«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

notas para presente efémero

I
quantos serão os homens
necessários
para uma montanha mover

II
quantas são ainda
as montanhas
que o homem não soube ver

III
quantos são os mapas
pintados a gosto
do rei, cego

IV
quantos serão os degraus
que nos restam
até ao cume

V
quantos são os degraus
que já descemos
até ao nosso fim

VI
quantos serão os homens
que sabem
que afirmam

VII
quantos são os homens,
o número exacto,

que sabem da vida

quinta-feira, 29 de maio de 2014

notas para esconjurados

I
a escolha vai se fazendo
de dias vazios, de noites frias
cabides vazios em armários

II
partimos os espelhos
riscamos os números
perdemos os mapas

III
deixamos de ficar
desistimos de partir
e de esquecer fizemos o verbo


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

notas para viagem interminável

I
dizem que o tempo
não espera por mim,
por ninguém

II
toma as precauções
necessárias
não se sabe quando ela chega

III
mas essas folhas
ainda não
foram por mim viradas

IV
enganada
confio
que os dias não passam

V
iludida
acredito
que amanhã será diferente

VI
velocidade vertiginosa
passo
sem saber olhar, minto

VII
lá vai o pastor
com o seu escasso
rebanho, incomum

VIII
ajeito as costas
olho em frente
o horizonte quer-se distante

IX
o mesmo homem
à mesma hora
sem os mesmos sonhos

X
alguém que passa
saúdam-se
e o céu precipita-se em mim

XI
miúdo novo
de cajado na mão
mais um guardador de rebanhos

XII
de quando em vez
um acidente
um cadáver de um animal que ninguém quer

XIII
a linha termina aqui
posso respirar

e o tempo vai passando, para mim

terça-feira, 29 de outubro de 2013

notas para jogo interminável

I
aposta no vermelho
todo o dinheiro que trazes
na algibeira que ainda resiste

II
bebe a última gota
de álcool
falsificado

III
esboça um sorriso
por cada bala
que cai no pó

IV
fecha os olhos
quando te preparas
para acordar

V
aposta no preto
a vida que ainda é tua
a que resta

VI
esquece
aprende
e esquece de novo

VII
as regras são estas
as regras são nossas
as regras mudam


segunda-feira, 18 de março de 2013

notas para amanhã ou para o petiz

I
não se escolhe com certeza
a hora em que tudo
muda , abruptamente

II
contornam-se os dias
contam-se os passos
mas a chegada não se anuncia

III
medos crescem, sem cessar
semeiam abismos
no peito dorido

IV
mas uma manhã
um estalo violento
de quente lucidez

V
venham então os gigantes
com as maldições eternas
venham os sábios de mentes deturpadas

VI
venham os ventos
venham as tempestades
abra-se a terra em valas sombrias

VII
no orvalho da madrugada
aprenderemos
a reconhecer o nosso reflexo

VIII
no silêncio da noite
saberei sempre
ouvir a tua voz

IX
podes vir
sempre
e hoje sei disso

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

notas para cidade adormecida


I
ah, os desconhecidos
vultos que arrastam os pés
sobre a minha janela esquecida

II
maranha de pele suja, sangue e ossos
os animais deixam-se nas valetas
da cidade que finge fingir

III
tinge-se em definitivo o céu
de cinzento chumbo
luzes pálidas no contorno dos corpos

IV
o frio cola-se no corpo
aí resta, sereno
corroendo o que sobeja

V
tiro a melhor roupa
ensaio sorrisos frente ao espelho
calço sapatos engraxados

VI
enfrento o eterno inverno da cidade
contorno as putas, os chulos, os mendigos
evito o vómito, os escarros, a urina das ruas

VII
as flores de plástico não murcham
as pedras não se erguem
e a boca esconde-se de pétalas

VIII
fantasio que alguém chame o meu nome
no cruzamento de duas ruas
mas apenas posso beijar os meus dedos

IX
afinal
aquilo que realmente fiz
foi contornar o meu silêncio: sempre
Fotografia de Gérard Castello-Lopes

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

notas para genesis dissemelhante


I
talvez ainda devore o pão
amassado no suor do meu rosto
temendo o pó que me assalta a sepultura

