«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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segunda-feira, 5 de março de 2012

cores: todas as cores que sei

hoje vesti-me de azul
para mergulhar nas ondas do teu sabor

hoje vesti-me de laranja
para sentir o calor dos teus lábios

hoje vesti-me de verde
e quase jurei afagar a frescura do teu corpo no fim da tarde

hoje vesti-me de vermelho 
e saboreei o teu suor que outrora me escorreu pela pele

hoje vesti-me de negro
para te deixar partir com a minha paleta abafada no teu abraço

[hoje terminam as cores, obrigada!] 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Cores: Laranja

esperei, esperei até que o dia se estendeu
ao longo da linha que separa o céu da terra
o dia entrava dentro da noite, a noite entrava dentro do dia

a linha ficou lá, ténue esboço, negro, silencioso
a separar o céu da terra, a apartar a terra do céu

o vento moldava os farrapos presos em mastros
escancarava as portas de casas vazias, esquecidas, frias

o vento com os seus gritos mudos, dentro da minha cabeça
de mim, a cortar as entranhas, retalhar a carne, a gelar o sangue
e aquela linha, a linha que separa o céu da terra, dos mortais queimava-me o olhar lentamente

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Cor: Lilás

naquele tempo
as nuvens eram cavalos alados
que pintavam os céus com a alvura da inocência,
as papoilas habitavam nas searas
e guardavam o segredo das horas nas suas curvas,
nos cristais descansava o orvalho da madrugada
e as pedras nasciam dos braços das folhas amarelas

naquele tempo
havia ainda tempo para ter tempo

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Cor: Negro

dobro as pernas, aperto o peito contra as coxas e cruzo os braços sobre os joelhos
já não está frio, tanto frio, mas há sempre o vento, veloz
o dia começa a perder as suas cores vivas
ao longe desenha-se um névoa que desce dum céu esquecido
apagam-se as flores, enterram-se os últimos raios de luz
chupo uma palha seca, tem o teu sabor
o sangue começa a gelar me os braços, as pernas
o dia escorre entre as horas grossas e a noite espreita nas esquinas
é noite, vamos?

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Cor: Azul gelo

sempre que parto esqueço-me:
de todos os pedaços que foram caindo
pelos cantos da sala, caindo, cortando o ar
o barulho ensurdecedor e depois o silêncio

sempre que parto carrego:
os dias escuros dos ossos cansados,
entre pesadas horas que se marcam nos músculos

agora que parto, caminho
lentamente, cuidadosamente
é fina a linha do olhar
e os lábios não se podem dobrar

domingo, 3 de abril de 2011

Cor: Transparente

cansaço:
todas as noites passam frias
entre o silêncio que se mantém desde o dia
entre o ruído que se enterra em valas comuns

insónia:
passam os dias acordados
à espera que o sono venha assaltar
as mentes perdidas em visões foscas

sonho:
a alegria de dormir
nas noites eternas
trazidas em cristais intactos

terça-feira, 22 de março de 2011

Cor: Prateado

líquida, escorre vagarosa:
pelos dedos cansados
pela linha da coluna vertebral

queria dizer-lhe que parasse,
que ficasse aí,
para me deitar no seu frio

queria dizer-lhe que sou eu:
a afagar-lhe as barbatanas
a esquecer o sal da sua boca
enquanto voo nas asas do vento

terça-feira, 15 de março de 2011

Cor: Beije

quando o sol rasgava riscos nas janelas
o tempo estendia-se pelos corredores
e afagava as nossas faces com dedos quentes

[do canto da casa: vi chegar o silêncio]

as horas cobriram a cal com manchas de bolor
e os dias esvaziaram o ar dos quartos

[sentada nas escadas: vi chegar a noite]

através das paredes ainda conseguia ouvir:
as vozes,
os passos,
os risos,
o choro,
os outros

[as flores morreram dentro da terra]

