«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Manifesto CXXXI

Creonte chega de noite

franzes as sobrancelhas, um sulco entre a carne coberta de pele envelhecida suavemente
o cabelo retrai-se sobre a testa e as tuas orelhas continuam paralelas
intocáveis, entre a linha do rosto que separa a face do pescoço robusto

de olhos fechados consigo ver o teu rosto
de mãos paradas sinto o teu corpo nu

deixas os lábios entreabertos e deles se escapa o fumo do cigarro
que seguras entre dois dedos da mão esquerda
a mesma mão com que afagas os dias marcados no calendário

sei o caminho, reconheço cada curva entre a escuridão da noite
hoje, já nem a tua fotografia consigo beijar
e no chão do quarto acumulam-se os nossos cadáveres

5 comentários:

  1. Foste brilhante neste texto
    E no final és soberba.
    Parabéns pelo talento que as tuas palavras revelam.
    Gostei de ouvir os Moonspell.
    Querida amiga laura, boa semana.
    Beijo.

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  2. Adoro as imagens em teus textos...

    Beijinho de segunda-feira, Laura!

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  3. Laura,
    que bem que escreves!

    Beijinho

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  4. "hoje, já nem a tua fotografia consigo beijar
    e no chão do quarto acumulam-se os nossos cadáveres"
    esse é sempre, de todos os males, o menor

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