«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

terça-feira, 9 de julho de 2019

apertou o casaco de lã contra o peito e ajeitou a gola para que ficasse rente ao pescoço

o inverno persistia em ficar numa espécie de frio que entra pela pele e se vai apoderando da carne e dos ossos 

por baixo da grossa camada de roupa um corpo cheio de cicatrizes que cobriam o desenho dos músculos 

desejei-o como da primeira vez, um amor rápido, bruto. uma espécie de fogo que queima as entranhas e que quando se apaga ansiamos que volte e com ele tudo volte a destruir
ele sabia-o da mesma forma que eu e sentia-o mais violento que eu
quando terminámos não sabia onde terminava a minha pele e onde começava a dele. num olhar rápido pelo meu corpo nu, descobri a marca das suas cicatrizes como que impressa na minha carne, nas suas costas o contorno do meu corpo
 
entre proibidos e permitidos, entre silêncios e gritos surdos: o inverno acabava de chegar

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