«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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terça-feira, 1 de junho de 2021

Tool - Invincible Live

a Tempestade II

tu sabes que vais entrar na tempestade
e ela vai trespassar o teu interior
esmagar os teus músculos
dilacerar os teus ossos

dentro da tempestade
não sangras
não choras
apenas dói e dói muito

e aí, dentro da tempestade
eventualmente
tu irás tornar-te na própria tempestade

terça-feira, 30 de março de 2021

se a noite é longa e fria
o dia é longo e quente

o silêncio reina na rotação

a voz torna-se rouca
as pernas ganham força

sábado, 12 de dezembro de 2020

The Background World




nós somos:

os que se escondem ao dobrar da esquina por tão feios que somos

os que dobram a roupa ao fim do dia na esperança que seja a última vez

os que raspam a comida do prato de tão velha que está

os que a tosse se confunde com a voz

os que o silêncio se confunde com os gritos no peito

os que conhecem o sabor das lágrimas

os que moldam os risos entre os lábios

os que dançam à chuva sem medo

os que correm na noite livre

os que estão na jaula

e tu, de que lado estás da grade?

terça-feira, 11 de junho de 2019

eu não sou Eu



eu não sou eu, não sou
um eu
sou um emaranhado de
carne, ossos, gordura, tendões e sangue
um corpo que se arrasta,
cumprindo o que as regras lhe ditam
um número num cartão de
cidadão, outro fiscal e ainda outro de saúde
e tantos ainda dispersos
entre cartões, escolas, sei lá eu
tenho um número de
telefone que uso, tenho um número da porta da minha casa
tenho milhões de
números, que se repetem, da mesma forma que se perdem

e eu não sou eu, quando
ando no meio de outros eus
sorrio, cumprimento,
falo, cumpro as horas e os dias que me estão destinados
eu sou apenas outro eu,
no meio de outros eus

eu sou Eu
no meio do silêncio que
alimento, onde quem me abraça é o vento
quem me mata a sede é a
chuva
Eu, na madrugada, perdida
na solidão de uma corrida
Eu, na noite, aconchegada
pelas nuvens que me assolam o pensamento

quinta-feira, 14 de março de 2019


e então ele disse-lhe, sussurrando ao ouvido,
és livre
ela desconfiou, mantendo-se imóvel
e então ele repetiu-lhe, agora mais alto,
és livre
ela deu um passo, mas parou
e então ele empurrou-a e berrou-lhe,
és livre, porra
ela correu para não voltar mais

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019



isto de voltar ao lugar onde se foi feliz
ainda tem muito que se lhe diga
olhámos os pés e queremos ser árvores, para que as raízes permaneçam
esticámos os braços e desejamos que asas lhes cresçam, para que o mundo seja conhecido
sentimos o vento e julgamos saber cantar
ouvimos o mar e partimos para um canto encontrar

e isto de voltar ao lugar onde se foi feliz
ainda tem muito, mas muito que se lhe diga
e no final regressámos pelo mesmo caminho

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

se ainda que amanhã não encontre em mim forças para sorrir, se a força me faltar e as minhas mãos forem substituídas por outras que não minhas e eu as sentir trémulas 

então quero que saibas que os dentes tenho-os cerrados, as unhas cravam-se na pele da palma das mãos, as pernas fraquejam e tentam ceder à gravidade

então quero que saibas, que o sangue ainda corre e o coração, esse ainda bate

domingo, 13 de maio de 2018

o poeta que pensava não ser ninguém, escrevia que “não sou ninguém”. bebo as suas palavras, cada uma delas encontra em mim, todo o significado. sinto-as, respiro-as em mim. pego na caneta e tento esboçar o que sinto: um número infindável de riscos, de folhas estragadas.

