«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Não tenho, nem encontro palavras suficientes para agradecer a todos que estiveram presentes, outros ausentes mas bem perto do peito, no dia 28 de setembro.
Foi para mim muito importante e especial saber que todos responderam ao meu repto e iluminaram a esta minha loucura, com os seus sorrisos e com algumas lágrimas.
Confesso que sempre tive medo de assumir que escrevia, de mostrar aos outros os meus poemas, mas esse medo torna-se cada vez menor depois de todas as palavras de incentivo que recebi. Este foi também um teste para mim.
Obrigada pela vossa presença, pelas vossas mensagens e pelo carinho demonstrado ao longo de todos estes dias.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

XXXVI

[dialogo do guerreiro]

existe uma madrugada fria
logo a seguir às noites em desalinho
é quando o sol, ainda que tímido, ainda que pálido
nos beija o rosto

abre os olhos
liberta os demónios
descansa o corpo cansado

um dia vamos de mão dada
alimentar os leões, sem medo no peito

um dia, um dia talvez
a tua mão conseguirá cobrir a minha
e nessa altura já posso cerrar as pálpebras

acorda, o dia despertou
a madrugada chega para ti

[terminam aqui os desAlinhados, este último desAlinhado é teu, Afonso, minha madrugada]


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

desAlinhado XXXV

30ºC
início a descida pela avenida
envolta em nevoeiro
o frio afugentou as pessoas
ou talvez a hora não ajude
torna-se difícil respirar este ar gélido
que invade os pulmões, que corta as costelas

ninguém cruza o meu caminho
ninguém se avista ao perto, ao longe
onde está a cidade
dorme escondida com uma cruz no peito
na noite anterior lavou o sangue das mãos

[sou vulto cinzento de rosto tapado
figura disforme que sublima na memória
há muito tempo que me esqueci]

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

desAlinhado XXXIV

XXXIV

entregue ao bolor que desenha nas paredes
figuras imperceptíveis
que me assaltam as horas
ouço a cidade que se estende fora dos altos muros
onde guardo o pouco que resta

os homens urinam nos cantos
entre alvenarias de casas abandonadas
procuram as putas nos becos
sossegados, empestados de dejetos de gatos
e satisfazem os seus desejos de carne

é noite, assim o diz
a luz pálida dos candeeiros
a chuva miudinha que cai sem parar
[os tolos, só os tolos se molham]
e os automóveis no seu regresso a casa

fogem os pássaros da surdez da cidade
em voos indecisos
até ao horizonte, sem meta
o ultimo cão roí um osso imundo
e tomba envenenado

o manto negro cobre a cidade
invade a janela do meu quarto, deixo
os vagabundos, as putas, os chulos, os mafiosos
ganharem o seu lugar em toda a casa
inundada com os seus odores pestilentos

nada sobrevive em mim
nada se vislumbra em mim
restam os renegados
uma côdea de pão para disfarçar
uma unha imunda
a última gota de água perdida no chão

domingo, 9 de dezembro de 2012

desAlinhado XXXII

com o tempo
o seu grosso escorrer pelas paredes
fui-me desfazendo
dos objectos inúteis que acumulei
em estantes, em baús
pelos cantos da sala
na penumbra dos corredores

ainda ouvi os seus ecos
roucos, as vozes geladas
penetrando a solidão da noite

um-a-um
dois-a-dois
todos se acumularam por fim na lixeira

regressei para uma casa vazia
e hoje colecciono as memórias dos outros
afogando a minha própria em quartos de hotel

terça-feira, 6 de novembro de 2012

desAlinhado XXXIII

caminho sobre a noite
não a que já caiu sobre a cidade
mas a que a mim me assola

o frio instalou-se no espaço entre as costelas
entre a carne e os ossos
não agora, mas há muito tempo

restam-me
um rio poluído que desagua sem saber
as luzes de néon rosa de uma pensão
faróis amarelos de automóveis com rostos de estranhos
as vozes que vou calando em mim

procuro o mar que me inunda o olhar
alargo o nervo que me consome o corpo gasto

talvez amanheça em mim
outra vida, outra cidade, outro ser
que não se me consuma no peito

