

Daqui,
imersos em fria água, gélida
as ancoras apodrecem ao luar.

Daqui,
engole-se a sede, seco
o sangue que não corre.

Daqui,
procura-se a corrente que não leva, ácido
a rede que não mata, mata!


Marcantonio, Melancolia 18 – Digital, Técnica Mista, 156×91 cm, Rio de Janeiro, 2006
http://cadernosdearte.wordpress.com/

Manifesto VIII

Corcunda

botas assentes em solo firme e pés sempre molhados,
esboça um sorriso e partem-se os dentes
salta-lhe o peito e não tem coração,
abrem-se as pálpebras e os olhos não vêem

enrola os braços e caem-lhe as mãos


Marcantonio, Melancolia 15, Técnica Mista, 160×88 cm, Rio de Janeiro
http://cadernosdearte.wordpress.com/