«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

quinta-feira, 19 de julho de 2012

notas para post scriptum

O Futuro Sai da Fenda e da Ferida

a geometria abre a linha para deixar passar a Imaginação.
O FUTURO sai da FENDA e da FERIDA.
Do que antes foi, hoje sai Sangue. Inundar o VAZIO: o FUTURO inunda o VAZIO.
Porque todo o vazio tem por INIMIGO a Imaginação.
Porque todo o vazio tem o Inimigo. 
Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"


I
abeiro-me das árvores sem sombra
boca seca, dentes sujos de pó
um sol que faz arder, sem tréguas

II
a figura negra da cidade
tatuada nas pedras
disforme com o deslizar da tarde

III
não há luz que guie
não há noite que aconchegue
não há lugar no ventre

IV
a mente torcida em becos
sem saída, sem retorno
talvez seja precisa uma guerra


 

16 comentários:

  1. "não há luz que guie
    não há noite que aconchegue
    não há lugar no ventre"...

    #E isto hoje, para mim é tudo.

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  2. há na tua escrita eminentemente urbana, deambulatória, mais do que contemplativa, uma espécie de cesário verde a quem acoplaram as garras afiadas (para fora e para dentro do monstro de pedra) de t. s. eliot. e o resultado é notável. sempre.

    beijos, laura!

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  3. A matéria opressiva envolve-nos, fazendo-nos sentir como se usássemos a mesma roupa suja há muito tempo. Sopramos, debatemo-nos, mas a amarra não se solta. Apenas activamos ainda mais as cores desbotadas da paisagem...

    Beijo :)

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  4. Acho que já encetaste a guerra...
    Sim, a imaginação é a pior inimiga do Homem... às vezes só atrapalha... e com ela sangramos!

    Abraço!

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  5. "Porque todo o vazio tem por INIMIGO a Imaginação". Sim, é ela quem sempre preenche o vazio. Mas se sabemos como domá-la e direcioná-la, pode trazer coisas interessantes.

    Adorei o som do John Zorn! Como sempre, boas dicas musicais.

    Bjos!

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  6. Uma guerra inteligente não é feita com instrumentos de morte, mas de vida, como: mente sã, papel e lápis.
    Notas cênicas!
    bj com admiração

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  7. A guerra talvez seja mesmo inevitável, já que a luz na cidade é cada vez mais ténue e corre o risco de se apagar eternamente, apesar do sol que faz arder.
    Excelente poema, gostei imenso.
    Laura, minha querida amiga, tem um bom resto de domingo e boa semana.
    Beijo.

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  8. Laura
    Sei que o vazio está prestes a arder em chamas, mas é preferível não ver nenhuma fenda aberta, pois
    não quero subscrever o inevitável. Ainda há um talvez. Esta é a nota final.

    Um assombro como sempre.
    Beijos.

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  9. oh, menina...
    que rica e densa poesia você escreve.
    beijos

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  10. uma guerra e quebrar os muros que construímos, os que imaginamos, os que tememos... onde nos perdemos?

    beijo, querida Laura!

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  11. Olá Amiga!
    Te descobri através do meu amigo Assis Freitas. Entrei e adorei já o que li.
    Vai até o meu: http://minhaalmaempoemas.blogspot.pt/

    Beijão e por lá te espero!

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  12. eu fico quase sem fôlego quando termino de ler teus poemas Laura, esse me deu algo que nem sei, é claro que adorei. você tem uma habilidade de expressar uns mistérios que não é comum

    um beijo

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  13. Laurinha,
    já vim aqui umas três vezes neste post e não consegui comentar, creio que minhas palavras estão num post scriptum invisível :)

    Beijos!

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