II
teimo em ordenar aos bichos
novas regras
organizando-os a meu bel-prazer

III
ainda assim resta a lembrança
do jardim, dos céus e da terra
da chuva impossível  que fez brotar as sementes

IV
longe estão já
os tempos do diluvio
quarenta dias e também quarenta noites

V
os que se salvaram
são os heróis prometidos
que carregam punhais escondidos

VI
geraram-se filhos, geraram-se filhas
e eis que fomos corrompidos
numa terra tingida de sangue

VII
duzentos e cinco anos
com as mesmas palavras
atravessadas na garganta

VIII
e toda a eternidade
com o estranhar
do dialeto do vizinho

IX
assim me marcas: homicídio não consumado
assim me desculpas: mas os outros não
assim me condenas: entregue a mim próprio

X
apenas quis perceber o teu lugar
apenas quis saber o que pensar
mas o teu rosto não assome no horizonte

Fotografia Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

notas para duelo perdido

I
engorda o rebanho
deglutindo
o pasto viciado

II
descubro hoje
que a minha roupa negra
já não me serve

III
avança a cerca
o gado em fúria
ameaçado pelo cão embalsamado

IV
esqueço-me de dar corda
aos dias
o despertador não para de tocar no bolso

V
afia a faca
mostra o dente
o falso pastor

VI
a face do culpado
de mãos ensanguentadas
é o meu próprio rosto

VII
do cimo da montanha
o brilhante salvador
o livro sagrado na marca:

VIII
eu te
perdoo
os outros não

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

notas para início de ano

I
ó poeta medíocre
diz-me lá então tu
porque teimas em escrever

II
palavras comuns
repetidas
vezes e vezes sem conta

III
espiral em aperto
serpente
mordendo a cauda

IV
e tu, poeta miserável
continuas
nesse labirinto sem saída

V
e tu, poeta lastimosa
tentada
pelos números que te ofertam

VI
arregala os olhos
até que as lágrimas te saltem:
é só comercio, nada mais

VII
ó poeta reles
nem asas te valem
para arder no firmamento

VII
ó triste de ti
que as águas carreguem
as tuas cinzas

VIII
e a poeta disse:
escrevo por que escrevo e pronto
e ponto

[regresso de uma pequena paragem, umas pequeníssimas férias, deixo-vos os votos de um bom ano de 2013, em breve retomarei as minhas visitas pela blogosfera a todos um imenso obrigada por me acompanharem e me permitirem também a leitura dos vossos poemas]

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

notas para epílogo

I
aponta estrelas
uma a uma
sem medo

II
não é o céu cinzento
que tombará
ante os nossos pés

III
afaga o trigo
dourado
áspero na seara ondulante

IV
as entranhas da terra
não se abrirão de par em par
jamais

V
o aço frio
o tambor oleado
o beijo fatal

VI
e o dia nascerá amanhã
e depois, e depois
igual a todos

VII
é apenas um ser
um ser, mas é
humano, sem asas

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

notas e só isso: notas

I
quantas valas
arrancadas ao ventre da terra
para conter toda a humanidade

II
quantas são ainda
as pedras que encerram
os homens que restam

III
fogo permanente
em falsas cruzes de pau
onde se assassinam os justos

IV
quantas palavras
quantas pedras
quanto tempo que nos resta

V
ventres vazios
vísceras no solo imundo
somos todos nados-mortos

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

notas para fundo de mala

I
encontro uma caixa de fósforos
esquecida entre o forro da mala
e há tanto tempo que deixei de fumar

II
deito o corpo sobre a cama
vazio de ti, disforme
pele enrugada à espera

III
sinto o hálito doce
o teu corpo debruçado
perante a nudez arrepiada

IV
tardes frias de primavera
hotéis esquecidos
quartos imundos repletos de odores nauseabundos

V
grossos dedos, língua quente
molda-se a carne
pelos ossos que não lhe pertencem

VI
elevam-se montanhas de feno
afundam-se vales de sangue
mergulho no profundo de mim

VII
acendo um cigarro
prometo que será o último
não tarda encontro-te novamente

VIII
sim, não tarda encontro-te novamente
ou finjo que te encontro
no fim desta estrada

