«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

sexta-feira, 16 de março de 2012

purgatorium XI


[Já que me vais matar, podias ao menos usar a tua melhor roupa, não?]. Saí da sala sob o violento som da porta a fechar.
Pequenas agulhas percorreram-me todo o corpo, enquanto o vapor da água quente invadia toda atmosfera da casa de banho. Pequenas gotas escorriam pelos azulejos: escrevi o nome, de ninguém.
Não possuía roupa adequada para a ocasião. Vesti um roupão de seda que me trouxeram de Pequim. No espelho o dragão, bordado nas costas, ganhou vida, num reflexo fugaz.
A lâmina estava perfeitamente limpa. Entrei na sala: vazia.
Na parede, a sombra esvanecia perante o cansaço dos olhos. Senti a lâmina forçar a carne: resistência: a sombra caia ao rés da parede.
[Podias ser mais rápida, não?] E então senti que o meu corpo se esvaziava, com a sombra que tombava, de boca aberta.
Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

7 comentários:

  1. Laura, gostei muito de ler teus
    textos, fui tomada por algo curiosamente familiar que carrego
    cá dentro e ainda não conseguí expressar: uma identificação instantânea, se é que consigo fazer-me entender :)
    Tão bom quando isso acontece, porque tão raro!

    beijoss

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  2. LAURA!

    Que texto é esse? Tão intrigante! É o segundo que leio hoje que fala de lâminas. Mas este seu causou=me arrepios.

    Bárbaro!

    Parabéns!

    Beijos e carinho

    Mirze

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  3. Mas que requinte! Soube agora que o purgatório não está equidistante entre o inferno e o paraíso. Ele tem gravidade. Desce como um balão que precisa se reabastecer do ar quente do inferno ou de penas a serem purgadas.

    E no entanto a sala parece tão álgida, tão alva.

    Uma sombra que tomba de boca aberta é imagem fantástica!

    Esse teu gabinete expressionista provoca vertigens, há nele afiadíssimos instrumentos verbais que nos fustigam os labirintos!

    Um beijo, Laura.

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  4. reflexos fugazes para sombras abertas.
    e a fotografia do polónio é outro texto dentro do texto.

    beijos, lauramiga!

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  5. Mais um lindo texto. Laura!

    A sombra esvanecia e mais uma lâmina estraçalha a alme de alguém.

    Excelente

    Beijos

    Mirze

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  6. Laurinha,
    essas sombras que assombram, e de boca aberta engolem mundos.

    Percebi que usei a palavra "soco" em dois comentários que fiz aqui, rsrs, mas assim eu sinto teus escritos, intensos, de personalidade e certeiros. Fico meio tonta, e isso é um elogio, querida amiga!

    Beijos

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