«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

esperei toda a minha vida para ver
o por-do-sol refletido nos teus olhos
deixei-me cair no convés do navio
navegando ao sabor da tempestade
 
fiquei com a pele queimada do sol
vi os ossos mirrarem do frio
enquanto que a carne deles se soltava

quando em terra me vi
descobri a tua lápide sem nome


naufragámos em nós, distantes

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

John Cale - Do not go gentle into that good night (Brussels, 1992)


é Inverno:
depois do frio quase polar
veio a chuva teimosa para ficar
os dias vão crescendo lentamente
à medida que o mês se desfia
e nós vamos minguando entre as paredes da casa

é Inverno:
esquecemos as palavras
entre o perder dos sorrisos
há um fantasma negro que cresce
e vai pintando as paredes que encontra
enquanto na cozinha se disfarça um chá

é Inverno:
não sabemos se devemos ter frio
não sabemos como contar o tempo

é inverno:
temos medo e fingimos

sábado, 23 de novembro de 2019

https://www.youtube.com/watch?v=URCWjqmAbrg&list=PLDisKgcnAC4SnFEUod_x868Oq_qgGCVEE&index=20

não, não fui eu que enlouqueci
não estou louca quando me rio com todos os dentes que tenho
não estou doida quando falo com toda a voz que as minhas cordas vocais me permitem
não estou perdida quando abraço o vento e deito a cabeça para trás para beber a chuva
e não fui eu que enlouqueci, foste tu

sabes, aqui o tempo não para:
acertam-se os relógios, pelo menos duas vezes ao ano
mudam-se as folhas do calendário da mesma forma que se pagam as contas
marca-se o cartão, escreve-se o sumário,
entregam-se folhinhas e folhinhas, autorizações e pedidos
e tudo é para ontem e ninguém quer saber

sabes, aqui todos fazem de conta:
que são os melhores, os perfeitos
nas suas romarias exibindo os sorrisos programados,
aqueles que no final, com cinco cêntimos do bolso
vão apresentar a folha limpa

e sabes, não fui eu que enlouqueci
foram os outros:
que têm olhos e não sabem ver
que têm ouvidos e não sabem ouvir
que têm boca e só sabem falar

e sabes,
ensinaram-me a ler, as palavras e o seu significado
eu sei dançar e também sei cantar
sei desenhar o mundo com o meu dedo indicador
sei os passos a dar sem olhar o mapa

não fui eu que enlouqueci:
e este lugar torna-se insuportável, agora que sei que não fui eu, não fui eu

terça-feira, 8 de outubro de 2019


dentro do sono, entre o espaço ocupado pelos monstros e pelo medo
restam pequenos pedaços de sonhos, que se desfazem como algodão ao vento
enquanto tento agarrar as palavras que se murmuram no peito
a mão é fraca e deixa que a gravidade se cumpra
entre um silêncio que se escapa da boca e um grito que se suicida
olho para dentro de mim
as piores cicatrizes são as que nunca foram visíveis, aquelas que marcam o interior da carne, bem debaixo da pele

amanhã tudo não passará de um sonho, não passará de um pesadelo
e um sorriso à queima-roupa, sem mortos, sem danos colaterais que não eu

terça-feira, 9 de julho de 2019

apertou o casaco de lã contra o peito e ajeitou a gola para que ficasse rente ao pescoço

o inverno persistia em ficar numa espécie de frio que entra pela pele e se vai apoderando da carne e dos ossos 

por baixo da grossa camada de roupa um corpo cheio de cicatrizes que cobriam o desenho dos músculos 

desejei-o como da primeira vez, um amor rápido, bruto. uma espécie de fogo que queima as entranhas e que quando se apaga ansiamos que volte e com ele tudo volte a destruir
ele sabia-o da mesma forma que eu e sentia-o mais violento que eu
quando terminámos não sabia onde terminava a minha pele e onde começava a dele. num olhar rápido pelo meu corpo nu, descobri a marca das suas cicatrizes como que impressa na minha carne, nas suas costas o contorno do meu corpo
 
entre proibidos e permitidos, entre silêncios e gritos surdos: o inverno acabava de chegar

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

nocturnos

deixa que seja a noite a minha amiga
deixa que seja o frio o meu aconchego na solidão
deixa que o negro seja a cor que eu visto
deixa-me viver nas trevas
deixa-me observar a escuridão

no sangue que corre
na carne quente
no tendão que estilhaça
no bafo frio do monstro
eu sei que vivo

terça-feira, 27 de novembro de 2018

do outro lado que não eu

amava-o
ainda que nunca lhe tivesse dito
ainda que desconhecesse o toque dos seus lábios
ainda que ignorasse o aperto capaz dos seus braços
amava-o

amava-a
sabia de cor a suavidade da sua pele
reconhecia o odor que o seu corpo emanava
sentia o calor que o seu peito libertava
amava-a

amavam-se
corpos violentos contra o outro
costas contra a parede
carne que se moldava
suores, sangue e lágrimas que se misturavam em perfeita alquimia

em silêncio, porque as palavras que se dizem
podem ser perdidas e devem ser esquecidas

amaram-se


quinta-feira, 10 de maio de 2018

237

o homem que hoje se enterra
teve pai, teve mãe
brincou, muito ou pouco
chorou, muito ou pouco
teve medo, muito ou pouco
teve coragem, muita ou pouca
terá amado, terá sido amado


teve um pai, teve mãe
foi o sonho de alguém
que o universo lhe desejou

o homem que se enterra
há muito que morreu
leva um numero, só
e que levo eu
filha da mãe
filha do pai
mãe de um universo

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

deu-lhe uma pequena caixa preta, rematada com uma tampa prateada e uma pequena chave. disse-lhe:
aqui deverás guardar os teus sonhos, os mais ridículos e impossíveis de ver a luz do dia. depois quando nada tiveres a fazer, vens aqui e tiras um à sorte.
pegou na caixa que observou de todos os ângulos possíveis e replicou:
e se perder a chave, como farei?
do outro lado ouviu:
não me digas que essa caixa chega para todos os teus sonhos...