XVII
último crime: o ódio
deixámos estas paredes, deixamo-nos ficar nesta cal e as nossas botas pisam a terra e seguem separadas
outros virão habitar entre os fantasmas pálidos de tudo o que nos bastou, outros dormirão nos nossos lençóis, de suor, de sangue e sal, outros falarão também a mesma língua de falácia
será sempre inverno, teremos sempre frio
quando olhar o meu corpo no espelho reconhecerei o contorno da tua mão na minha pele, quando abrir os lábios procurarei sempre os teus e encontrar assim a tua língua nos dedos entorpecidos
um crime qualquer: a ignorância
primeiro crime: existirmos
[terminam aqui os crimes amorosos, escritos tendo por base uma história entre dois amantes, hoje é o dia em que finalmente se separam, obrigada]
«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares
Mostrar mensagens com a etiqueta crimes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crimes. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Crimes amorosos
XVI
o dedo percorreu a parte exterior da coxa por cima da roupa, mas mesmo assim sabias que a pele é branca e que o arrepio percorreria todo o corpo
[tu sabes, tal como eu sei]
a mão deslizou suavemente pela parte interior da perna até ao preciso local onde tudo é proibido
[já sabemos, o que sempre soubemos]
todo o tempo, todo o escasso tempo que nos resta é aqui, escondidos entre estas paredes mudas, sobre estes lençóis frios que se mancham com o calor dos nossos corpos, todo o nosso sangue corre sobre o soalho do chão
somos vapor negro que se dissolve entre o silêncio do quarto
[sabemos, como sempre soubemos o que ninguém sabe]
amanhã, quando abrirem as portas perras, o vazio fugirá aos mortais

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
o dedo percorreu a parte exterior da coxa por cima da roupa, mas mesmo assim sabias que a pele é branca e que o arrepio percorreria todo o corpo
[tu sabes, tal como eu sei]
a mão deslizou suavemente pela parte interior da perna até ao preciso local onde tudo é proibido
[já sabemos, o que sempre soubemos]
todo o tempo, todo o escasso tempo que nos resta é aqui, escondidos entre estas paredes mudas, sobre estes lençóis frios que se mancham com o calor dos nossos corpos, todo o nosso sangue corre sobre o soalho do chão
somos vapor negro que se dissolve entre o silêncio do quarto
[sabemos, como sempre soubemos o que ninguém sabe]
amanhã, quando abrirem as portas perras, o vazio fugirá aos mortais

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Crimes amorosos
XV
abraça-me, como só tu o sabes fazer, assim com toda essa tua força
abraça-me, consigo sentir o cheiro que se solta do teu cabelo, o que manténs desgrenhado, caído sobre os ombros para que o sinta acariciar o meu rosto
aperta-me, como se hoje fosse o último dia, assim com toda a tua coragem
o meu peito cola-se ao teu e respirámos o mesmo ar, pausadamente
aperta-me com toda a tua força, não tenhas medo, porque eu também não tenho:
parte-me os ossos, aqueles que consegues sentir debaixo da roupa, parte-os todos um a um e não fales enquanto o fazes, sou outra vez menina nos teus braços, uma boneca que carregas com uma só mão e arrastas os cabelos pela rua suja
não digas nada, abraça-me só, enquanto as gavetas se esvaziam
Antony and the Johnsons - Frankenstein
abraça-me, como só tu o sabes fazer, assim com toda essa tua força
abraça-me, consigo sentir o cheiro que se solta do teu cabelo, o que manténs desgrenhado, caído sobre os ombros para que o sinta acariciar o meu rosto
aperta-me, como se hoje fosse o último dia, assim com toda a tua coragem
o meu peito cola-se ao teu e respirámos o mesmo ar, pausadamente
aperta-me com toda a tua força, não tenhas medo, porque eu também não tenho:
parte-me os ossos, aqueles que consegues sentir debaixo da roupa, parte-os todos um a um e não fales enquanto o fazes, sou outra vez menina nos teus braços, uma boneca que carregas com uma só mão e arrastas os cabelos pela rua suja