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

notas para luxuria servida ao fim da tarde

I
dedos frios
dedos nervosos
dedos açucarados

II
lábios carnudos
lábios abertos
lábios expectantes

III
mãos ásperas
mãos em fuga
mãos que violam

IV
pele virgem
pele arrepiada
pele em chama

V
língua que embala
língua que desbrava
oceano que afoga

V
corpo tentado
corpo jogado
corpo violado
Man Ray, The fantasies of Mr. Seabrook, 1930

domingo, 21 de outubro de 2012

notas para a desconhecida em mim

I
já não sei onde me levam
estes passos perdidos
por entre a cidade que me esquece, lentamente

II 
fecho os olhos
perante o meu reflexo
nas montras sujas

III
se me encontrar
se me vir
nem sei se me reconheço

IV
o ar frio invade
a pele
aloja-se na carne

V
já houve sangue
nestas veias
vida neste peito

VI
caminho
sem destino
ao meu encontro

VII
repousa na mesa
o veneno
a lâmina afiada

 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

notas para advertência fugaz


I
se por essa porta
entrarem
que os vossos olhos lhes sejam fieis

II
há muito mais aqui
do que aquilo que julgam sentir
do que o odor que vos provoca náusea

III
o ar já não circula aqui
o tempo perdeu-se na esquina da sala
as bocas coseram-se em desespero

IV
se a vossa teimosia em tudo superar, relembrem
estamos cada vez mais distantes do esquecimento
estamos muito mais do que mortos

Fotografia de Laura Alberto

notas para acidentes meticulosamente encetados


I
de tanto afiar
o fio da faca
perdi o medo sob o balcão da cozinha

II
o sangue que alastrava
impregnava os móveis
deixei que o odor se alastrasse

III
uma mão no bolso
a outra perdida
o sono viria por fim

IV
restava a marca
no livro de notas
como matar a cobardia?

terça-feira, 11 de setembro de 2012

notas para crentes embusteados

I
nem os vossos pensos
rápidos de plástico
cobrem os lanhos infestados que tentam ignorar

II
a rapidez com que
galgam as valetas
não escondem os cadáveres que nela se amontoam

III
as missas que rezam
os cânticos que entoam
não vos salvam nunca

IV
não serei
uma flor de plástico
uma pedra envelhecida


V
dorme, dorme meu menino
amanhã continuarás
a dormir

VI
vale mais
uma mentira na mão
e um lugar divino no peito, não?



 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

notas para pseudónimo em forma de lista de compras



I
não esquecer:
de fechar os olhos antes de adormecer
a cegueira teima em atacar as negras noites

II
não esquecer:
de dormir acordada
os sonhos são cantos envenenados onde perecemos

III
trazer sempre no bolso
uma lâmina bem afiada
pois nunca se sabe quando o espelho se parte

IV
perguntar sempre
quanto de mim se fecha num nome
que não sendo meu, sempre me coube

V
abandonar, tentar esquecer
a graça do batismo
que nos leva pela vida que se vai desfazendo

VI
aprender
a dormir com os fantasmas
mortos no ventre

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.pt/

[Queridos amigos, companheiros desta minha viagem as férias têm-me afastado dos vossos blogues, apesar de os continuar a ler, é-me difícil deixar comentários pois o tempo é escasso. Tentarei, o mais breve possível, deixar as minhas marcas nas vossas viagens. Muito obrigada a todos.]

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

notas para naufrágio em Ítaca

I
não será precisa a tua
lamina afiada
disferindo misericórdia

II
de nada serve
coser as tua pálpebras
pois tua cegueira é perene

III
recolhe então à concha
imunda
onde te escondes

IV
pois os braços que se erguem
na tempestade do oceano
trazem mão de degolador

 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

notas para amor ébrio


"eles não sabem que vão morrer"
José Saramago

I
são as sombras que nos desenham
nos paralelos de qualquer cidade
nas noites em que nos perdemos

II
não sei dançar, nunca soube
não sabes dançar, esqueceste-te
os mestres há muito que se foram

III
esvazia as tuas garrafas
enche os teus copos
alguém saberá como limpar os despojos da noite

IV
sem voz, sem silêncio
[as trevas penetram pelas paredes do quarto]
rápido, antes que a última golfada de sangue seque

V
os que brincam com as cinzas
não são os mais destemidos
são talvez os mais tolos inconsequentes

VI
no fim
não haverá urna
que nos sirva