«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Manifesto CXXXIX


Post-Scriptum

as estantes ladeiam as paredes
do centro olho-as bem altas
livros e mais livros, papeis, documentos presos por fios
recordações de tempos distantes
fotografias de lugares esbatidos na memória

passo-lhe a mão
tento decidir um lugar para o abandonar:
bem lá no alto, longe do meu olhar
[não, não pode ser estarás sempre a fitar, adivinhar os meus passos]

sinto-lhe o odor
outra tentativa de escolha:
na prateleira de baixo, junto do pó, das passadas sem destino
[não, também não pode ser, são inúmeras as vezes que tropeço]

aperto-o contra o peito, decido: atrás dos arquivos
fecho os olhos
encontro o lugar aleatoriamente
ainda com os olhos bem fechados, coloco-o num sitio recôndito
aos encontrões contra as estantes e cadeiras
consigo encontrar a saída do pequeno escritório

[se bem que quando a noite chegar
ainda vou ouvir o seu abafado lamento

Jacques Brel-Ne me quitte pas

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Manifesto CXXXVIII

escorrego entre os teus dedos
os peixes são lembranças coloridas em memórias desbotadas
debaixo de um céu obscuro de nuvens cinzentas,
mergulhada em escuridão silenciosa
deixo que o meu corpo desagúe a teus pés

não haverá lágrimas a escorrer pelo peito
não haverá hora marcada nos relógios
não haverá folha no calendário
não haverá palavra a rasgar a carne

fico assim, imóvel

deixa as flores que nascem para o interior da terra
e os rios que param sem retorno possível
deixa que o meu nome seque nos teus lábios

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Manifesto CXXXVII

se

a imagem reflectida não me é familiar: parto o espelho
as roupas caem largas ao longo de ossos e pele: rasgo as roupas
as roupas apertam a carne dolorosamente: tiro-as e esqueço-as
os sapatos apertam os dedos: faço-os voar janela fora
os cabelos não se alinham: arranco-os um a um
os dedos não obedecem: parto-os ruidosamente
as pernas não me obedecem: mergulho-as em água gelada
o coração teima, teima e teima, a mente insiste, insiste e insiste:
cuspo sangue, sal e suor, as lágrimas fizeram-se para serem esquecidas

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Manifesto CXXXVI

Silêncio

falas
do vento que bebes todas as manhas
das ondas que acariciam o teu corpo pelo entardecer
das andorinhas negras nos ninhos sobre o beiral da porta

falas
dos miúdos que correm pela estrada
dos dias que passam lentos e das horas que passam céleres
do sitio exacto onde nos iremos conhecer

eu deixo que fales
eu deixo que contes
e eu deixo que me deixes acreditar

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Manifesto CXXXV

o caruncho invade a mortalha

e que sei eu ainda
finjo entre paredes que se erguem altas, brancas e sombrias
surda perante o canto de abutres cobrindo o azul, que quase não vejo, que quase esqueci

e que sei eu ainda
esta terra que assento com os pés está humedecida de sangue
e o caminho que se avista, precipita-se em abismos negros

e que sei eu ainda
este ponteiro que não pára afasta-me de mim
este ponteiro sem piedade aproxima-me do fim




Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Manifesto CXXXIV

memória do presente virado passado tirado futuro

carrego o tempo viscoso que me ensinaram a contar
os minutos, as horas, os dias, os anos, as décadas
guardados em sulcos sob a pele
nas minhas costas estende-se o pó pela estrada
diante dos meus olhos a estrada de pó
[onde se bifurcou este trilho sem fim?]

a memória é veneno que consumo com lentidão
arde-me o sangue: sinto-o queimar as veias
sinto as veias que queimam a carne
e a pele estalar com violência

esta memória:
é mortalha que cobre o corpo
é pesadelo nas noites mal dormidas
é sono nos dias repetidos e repetidos
é um pedaço de carne:
que não consigo arrancar
que não consigo engolir
que não consigo cuspir

Man Ray, Profile and Hands, 1932

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Manifesto CXXXIII

de ti:
quis saber onde mora o vento
que molda a pele que me cobre,
corri entre escarpas afiadas
e no mar lavei o sangue
mas o vento tinha parado e tu sorrias distante


de ti:
ouvi contar, como doce melodia,
que cavalgavas no dorso das ondas
e bebes dos lábios das algas,
despi a túnica que vestia
e procurei-te na linha do horizonte

de ti:
descobri que os deuses não existem,
pisando o pó, a terra, a areia
com que enchemos as nossas casas

Manifesto CXXXII

queda em espiral sobre manto branco

acordei para descobrir que o tempo tinha parado
ali sobre a mesa, entre o pó branco que se acumula, repousa: fechado, calmo, perante lábios semiabertos
encontro o sopro quente, fugaz interior, como a escaldante areia que se teima agarrar, para de pois se perder
e sei que ainda assim, entre o estender da noite sobre o quarto e o desenho da luz nos corpos desnudos, ainda assim, despertarei no armário das recordações, no armário escondido e cerrado da nossa memória

