«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

terça-feira, 11 de junho de 2019

eu não sou Eu



eu não sou eu, não sou
um eu
sou um emaranhado de
carne, ossos, gordura, tendões e sangue
um corpo que se arrasta,
cumprindo o que as regras lhe ditam
um número num cartão de
cidadão, outro fiscal e ainda outro de saúde
e tantos ainda dispersos
entre cartões, escolas, sei lá eu
tenho um número de
telefone que uso, tenho um número da porta da minha casa
tenho milhões de
números, que se repetem, da mesma forma que se perdem

e eu não sou eu, quando
ando no meio de outros eus
sorrio, cumprimento,
falo, cumpro as horas e os dias que me estão destinados
eu sou apenas outro eu,
no meio de outros eus

eu sou Eu
no meio do silêncio que
alimento, onde quem me abraça é o vento
quem me mata a sede é a
chuva
Eu, na madrugada, perdida
na solidão de uma corrida
Eu, na noite, aconchegada
pelas nuvens que me assolam o pensamento

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