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

quinta-feira, 3 de março de 2011

Cor: Azul-Verde/Verde-Azul

há fundo:
serpenteando entre rochas disformes,
dedos de algas acariciam o corpo
escapam-se bolhas de ar
à procura da saída, distante, negra

a carne encolhe, dilata
e os peixes esfomeados tiram-lhe a pele,
olhos esbugalhados, enxovalhados de ar
caem,
no fundo

o veneno dilui-se entre vagas geladas


Fotografia da peça de teatro "A Beleza do Pecado" pela companhia de teatro ArtImagem
(entretanto em cena, de 3 a 13 de Março, no Teatro Sá da Bandeira, 3ª a sábados às 21.30h, domingo às 16h, a peça "A Acácia Vermelha" pela companhia de teatro ArtImagem)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cor: Rosa

sorrir sobre o céu
afagar as cicatrizes escondidas pela roupa, limpa
sentir a pele, beber do suor
apertar o sangue que circula nas veias
rasgar as nódoas negras, quebrar os ossos

e sorrir sobre o céu
deixar:
de ouvir o silêncio e morder o medo
desenhado nos lábios

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Cor: Amarelo, pálido


Fotografia de Laura Alberto

invadiu as paredes, tímido
tomou conta de todas as pedras
até que a cal abandonou todos os quartos, todas as salas, todas as divisões
até que nada mais sobrasse,

havia então o silêncio, o frio
e a noite entrava, pela porta, pelas janelas fechadas
a noite saia dos olhos, gelava o ar, o sonho
nada mais restava

[e não vale a pena acordar-te]

[e não há sitio onde escrever]

[e não há palavras que possa gritar]

[e não vale a pena acordar-te]

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Cor: Castanho

para quê abrir os olhos?
afago os grãos de areia húmida
com a ponta dos dedos dos pés

[onde estão as horas
que escorreram entre os nossos braços?
acaso invadiram a pele e gelaram o peito?]

porque me hei-de erguer?
sinto as vagas do mar em todo o corpo,
chegadas para rasgar as entranhas

[onde estão os teus lábios
mesmo que frios, gelados
para me sussurrarem palavras baças?]

onde estou eu?
algures numa poça, algures à deriva
onde fico eu?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cor: Verde

choveu, choveu e choveu imenso
choveu e choveu
vagas de água, fria, gelada

até que os campos não conseguiram mais
e continuou a chover
a água transbordou pelas estradas, ruas e vielas
são rios, os rios são mares, os lagos são oceanos
e os oceanos continuam oceanos

um caminho de pedras, de terra arrastada, alagada
rebentaram os muros, explodiram os peitos
fiquei à espera, numa grande pedra

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Cor: Cinzento

se quiser pintar a tua face
já nem sei que tinta usar,
minhas mãos esqueceram o rosto
que trazias nas noites frias

não sei que voz vou ouvir
quando disparar uma pergunta,
o emaranhado de alcatrão negro
não leva o meu silêncio

é ar, ar, ar, terra, terra e terra,
são as arvores, as estradas,
a tua casa lá no fundo
o ruído, o fumo

são as grades, altas
és tu
sou eu
são as cicatrizes que trazemos

“Homenagem a Henri Cartier-Bresson” de Gerard Castello Lopes

Cor: Azul

um arame, um arame num esfregão
um esfregão de arame
uma barra, uma barra num sabão
uma barra de sabão

uma torneira, muda
água quente, surda
uma banheira, branca
uma toalha macia de gasta

esfrego, raspo e esfrego
com fúria, com dor
e toda a sujidade continua lá
os pinheiros esqueceram o pó

ao menos sobem bolas de sabão

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Cor: Vermelho

conheço:
o frio, o gelo
o silêncio, o ruído
a dor, o ser e o não ser
a fome, a sede

conheço:
a noite que cai, que desce
pesada sobre as janelas,
os cristais que se partem
o veneno fechado, à espera

conheço:
cada ruga,
cada traço,
cada pedaço de pele
queimada, pintada, negra

conheço:
o passado
o presente
o futuro e sufoco

Cor: Branco

Sim:
rim, dois
baço, um
estômago, um
fígado, um
pulmões, dois
intestinos, gigantes
pâncreas, um
coração, um

costelas, partidas sobre a mesa
peito dilacerado
tira-se o sangue com conchas de sopa, pastas e pastas de sangue coalhado
pernas, imóveis, ossos desnudos, estilhaçados, rasgam a pele, encarquecida, negra

estou aqui:
para morrer