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

desAlinhados XXXII

venho aqui
com o toque dos teus dedos na minha pele
a lembrança dos teus lábios no meu corpo
e a carne talhada pela tua navalha cruel

sou aquela
que empurras contra a parede fria, nua
que jogas sobre os lençóis infectos
que embate violenta no chão do teu quarto

só mais uma vez
abro as pernas sem pudor
consentindo ser tua meretriz
e tu percorres as estradas esquecidas, as tuas estradas
em carne viva, sangrando por ti

sonhamos uma vez
enquanto aprendíamos a dizer adeus

 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

desAlinhado XXXVI

todos os cigarros que fumei [e todos os que não fumei]
todo o álcool que bebi [e todo o álcool que pela mesa ficou]
todos os passos que dei [e todos os caminhos onde me perdi]
todos os abismos onde mergulhei [e toda a redenção onde me desencontrei]
todos os palmos de terra que segurei na mão [e todos que atirei sobre mim]
todos os gritos que calei [e todos os silêncios a que dei liberdade]
todas as cicatrizes que desapareceram [e todas as cicatrizes que nunca dei conta] 

nenhuma bala saiu ontem, nenhuma sai hoje 
[ e ]

 

domingo, 8 de julho de 2012

desAlinhado XXX



respondo a um acenar de braço do outro lado da rua
busco o sorriso mil vezes ensaiado de fronte do espelho
e falo, mantenho um dialogo simpático e afável

ah, maldito tempo que me atraiçoas
forçando-me a um papel que me cansa
desejo um rápido aperto de mão, os dois beijinhos de praxe

por que não se esquece o tempo de mim?
Por que teima em marcar as suas passadas na minha mente exausta?
Por que não me deixa esquecer de mim?

só quero atravessar a rua, para o meu lado do passeio
só quero saber esquecer-me de mim

[todas as palavras, todos os gestos, todos os gritos, todos os silêncios, todas as inacções, todas as partidas, todos os regressos, todas as vozes, todas as carícias, tudo é apenas nada]

toda a maldição de uma vida vazia

quinta-feira, 28 de junho de 2012

desAlinhado XXIX



a mesma rua estreita de sempre
paralelos gastos, imundos
passeios longos onde pessoas não se cruzam

[para qualquer assunto ligue…]

mães indesejadas de cabelos platinados
fumam cigarros sem marca
enquanto os filhos adormecem nos carros empurrados pelos pais, possíveis

[trespassa-se para o mesmo ou para outro ramo]

pele escurecida pelo amargo do tempo
barrigas flácidas exibindo estrias
pinturas foleiras sobre rostos pesados, sorrisos escancarados

[aqui podia morar uma família]

número 264, ou outro número qualquer
procuro o meu reflexo num qualquer olhar parado
já nem sei de cor o meu numero, o meu tipo sanguíneo

[barreira de tijolos em umbrais sem porta
sujidade, teias de aranha, as marcas de que o tempo escorre para todos]

já fui um esboço a carvão no teu bloco de desenhos
casas escuras, varandas em queda abrupta
vasos de terra queimada, ervas torcidas ressequidas

[para qualquer assunto dirija-se ao número…]

rua mártires da liberdade
aposentados sem carne nos braços, pele pálida desgarrada dos ossos
tronco oculto por velhas camisolas brancas onde o sujo é cor

e eu já fui um nome, um suspiro preso na tua boca
rua mártires da liberdade, os mártires aqui somos nós
o calor infernal é substituído por uma aragem marítima

e eu já fui a pedra da tua escultura
lâminas frias oriundas de longe
264 ou outro número qualquer, esqueci-me

terça-feira, 26 de junho de 2012

desAlinhado XXVII



a cidade adormeceu por fim
ruas vazias, ecos dobrando as esquinas
os detritos do dia, o lixo do tempo roído

uma luz doentia cobre a calçada
e os que nela dormem,
veste-nos a pele de amarelo
a doença é um engano mascarado

esvaziam-se os corpos, almas sem destino
fecho das pálpebras, ouvidos encurralados
pele fresca repousando sobre os lençóis

serenos, todos dormem
que faço eu aqui?
com um livro que não sei ler
amaldiçoada pelo teu corpo que não sei se conheço

Fotografia de Ed Van der Elsken ‘Love on the Left Bank’ 1954

terça-feira, 19 de junho de 2012

desAlinhado XXVI



hoje há alguém
que sobe, que desce pelas ruas
atrasado, adiantado, sem destino
apressado, cansado, para uns braços abertos

hoje há alguém
que chega a casa, que parte de casa
que se esquece, que quer esquecer
que foi esquecido, que foi recordado

hoje há alguém
que encontra um olhar onde se perder
que descobre um corpo a proteger
que revolve a terra do seu tumulo

hoje há alguém
que repete os mesmos minutos, as mesmas horas
a passada decorada sobre a cidade adormecida

hoje há alguém
que dorme tranquilo

e eu aqui, à espera
e a palavra que teima em não sair

quinta-feira, 14 de junho de 2012

desAlinhado XXV

dispo pele onde fui cárcere
vejo-a enrugada no chão do quarto
um reflexo ténue de carne, músculos, tendões, artérias, veias


imagino um novo corpo
traços confusos sobre a parede branca
tingida de sangue


construo a nova figura
similar à que sonhei nas noites sem sono
a pele é a mesma, o fim um dialogo solitário


