«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

quarta-feira, 13 de julho de 2011

crimes amorosos

I
um dia, quando a manhã acariciar os nossos corpos banhados na escuridão fria
sairei a correr, pelas pedras cinzentas, para mergulhar nos teus braços
e descobrir que todos os rios terminam nos pés ensanguentados dos amantes

Moonspell "Scorpion Flower"

terça-feira, 12 de julho de 2011

"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller

XXXVII
atravessada sobre os lençóis brancos, deixo a minha cabeça pender. da janela do quarto, observo a luz amarela do candeeiro filtrar-se entre o nevoeiro que se espalha na neblina. ténues pedaços de luz amarela dissolvem-se na escuridão da noite, pequenos pedaços de algodão desfeito.
os teus dedos desenham mapas na minha pele, a tua boca bebe o rio sem foz, na carne cravam-se os dentes.
uma gota de suor cai, sobre o chão de madeira e a lua acaricia os corpos com a sua luz fria de gelo.
o tempo parou, para que se pudesse dormir, assim, pausa.

"O coração é um vasto cemitério"-Heiner Muller

XXXVI
um instante, um breve segundo: sentir que o coração parou e o sangue é uma poça adormecida, onde crianças saltam de pés descalços.
se abrir um corte na pele, se cortar em duas linhas simétricas o peito, jorrará sangue em golfadas tímidas, lágrimas virão limpar a face e o sal adivinha esculturas disformes na linha do rosto
sentir este estremecimento, sentir-me assim, sentir-te assim, dentro de mim

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Polaroid 42

as tardes à beira-mar

a tarde pousou a sua cortina nos nossos olhos. abafado
nos nossos olhos fechados, sob o sol impiedoso
descubro o teu peito, move-se lentamente para deixar o ar ser
apenas uma réstia de vento que náufraga na tua pele

fechamos os olhos perante a tarde que se estende. abafado
pela areia suja, pelos gigantes dos rochedos que escondem o mar salobro
os primeiros passos de uma criança, os seus pés delicados no cimento rude:
pára, imóvel, silenciosa e aponta

a tarde cai aos nossos pés e um dedo de criança aponta o céu azul
o primeiro odor do sargaço a secar provoca-me náuseas
e um dedo de criança aponta o céu azul
digo. não, penso: descobriu a linha que nos separa


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Polaroid 41

degrau

as escadas são os pés que as pisam: todas as horas, todos os dias, todas as noites
e as folhas caem dos calendários suspensos nas paredes
os pés pisam os degraus, um a um, dois a dois, um saltinho e chega o fim, o fim no início
e o pó vai-se acumulando nos cantos de onde o gigante sorri

em silêncio, cruzamos as pedras de granito
enquanto os ombros se tocam e os olhos se fecham
enquanto os pés, cansados na sua passada, arrastam os corpos mirrados

as escadas são os pés que as pisam: todas as horas, todos os dias, todas as noites
e o lixo acumula-se, mas:
não são papeis
não são beatas de cigarros
não são pratas
não são pedras, areia e cinza

e o lixo vai-se acumulando


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

quinta-feira, 7 de julho de 2011

bala número onze

enrola-se na língua, aperta a carne com o seu fio fino
e aperta, aperta
já não é uma língua só, são duas divididas pelo fio invisível
que aperta e aperta
já não são os braços que rodeiam o corpo
e a pele cai em escamas pesadas diante dos pés
a voz some-se entre lábios que se movem violentos
se provares o sangue receio que encontras
a lápide que enfeitará a tua tumba

e a mentira sublima de encontro aos deuses

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Manifesto CXXXI

Creonte chega de noite

franzes as sobrancelhas, um sulco entre a carne coberta de pele envelhecida suavemente
o cabelo retrai-se sobre a testa e as tuas orelhas continuam paralelas
intocáveis, entre a linha do rosto que separa a face do pescoço robusto

de olhos fechados consigo ver o teu rosto
de mãos paradas sinto o teu corpo nu

deixas os lábios entreabertos e deles se escapa o fumo do cigarro
que seguras entre dois dedos da mão esquerda
a mesma mão com que afagas os dias marcados no calendário

sei o caminho, reconheço cada curva entre a escuridão da noite
hoje, já nem a tua fotografia consigo beijar
e no chão do quarto acumulam-se os nossos cadáveres