suspiro, sendo eu de verdade ninguém

quinta-feira, 10 de maio de 2018


o monte não chamou ninguém aos seus trilhos
a chuva não pediu que a viessem beber contrariados
nenhuma estrada suspirou pelos passos que a correram
a erva daninha entre os espaços dos paralelos não pediu para ser destruída

tu vieste, insistindo em contrariar a ordem natural das coisas
agora terás de lidar com isso: aguenta-te

um dos sítios onde nasci é agora um fosso de terra amarelada e uma gigante poça de água, onde se firmam os alicerces de um hotel
não consegui guardar tudo o que queria, mas o que foi possível.
uma chave sem fechadura, uma placa sem porta

aprendo dia após dia que as nossas bugigangas apenas tem valor para nós
perante a fundura das novas fundações descubro me viva

sábado, 28 de abril de 2018


esforço-me para não estar sozinha, desfilando a longa lista de números no telemóvel
esforço-me para não falar sozinha, percorrendo os perfis dos amigos
conforto-me quando sei que ouvem os meus risos

mas encontro-me só, o silêncio da minha voz é cortado pelos gritos do pensamento
a respiração rasga a calmia da floresta
sinto-me e sei-me só e aqui neste lugar tão acompanhada

depois do Animal, o homem
depois do homem restará sempre o Animal

observo os primeiros rebentos nas arvores
a natureza cumpre se uma vez mais
os Animais regressam e fazem se ouvir

onde antes era frio e sem côr
agora respeitam se as leis nunca impostas pelo homem
da vida nasce a morte
da morte nasce a vida
fácil

quinta-feira, 12 de abril de 2018


a minha caneta escreve aquilo que eu vou-lhe ditando baixinho
por vezes é lenta a fazer o que lhe peço
outras vezes sou eu que não lhe consigo dar trabalho
com ela assino também documentos oficiais
[vénia]
gosto de pegar nela, mostrar o seu corpo de metal e por baixo da tampa deixar adivinhar um aparo
assino rapidamente e guardo-a numa cerimónia pomposa

mas um dia começaram-me a acusar de escrever a vermelho
primeiro não liguei, mas o continuar dos avisos fez-me duvidar da cor da minha caneta
abri então um inquérito para perceber afinal qual a cor
castanho, vermelho, cor de vinho, vermelho-sujo, vermelho-limpo
não encontrei unanimidade



porra, a minha caneta escreve violeta
[cor inscrita na caixa]
alias, escreve todas as cores que eu quiser
fala de todos os lugares que vi
conta todas as histórias que presenciei
diz o que eu quero dizer e disse
diz o que eu queria dizer e não me era permitido
mas repito e insisto:
a minha caneta escreve a cor que eu lhe digo
só tenho pena é que não a saibam ver

[por baixo da roupa eu sei que estou nua e tu?]

terça-feira, 10 de abril de 2018


a maior parte das vezes estou com a luz apagada
hoje foi um desses dias, até que alguém entrou fechou e o interruptor
não gosto de ilusões, nem de luz falseada
esperei voltar a ficar sozinha: apaguei a luz, abri os estores
no quadro de cortiça, um conjunto de pionés sorria-me
devolvi-lhe o sorriso, não estava só

terça-feira, 3 de abril de 2018

quando metade dos pés tocam o ar rasteiro
diante de um fosso que se estende debaixo dos teus olhos
ainda que a gravidade te puxe, ainda que tu tenhas decidido cumprir as leis da física
ergue a cabeça um pouco e verás
que diante do abismo também se estende o céu

fim do dia:
chegar a casa, tirar a máscara do sorriso, sim está tudo bem
colocar a máscara do eu consigo, eu faço, sim está tudo bem
dormir: não, não está tudo bem, não vês?

o homem não pode voar
o homem não respira dentro de água
o homem não é eterno
o homem não pode morrer

mas voa, nada, vive e mata
o homem merece morrer

enquanto acreditar irei levantar-me
se tudo fizer sentido a batalha também o fará
se correrem rios de sangue, que se homenageiem os que padeceram
se a terra for nossa, que se pintem novas bandeiras

quando o amor me faltar, não se preocupem com a minha morte, eu dela tratarei
travessa Fernão Magalhães, 168

o alto muro de dois gigantes encavalitados
é agora um poço que toca o submundo
cheio de água esverdeada que não estaria nos planos
alheios ao passado daquelas pedras, engenheiros medem e medem, traçando riscos em cima de riscos, em cima de números, as máquinas operam sem pensar, libertando apitos sonoros
ergue-se um novo muro, ainda tapado, onde os trabalhadores se equilibram, haja segurança, viva o betão
restam as portas de entrada, onde atravessando por elas descobri toda a terra que foi tirada
24-20, tudo tem preço
amanhã começa o futuro

neste preciso momento eu não estou cá
também não estarei por aí, onde me procuras
eu neste momento não sou eu
também não sou aquela que julgas

neste momento eu não estou e não sou