 

terça-feira, 1 de maio de 2012

desAlinhado XXIV

agora que se recolhe a luz
deste dia azedo
e o silêncio abraça o corpo desperto


agora que adormecem os cansativos
seres coloridos
e o vento é companhia única dos ossos que restam


agora que as trevas são
dedos de lã acariciando os olhos
e embalando o sonho


sinto o mármore frio invadir a pele
bebo da chuva que escorre da tua boca
abro as portas sobre o peso dos séculos:
afogam-se as lembranças presentes
o corte eficaz da lâmina na pele esquecida


o sangue que escorre secará por fim
sem que ninguém o ouça

 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

desAlinhados

XXIII
o último fio a cortar
é aquele mais espesso, aí
no sítio onde te encontras,
grosso, cinzento
o que apresenta uma irregular textura
onde já não corre o sangue, a lágrima
solitária

o último fio a cortar
as mãos fechadas
as narinas que se dilatam
um enrugar da linha das sobrancelhas
lábios finos, dentes cerrados
um ranger continuo

o último fio a cortar:
a memória será traição no futuro

Einstürzende Neubauten - Alles

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

desAlinhado XXII

Willst du ins Unendliche schreiten,
Geh nur im Endliche nach allem Seiten.
(Queiras tu dirigir-te ao Infinito,
Caminha em todos os sentido no Finito)
Goethe
e assim o vento passa
arrasta as cinzas remanescentes
entre noites despojadas sem mim

quartos abandonados
paredes nuas
camas vazias
corpos roubados sem alma

e assim o tempo corre
doloroso pela carne que ainda resiste
à espera do falacioso infinito

domingo, 5 de fevereiro de 2012

desAlinhado XIX


quanto tempo pensas tu
que vais esperar,
enquanto deixas que viscoso
se alongue o aviso?

quanto será o peso
dos dias que guardas
em segredo
nas gavetas sem fundo da tua mente?

e de quem será o rio
que te corre pelas pernas,
até que seque sem nunca
ter nascido?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

desAlinhado XVII


XVII
a noite desce silenciosa
sobre a majestosa avenida
vestida de gente apressada,
que corre, que pára
que espera e que parte
alheia à humidade da noite
que transpira no granito sujo

viro à esquerda, uma alameda
vazia, quase vazia, um depósito
de carros luxuosos
árvores seculares
de beatas,
de papéis
de escarros,
paralelos perdidos

caminho com o frio nos pés
finjo que corro, apressada
entre faróis amarelos de automóveis
à procura do caminho de regresso a casa
e lentamente vejo-me a desaparecer
uma névoa cinzenta colada aos abetos

pudesse eu
falar
gesticular
erguer os braços
mexer as mãos

pudesse eu ser eu
não sendo invisível

[Meus queridos amigos,
nunca um texto meu tinha sido alvo de tantos comentários. Algo que me deixa bastante feliz. Motivo pelo qual me vejo, agradavelmente obrigada, a deixar aqui uma palavras de agradecimento a todos os que comentam e que lêem.
Não sou mestre com as palavras, por isso deixo aqui o meu sincero Obrigada, pelas vossas palavras, pela vossa visita.
Abraço
LauraAlberto]

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

desAlinhados XVI

a manhã não devia de existir,
jamais
a sua luz pálida arrasa as noites
e nas noites é onde quero ficar

a manhã é animal sorrateiro
respira pela frincha da porta
para roubar a escuridão onde me aqueço,
traz falsos embrulhos com laços desfeitos
com que presenteia dias de cegueira

a manhã?
a manhã não devia nunca de existir
obriga-me a vestir a tua roupa
nos dias que escorrem sonolentos

Nine Inch Nails - Something I can never have (still)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

desAlinhados XV

XV
um dia a manhã padecerá
sobre o corpo dos amantes
numa luz pálida
e a noite cercará os campos
com a sua mortalha de aço

será nesse dia de escuridão
que eu aproveitarei para sair

Nick Cave & The Bad Seeds - Loverman