não digas nada, abraça-me só, enquanto as gavetas se esvaziam
Antony and the Johnsons - Frankenstein
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Crimes amorosos
XIV
enrolávamos as tardes nas pontas dos dedos,
voavam em círculos desajeitados no ar
abríamos o caminho entre raios diagonais de luz
e adivinhávamos as cores de lá de fora
adormecíamos, exaustos
para acordar, quando o frio da noite nos cobria a pele
e os nossos olhos brilhavam na penumbra
os meus olhos, os teus olhos: encontram-se
o meu corpo tem a forma das tuas mãos
a tua boca tem a forma da minha língua
a minha pele, veste a tua carne
a tua carne esconde-se na minha pele
somos: um
enrolo as tardes em espirais esquecidas
enrolávamos as tardes nas pontas dos dedos,
voavam em círculos desajeitados no ar
abríamos o caminho entre raios diagonais de luz
e adivinhávamos as cores de lá de fora
adormecíamos, exaustos
para acordar, quando o frio da noite nos cobria a pele
e os nossos olhos brilhavam na penumbra
os meus olhos, os teus olhos: encontram-se
o meu corpo tem a forma das tuas mãos
a tua boca tem a forma da minha língua
a minha pele, veste a tua carne
a tua carne esconde-se na minha pele
somos: um
enrolo as tardes em espirais esquecidas
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Crimes amorosos
não me quero cobrir, para que o frio que me cerca as costas permaneça
não me quero despir, será sempre o teu toque a percorrer-me
ainda sinto as costas serem invadidas pelo frio da parede:
a pele espalmada contra o branco dos azulejos, o gelo que queima a carne
a tua pele percorre cada pedaço da minha pele: a tua pele
cada um dos teus dedos aponta a estrada onde nos perdemos
o tempo pára
as tuas mãos percorrem o interior das minhas coxas como um fogo que cresce infinitamente
a minha boca na tua boca, a minha língua, a tua língua: uma só
enrolo as pernas e subo até ao teu tronco
o suor escorre pelos nossos corpos: calor
todo o meu interior é teu
escorregamos, líquidos pelo chão
e ficamos, assim: a respirar, a adormecer
e não queremos acordar

Fotografia de Man Ray
não me quero despir, será sempre o teu toque a percorrer-me
ainda sinto as costas serem invadidas pelo frio da parede:
a pele espalmada contra o branco dos azulejos, o gelo que queima a carne
a tua pele percorre cada pedaço da minha pele: a tua pele
cada um dos teus dedos aponta a estrada onde nos perdemos
o tempo pára
as tuas mãos percorrem o interior das minhas coxas como um fogo que cresce infinitamente
a minha boca na tua boca, a minha língua, a tua língua: uma só
enrolo as pernas e subo até ao teu tronco
o suor escorre pelos nossos corpos: calor
todo o meu interior é teu
escorregamos, líquidos pelo chão
e ficamos, assim: a respirar, a adormecer
e não queremos acordar

Fotografia de Man Ray
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Crimes amorosos
XII
hoje
cada um de nós dorme:
nos lençóis, na cama, no quarto a que pertence
hoje
cada um de nós:
apaga a sua luz e cobre-se com o seu cobertor
esta pele, não é nossa
estes lábios, não são nossos
a minha boca na tua boca, a tua boca na minha boca: estas bocas não são as nossas
estas pernas, não são nossas
este peito que arde, não é nosso
nosso é:
este suspiro que resta
este grito abafado na carne
esta lágrima que se disfarça
esta multidão onde nos escondemos
hoje
cada um de nós dorme:
nos lençóis, na cama, no quarto a que pertence
hoje
cada um de nós:
apaga a sua luz e cobre-se com o seu cobertor
esta pele, não é nossa
estes lábios, não são nossos
a minha boca na tua boca, a tua boca na minha boca: estas bocas não são as nossas
estas pernas, não são nossas
este peito que arde, não é nosso
nosso é:
este suspiro que resta
este grito abafado na carne
esta lágrima que se disfarça
esta multidão onde nos escondemos
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Crimes amorosos
XI
deixa que escorra pelos teus dedos,
que a última gota de sangue caia nos ladrilhos bancos
