«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pedradas LVIII

Ao fim e ao cabo

que sensação desconfortável
invade o meu intimo, todas as entranhas
reviradas, viradas e reviradas
de baixo para cima, de cima para baixo
o fogo consome o interior, coze a pele em lume brando

[que palavras são estas?]

turvam-se os olhos,
avermelhados da raiva que nasce bem no fundo
e brota violenta pela carne quente
em fúria, em fúria senhores
e queima os vermes que se escondem

[que palavras são estas, meus senhores?
estas palavras pintadas, ornamentando
vossas frases espalhafatosas,
sim, meus senhores, serão estes os vossos pensares?]

quer o poeta escrever tudo:
o que lhe apetece
que lhe vai entre o sangue e a urina,
entre o suor e a lágrima

quer o poeta dizer:
que na sarjeta vive poema

5 comentários:

  1. As sensações reviradas, inevitavelmente. Mas poesia é isso mesmo, é expor as vísceras, esfregá-las nas rochas mais ásperas.

    Abraços!

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  2. Ou pelo menos alguns dos mais intensos, autênticos e profundos entre eles!

    Beijo, Laura.

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  3. ou pelo menos, aqueles em que tantas vezes nos revemos de alguma forma, como este...

    Beijo Laura!

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  4. o verbo:
    alquimia da falácia
    ópio dos cegos
    mentira dos poetas
    ilusão de deus.
    viva eu na sarjeta!
    abraço, laura!

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