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Manifesto CXXXI

Creonte chega de noite

franzes as sobrancelhas, um sulco entre a carne coberta de pele envelhecida suavemente
o cabelo retrai-se sobre a testa e as tuas orelhas continuam paralelas
intocáveis, entre a linha do rosto que separa a face do pescoço robusto

de olhos fechados consigo ver o teu rosto
de mãos paradas sinto o teu corpo nu

deixas os lábios entreabertos e deles se escapa o fumo do cigarro
que seguras entre dois dedos da mão esquerda
a mesma mão com que afagas os dias marcados no calendário

sei o caminho, reconheço cada curva entre a escuridão da noite
hoje, já nem a tua fotografia consigo beijar
e no chão do quarto acumulam-se os nossos cadáveres

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Manifesto CXXX

sob o clarão dos dias

debaixo da copa dos carvalhos fugirão pardais de asas partidas
rasgando o azul do céu e deixando-o a sangrar sobre as nossas cabeças

desconfio, alguém se esqueceu de nós
e cá ficamos, entregues, parados, a correr
fugindo dos dias, perseguidos pelo passado, à procura do inútil amanhã

no ventre da terra, cortada pela lâmina do coveiro
as borboletas vão cair, leves, esqueletos sem ossatura

[alguém roubou as nossas asas]

o vidro filtra a mentira
e nem a verdade invade o olhar
pois a cegueira é a sombra que caminha nas costas dos homens

terça-feira, 21 de junho de 2011

Manifesto CXXIX

crónica de uma idade anunciada

I
quando acordo, mesmo de olhos fechados
há verdades que dormitam à espreita, não é preciso despertá-las
pois flutuam entre os dias e as noites

abro os olhos: o céu ainda é azul, as flores nascem da terra
e os tordos, os pássaros, as andorinhas, os pardais ainda sabem voar

não me atraso, outras vezes atraso-me
as ruas e as casas que as ladeiam permanecem
desenham duas linhas, duas margens nas quais navego

os mesmos rostos fechados
as mesmas mão paradas
os mesmos pés assentes em terra seca
o mesmo velho chapéu abrigando do sol, da chuva
o mesmo minuto gelado, imóvel, arrumado na alta estante

II
o tempo, esse maldito, atraiçoa a memória
esfuma os contornos do teu rosto
dilui as curvas do teu peito, das tuas pernas
e as tuas mãos sublimam em pensamentos distantes

III
a tua fotografia, assim pousada
a surpresa de a encontrar, de a reencontrar
adivinha a certeza de te esquecer


David Lynch Directing Charlotte Stewart Through a Window on the Set of Eraserhead

terça-feira, 14 de junho de 2011

Manifesto CXVIII

monólogo do astrolábio partido

de uma lágrima fiz o oceano nascido entre os nossos pés
com um grão de areia moldei continentes suspensos no ar
parti um copo para te ver do outro lado, mesmo que longe, mesmo de costas
um quadrado de pele serviu-me de nau, uma gota de sangue deu forma às suas velas

tive frio, tive calor, tive frio, tive calor
tive escorbuto, tive sede, tive fome
tive medo, tive medo, tive medo

não sabia das estrelas porque se apagavam à minha passagem
não conheci os peixes em cardumes, escondidos que estavam no abismo
não ouvi o cantar do vento com os ouvidos surdos

à deriva fui, fui, fui, fui e vou


Marcantonio, Melancolia 20, Técnica Mista 89×154 cm, Rio de Janeiro, 2006
http://cadernosdearte.wordpress.com/

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Manifesto CXVII

Entretanto

os minutos escorrem até aos oceanos destes dias cinzentos
pelas mãos escapam-se os teus cabelos ondulados
em segredo finjo beber a água com que lavas as mãos, pisar a terra seca onde foges em liberdade

[passo as noites a imaginar que me deito no teu corpo, que me cubro com a tua pele, que são as minhas pernas que tocam as tuas pernas, sempre, num qualquer lugar]

é dia, outra vez, entra ruidoso pelas janelas e afasta as cortinas
a luz que me toca as pálpebras é escuridão, é a noite que continua, eterna a meu lado
são metros e metros, quilómetros e mais quilómetros, entre nós, sobre nós
todo o silêncio, todas as palavras, escritas, ditas, gritadas, caladas

entretanto a areia cai sobre o vidro fosco:
somos um segundo à deriva sobre o calcário da rua, afogados na chuva fria e ficamos

terça-feira, 7 de junho de 2011

Manifesto CXXVI

a música que embala e chega na noite

sabes agora que vou ouvir
as palavras que encerras no peito
nada receies, elas chegam mudas pelas janelas entreabertas,
deixei-as assim para que viesses, entre as agulhas dos pinheiros pela noite sombria

[deixa-me tocar esse teu corpo que outrora me pertenceu,
beber dos teus lábios os beijos que me arrasam]

parece que regresso dos mortos, com o pó na alma
e o medo caminha comigo, ao meu lado
observo o espelho, sinto-me estremecer por dentro