e invada o ar com seu barulho ensurdecedor
sem pensar, sem medo
esconde as mãos dentro dos bolsos
amanhã descobrimos os nossos nomes
David Bowie - Strangers When We Meet
deixa que escorra pelos teus dedos,
que a última gota de sangue caia nos ladrilhos bancos
e invada o ar com seu barulho ensurdecedor
sem pensar, sem medo
esconde as mãos dentro dos bolsos
amanhã descobrimos os nossos nomes
David Bowie - Strangers When We Meet
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Crimes amorosos
Crimes amorosos
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Crimes amorosos
VIII
amanheceu, uma luz pálida acaricia o teu corpo nu
ainda que a penumbra nos cerque o olhar,
adivinho a forma do teus ombros, do teu peito espalhado
sinto o odor do teu suor e deixo-me perder na tua pele fresca
amanheceu:
sinto o calor que ainda resta
entre cigarros queimados somos meros navios à deriva
nesta louca tentativa de sermos deuses
amanheceu, uma luz pálida acaricia o teu corpo nu
ainda que a penumbra nos cerque o olhar,
adivinho a forma do teus ombros, do teu peito espalhado
sinto o odor do teu suor e deixo-me perder na tua pele fresca
amanheceu:
sinto o calor que ainda resta
entre cigarros queimados somos meros navios à deriva
nesta louca tentativa de sermos deuses
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Crimes amorosos
VII
se colocar o pé no soalho descubro que estou descalça:
não te quero acordar para ver um corpo que não me pertence
deixo que a escuridão tape os nossos rostos assim
os beijos sentem-se frios entre os corredores da memória
se colocar o pé no soalho descubro que estou descalça:
não te quero acordar para ver um corpo que não me pertence
deixo que a escuridão tape os nossos rostos assim
os beijos sentem-se frios entre os corredores da memória
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
crimes amorosos
VII
se pudesse, acordava sempre a teu lado enroscada na espiral da tua carne
mas a noite cercou os nossos corpos, fria, gelada
roubou-nos os derradeiros suspiros e deixou-nos cercados
pela mortalha que chega com a alvorada
se pudesse, fazia teu o meu sangue para que o dia fosse eterno
brilhando como corre uma criança em círculos sobre a calçada
se pudesse, mandava parar o tempo
e dormia, finalmente
MoonSpell - Alma Mater
se pudesse, acordava sempre a teu lado enroscada na espiral da tua carne
mas a noite cercou os nossos corpos, fria, gelada
roubou-nos os derradeiros suspiros e deixou-nos cercados
pela mortalha que chega com a alvorada
se pudesse, fazia teu o meu sangue para que o dia fosse eterno
brilhando como corre uma criança em círculos sobre a calçada
se pudesse, mandava parar o tempo
e dormia, finalmente
MoonSpell - Alma Mater
quinta-feira, 21 de julho de 2011
crimes amorosos
VI
fecho os olhos e finjo dormir embalada pelo ar que libertas
acendo um cigarro, que não fumo, só pelo prazer de ver o fumo azul subir até ao tecto e perder-se em rolos de loucura
abro as mãos e com os dedos percorro a estrada estendida sobre os lençóis
não consigo dormir, o sangue ferve sobre a pele em ânsia
na penumbra, finjo fingir, sem te acordar
fecho os olhos e finjo dormir embalada pelo ar que libertas
acendo um cigarro, que não fumo, só pelo prazer de ver o fumo azul subir até ao tecto e perder-se em rolos de loucura
abro as mãos e com os dedos percorro a estrada estendida sobre os lençóis
não consigo dormir, o sangue ferve sobre a pele em ânsia
na penumbra, finjo fingir, sem te acordar
terça-feira, 19 de julho de 2011
crimes amorosos
V
anoitece:
a luz abandona as formas perfeitas entregues ao silêncio
a penumbra desenha estátuas imóveis de mármore branco, de olhos arregalados como misteriosos seres deformados pela ausência de luz
anoitece:
o vento pára, a terra pára, o tempo pára
arrastam-se os corpos vivos, todos adormecem, fingem dormir enquanto agasalham a carne com promessas impossíveis
anoitece:
é hora, é esta a hora
