«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

terça-feira, 19 de julho de 2011

Polaroid 43

nocturno

receio que a manhã acorde e a escuridão seja o manto que cobre a terra
uma luz negra desenhando o contorno das arvores, das fragas, dos desfiladeiros
e no ar pó, pó e mais pó

toda a vida apagada por um denso nevoeiro,
espesso, como o sangue coagulado nos moribundos

todo o calor bebido pelas entranhas da terra
sofregamente até se tornar uma memória, distante e esquecida

temo que a manhã invada os olhos errantes
com a sua escuridão, fria e negra escuridão
um dedo pousado sobre os lábios. silêncio

crimes amorosos

V
anoitece:
a luz abandona as formas perfeitas entregues ao silêncio
a penumbra desenha estátuas imóveis de mármore branco, de olhos arregalados como misteriosos seres deformados pela ausência de luz

anoitece:
o vento pára, a terra pára, o tempo pára
arrastam-se os corpos vivos, todos adormecem, fingem dormir enquanto agasalham a carne com promessas impossíveis

anoitece:
é hora, é esta a hora
lá fora, a noite, o silêncio, o negro
chamam-nos

segunda-feira, 18 de julho de 2011

crimes amorosos

IV
deitava-me a teu lado
no tempo em que as tardes começavam quando a luz rasgava o horizonte e terminavam nas longas horas da madrugada
ali, imóvel a teu lado:
deixávamos que o vento nos perturbasse a pele em promessas mudas
e sob as nossas cabeças o céu rodava cansativamente azul

bebíamos sofregamente os segundos marcados na palma das mãos
mordíamos selvaticamente o canto dos pássaros negros

deitavas-te a meu lado
quando a areia corria no leito nos rios
e a foz era apenas uma miragem delirante
eu, imóvel a teu lado
éramos estátuas de mármore onde corria o sangue
com que traçávamos o dia seguinte à noite eterna

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Manifesto CXXXIII

de ti:
quis saber onde mora o vento
que molda a pele que me cobre,
corri entre escarpas afiadas
e no mar lavei o sangue
mas o vento tinha parado e tu sorrias distante


de ti:
ouvi contar, como doce melodia,
que cavalgavas no dorso das ondas
e bebes dos lábios das algas,
despi a túnica que vestia
e procurei-te na linha do horizonte

de ti:
descobri que os deuses não existem,
pisando o pó, a terra, a areia
com que enchemos as nossas casas

Manifesto CXXXII

queda em espiral sobre manto branco

acordei para descobrir que o tempo tinha parado
ali sobre a mesa, entre o pó branco que se acumula, repousa: fechado, calmo, perante lábios semiabertos
encontro o sopro quente, fugaz interior, como a escaldante areia que se teima agarrar, para de pois se perder
e sei que ainda assim, entre o estender da noite sobre o quarto e o desenho da luz nos corpos desnudos, ainda assim, despertarei no armário das recordações, no armário escondido e cerrado da nossa memória

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Crimes amorosos

III
este sol marca a pele, como o giz sobre uma ardósia
procuro a água onde banhar o corpo e descubro que os rios carregam as palavras mudas sussurradas ao ouvido
o calor usurpa a pele, a carne e dentro, o sangue ferve como água pronta a desinfectar

e o frio que não chega, não chega a tempo para que me vista com o teu manto negro
e o frio que não chega a tempo de acabar com este ardor que sai do peito

Einstuerzende Neubauten - The Garden

quarta-feira, 13 de julho de 2011

crimes amorosos

II
na carne branca, pintadas de azul, veias exaustas carregam o sangue e a alma é lavada
na pele fria, dedadas de Minotauro cravam-se sem piedade
no ventre, habita a ruína: negra, gelada, pedras e pedras, tombadas, derrubadas

moonspell- Wolfshade (A Werewolf Masquerade)