[já não é o suor que me corre na pele nua
e descubro que os lençóis são frios de mais]

afio os ouvidos, deixo que o silêncio me retalhe, lentamente

sábado, 4 de junho de 2011

Manifesto CXXV

arquitectura de uma sombra

(para o José Luís Peixoto)

fundi-me na cal da parede, alva, intocável.
ali, colei as costas à parede e deixei que o meu corpo fosse sugado pela cal, a pele, a carne, os ossos, uma massa que se misturou na pedra.
os pés entraram dentro da terra, o pó são os meus pés, os meus pés são de pó.

em silêncio, adivinhei a sombra crescendo, desde o rés da parede, um ténue traço contornado de penumbra, depois um rectângulo, depois um quadrado de sombra perfeito e depois continuou a crescer, a fugir entre a terra e a calçada escondida, um gigante pedaço de sombra a diluir-se, grande, grande.

alguém limpa o quadrado e a sombra permanece
alguém perde um sapato e não há contos que possam ser escritos
alguém cai e o sangue escorre entre os espaços do paralelo, as ervas secas, ressequidas, o pó pesado
alguém chora lágrimas que desaparecem
alguém fica prisioneiro naquele quadrado

cai a noite, a sombra invade toda a rua, todas as casas, todos os quartos, todos os corpos, todos os espaços vazios, todos os espaços cheios

a noite deita-se em lençóis extremosamente asseados, ao lado da solidão
a noite é o quadrado de sombra que dorme ao nosso lado

Fotografia de António Nunes

terça-feira, 31 de maio de 2011

Manifesto CXXIV

A certeza




talvez o oceano se cale abrupto sobre as rochas
talvez o amanhã seja uma nuvem que vem acariciar os olhos
talvez hoje dispa este corpo gasto cobrindo o esqueleto
talvez a tua voz navegue pelo tempo para me sussurrar as palavras esquecidas, as palavras amargas
talvez o tempo seja o tempo que se passa guardado num segundo
e talvez esse tempo corra a eternidade

talvez o mundo termine amanha na palma da minha mão
talvez jorre sangue do interior da terra e ela fale até não mais se calar
talvez ouça o silêncio que guardas no teu peito
talvez os braços existiam para correr entre folhas, folhas e mais folhas alvas envelhecidas pelos dias que se demoram
talvez a vida seja um pedaço de algodão a voar no asfalto
e talvez esse voo dure o tempo de todo o tempo

talvez a saudade possa ser guardada em cofres fortes, esquecida, divina

talvez amanhã se esvazie o copo sobre a toalha que cobre a mesa
talvez amanhã não exista mesa, toalha, copo
talvez amanhã nada valha a pena, porque o amanhã é apenas um talvez

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/



segunda-feira, 30 de maio de 2011

Manifesto CXXIII

Cegueira ou não cegueira


já não observo o meu rosto ao espelho
conheço de cor todas as manchas que me cobrem a pele
navego nas suas rugas vincadas e sou um naufrago na tua boca

se eu me olhar no espelho
sei do pó que me cobre a face:
é o mesmo que resta da longa espera

talvez encontre uma saída
talvez parta o espelho em milhões de formas geométricas, sem forma

já não reconheço o crânio e a pele que o cobre,
todos os vasos sanguíneos onde ainda circula o sangue,
a boca seca, fechada
o nariz dilatado

talvez os polegares me cubram as orbitas
onde deviam estar os olhos
e eu descubra dois fossos vazios

Marcantonio, Cinco Monotipias 2001

terça-feira, 17 de maio de 2011

Manifesto CXXII

Abutres

não me servem as botas nos pés
as botas que correram; que pararam; que esperaram
as mesmas botas de sempre, não cabem nos meus pés

olho as extremidades das pernas
não reconheço estes pés, secos, cansados
os dedos alongam-se, entrelaçados e dobram-se na biqueira

quis fugir e não tive estrada
fiquei e não encontro onde dormir

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Manifesto CXXI

Deserto

o piar dos pássaros chega aos ouvidos
sorrateiro pelas falhas de granito
dissolve-se nos riscos baços de luz

não preciso passar da ombreia da porta:
lá fora o feno liberta o seu odor
entre nuvens grossas de candura

e não sei o que se esconde atrás dos vidros
e não sei onde deitar o meu corpo
e não sei o lugar que ocupo neste mapa desbotado

aqui:
demora-se a seca entre as águas
e as faces apagadas são riscadas por dedos tortos

Fotografia de António Nunes

terça-feira, 10 de maio de 2011

Manifesto CXX

A roupa que trago

a roupa que trago:
mostra os vincos das calçadas onde descanso
recolhe o pó das estradas onde corro
brilha ao sol com as suas manchas de sal

a roupa que trago:
carrega o peso das palavras
abriga o orvalho que já secou
lembra o frio dos dias compridos

a roupa que trago:
acaricia a minha pele, a minha carne
ouve o lamento dos meus ossos
e sabe que nas veias o sangue ainda corre

a roupa que trago: é só minha

a roupa que trazes: é só tua

e por baixo dela estamos todos despidos