lá fora, a noite, o silêncio, o negro
chamam-nos
anoitece:
a luz abandona as formas perfeitas entregues ao silêncio
a penumbra desenha estátuas imóveis de mármore branco, de olhos arregalados como misteriosos seres deformados pela ausência de luz
anoitece:
o vento pára, a terra pára, o tempo pára
arrastam-se os corpos vivos, todos adormecem, fingem dormir enquanto agasalham a carne com promessas impossíveis
anoitece:
é hora, é esta a hora
lá fora, a noite, o silêncio, o negro
chamam-nos
segunda-feira, 18 de julho de 2011
crimes amorosos
IV
deitava-me a teu lado
no tempo em que as tardes começavam quando a luz rasgava o horizonte e terminavam nas longas horas da madrugada
ali, imóvel a teu lado:
deixávamos que o vento nos perturbasse a pele em promessas mudas
e sob as nossas cabeças o céu rodava cansativamente azul
bebíamos sofregamente os segundos marcados na palma das mãos
mordíamos selvaticamente o canto dos pássaros negros
deitavas-te a meu lado
quando a areia corria no leito nos rios
e a foz era apenas uma miragem delirante
eu, imóvel a teu lado
éramos estátuas de mármore onde corria o sangue
com que traçávamos o dia seguinte à noite eterna

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
deitava-me a teu lado
no tempo em que as tardes começavam quando a luz rasgava o horizonte e terminavam nas longas horas da madrugada
ali, imóvel a teu lado:
deixávamos que o vento nos perturbasse a pele em promessas mudas
e sob as nossas cabeças o céu rodava cansativamente azul
bebíamos sofregamente os segundos marcados na palma das mãos
mordíamos selvaticamente o canto dos pássaros negros
deitavas-te a meu lado
quando a areia corria no leito nos rios
e a foz era apenas uma miragem delirante
eu, imóvel a teu lado
éramos estátuas de mármore onde corria o sangue
com que traçávamos o dia seguinte à noite eterna

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Crimes amorosos
III
este sol marca a pele, como o giz sobre uma ardósia
procuro a água onde banhar o corpo e descubro que os rios carregam as palavras mudas sussurradas ao ouvido
o calor usurpa a pele, a carne e dentro, o sangue ferve como água pronta a desinfectar
e o frio que não chega, não chega a tempo para que me vista com o teu manto negro
e o frio que não chega a tempo de acabar com este ardor que sai do peito
Einstuerzende Neubauten - The Garden
este sol marca a pele, como o giz sobre uma ardósia
procuro a água onde banhar o corpo e descubro que os rios carregam as palavras mudas sussurradas ao ouvido
o calor usurpa a pele, a carne e dentro, o sangue ferve como água pronta a desinfectar
e o frio que não chega, não chega a tempo para que me vista com o teu manto negro
e o frio que não chega a tempo de acabar com este ardor que sai do peito
Einstuerzende Neubauten - The Garden
quarta-feira, 13 de julho de 2011
crimes amorosos
II
na carne branca, pintadas de azul, veias exaustas carregam o sangue e a alma é lavada
na pele fria, dedadas de Minotauro cravam-se sem piedade
no ventre, habita a ruína: negra, gelada, pedras e pedras, tombadas, derrubadas
moonspell- Wolfshade (A Werewolf Masquerade)
na carne branca, pintadas de azul, veias exaustas carregam o sangue e a alma é lavada
na pele fria, dedadas de Minotauro cravam-se sem piedade
no ventre, habita a ruína: negra, gelada, pedras e pedras, tombadas, derrubadas
moonspell- Wolfshade (A Werewolf Masquerade)
crimes amorosos
I
um dia, quando a manhã acariciar os nossos corpos banhados na escuridão fria
sairei a correr, pelas pedras cinzentas, para mergulhar nos teus braços
e descobrir que todos os rios terminam nos pés ensanguentados dos amantes
Moonspell "Scorpion Flower"
um dia, quando a manhã acariciar os nossos corpos banhados na escuridão fria
sairei a correr, pelas pedras cinzentas, para mergulhar nos teus braços
e descobrir que todos os rios terminam nos pés ensanguentados dos amantes
Moonspell "Scorpion Flower"
Subscrever:
Mensagens (Atom)

